O Nuno tem razão. Há algo de paradoxal na campanha ateísta de Londres e de Barcelona - é aquele "provavelmente". Pensemos um pouco no dístico: "Provavelmente, Deus não existe. Agora não te preocupes mais e goza a vida." A primeira frase é que conta, a segunda é como a menina ao lado do Dawkins: só aparece para a fotografia. A maioria das pessoas dispensa uma campanha para não se preocupar e gozar a vida porque já faz isso todos os dias. Incluindo os que acreditam em Deus. De resto, e a acreditar em Marx, a fé em Deus é uma ilusão criada pelos homens para não se preocuparem, exactamente com a promessa de gozarem a vida (a outra, claro). Marx chamava a isso alienação, os ateus de hoje chamam-lhe campanha. Eu chamo-lhe progresso.É certo que os ateus gozam já esta vida sem se preocuparem com a outra (se é que a outra existe, claro). Mas introduzir a dúvida na sua descrença é o início da preocupação. "Provavelmente Deus não existe"? Provavelmente? Então a internacional dos incréus faz uma campanha para dizer que não tem certezas na matéria? Na divina matéria? Enfim, na matéria divina? Ao ler esta confissão, até o mais empedernido discípulo de Feuerbach perde a tranquilidade de espírito (se é que o espírito existe, claro). Imaginem que alguém vos dizia "Provavelmente, a vida não tem sentido. Agora não te preocupes e goza-a." A vida, ou seja, o chefe, o emprego, o trânsito, a crise, as contas, o ordenado, o Sócrates, o Passos Coelho, o Saramago, o Hamas, a guerra, a fome, a peste, o aquecimento global, o arrefecimento global, as reuniões de condomínio, as traições dos amigos, as desilusões dos conhecidos, a morte dos que amamos, a dor, o sofrimento e o Trofense. O mais provável, isso sim, seria ficarmos a pensar no sentido do universo e mais umas coisinhas.O Voltaire é que sabia: se Deus não existisse, teria que ser inventado. Nem que fosse pelos ateus.
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O Nuno tem razão. Há algo de paradoxal na campanha ateísta de Londres e de Barcelona - é aquele "provavelmente". Pensemos um pouco no dístico: "Provavelmente, Deus não existe. Agora não te preocupes mais e goza a vida." A primeira frase é que conta, a segunda é como a menina ao lado do Dawkins: só aparece para a fotografia. A maioria das pessoas dispensa uma campanha para não se preocupar e gozar a vida porque já faz isso todos os dias. Incluindo os que acreditam em Deus. De resto, e a acreditar em Marx, a fé em Deus é uma ilusão criada pelos homens para não se preocuparem, exactamente com a promessa de gozarem a vida (a outra, claro). Marx chamava a isso alienação, os ateus de hoje chamam-lhe campanha. Eu chamo-lhe progresso.É certo que os ateus gozam já esta vida sem se preocuparem com a outra (se é que a outra existe, claro). Mas introduzir a dúvida na sua descrença é o início da preocupação. "Provavelmente Deus não existe"? Provavelmente? Então a internacional dos incréus faz uma campanha para dizer que não tem certezas na matéria? Na divina matéria? Enfim, na matéria divina? Ao ler esta confissão, até o mais empedernido discípulo de Feuerbach perde a tranquilidade de espírito (se é que o espírito existe, claro). Imaginem que alguém vos dizia "Provavelmente, a vida não tem sentido. Agora não te preocupes e goza-a." A vida, ou seja, o chefe, o emprego, o trânsito, a crise, as contas, o ordenado, o Sócrates, o Passos Coelho, o Saramago, o Hamas, a guerra, a fome, a peste, o aquecimento global, o arrefecimento global, as reuniões de condomínio, as traições dos amigos, as desilusões dos conhecidos, a morte dos que amamos, a dor, o sofrimento e o Trofense. O mais provável, isso sim, seria ficarmos a pensar no sentido do universo e mais umas coisinhas.O Voltaire é que sabia: se Deus não existisse, teria que ser inventado. Nem que fosse pelos ateus.