Mais do que tentar fazer cair o Governo, com a moção de censura que hoje o Parlamento deverá chumbar (só terá o apoio do BE), o PCP quis "dar voz institucional à indignação dos portugueses". O assunto é sério, alerta o líder comunista, Jerónimo de Sousa: face ao directório da UE, Portugal pode tornar-se um protectorado.
A moção de censura que o PCP leva hoje ao Parlamento foi muito criticada pelo momento escolhido. Porquê agora?
O nosso objectivo, independentemente das consequências institucionais, foi a sua dimensão política, procurando trazer à Assembleia da República o profundo descontentamento e indignação que hoje muitos portugueses sentem com estas medidas complementares ao Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC). No plano institucional, esta é a moção que desde o 25 de Abril tem menos votos contra. O essencial é a dimensão e objectivo político da iniciativa, que é a luta contra esta ofensiva sem precedentes aos portugueses.
Se o Governo caísse agora, uma crise política não iria agravar ainda mais a situação do país?
Quando apresentamos esta moção e associamos PS e PSD, não temos muitas ilusões em relação ao desfecho institucional. Mas também não aceitamos que o Governo diga "ou eu ou o caos". Se caísse, não se perdia grande coisa. Mas o que procurámos foi fazer uma censura política a estas medidas e a este rumo de desastre nacional e dar uma dimensão institucional ao grande sentimento de insatisfação dos portugueses perante esta política de direita.
Este Governo, que tem sete meses, é de esquerda. Por que é que não foi possível um maior entendimento à esquerda?
Logo após as eleições, naquela noite, Sócrates teve uma frase lapidar: "Não iremos mudar de rumo." Foi a demonstração de que não aprendeu a lição e quis manter a política de direita.
Mas o Governo já teve de rever várias das suas políticas e promessas eleitorais...
De facto mudou em algumas coisas, mas às arrecuas. Acho que o Governo se limita a gerir aquilo que são as orientações determinadas pelo capital financeiro e das grandes potências da Europa. Digo isto, porque o PCP está profundamente preocupado com as questões que envolvem a nossa soberania e a nossa independência. Não é uma frase de comício. Olhando hoje para as declarações da senhora Merkel, desse directório de grandes potências, quando vemos o Governo português ir com as medidas do PEC na mão apresentá-las a Bruxelas, quando esse directório, em particular a senhora Merkel, já decidem como temos de fazer, a questão da soberania coloca-se. Corremos o risco, tendo em conta a chantagem e a situação financeira em que nos encontramos, de nos transformarmos num mero protectorado de Bruxelas.
É uma preocupação comungada não só pelos comunistas. São muitos os portugueses, os patriotas, os democratas que, olhando para o seu país, que mal ou bem durante séculos construiu a sua independência e a sua soberania, novamente essa soberania esteja em causa por causa desta política seguidista, sem rasgo de patriotismo, aceitando de cruz tudo o que vem da União Europeia. E num quadro da UE em que essa teoria da coesão económica e social é mera propaganda, está cada um a lutar por si. Os poderosos estão a tratar dos seus interesses, secundarizando países como o nosso, mais vulneráveis do ponto de vista económico.
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Mais do que tentar fazer cair o Governo, com a moção de censura que hoje o Parlamento deverá chumbar (só terá o apoio do BE), o PCP quis "dar voz institucional à indignação dos portugueses". O assunto é sério, alerta o líder comunista, Jerónimo de Sousa: face ao directório da UE, Portugal pode tornar-se um protectorado.
A moção de censura que o PCP leva hoje ao Parlamento foi muito criticada pelo momento escolhido. Porquê agora?
O nosso objectivo, independentemente das consequências institucionais, foi a sua dimensão política, procurando trazer à Assembleia da República o profundo descontentamento e indignação que hoje muitos portugueses sentem com estas medidas complementares ao Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC). No plano institucional, esta é a moção que desde o 25 de Abril tem menos votos contra. O essencial é a dimensão e objectivo político da iniciativa, que é a luta contra esta ofensiva sem precedentes aos portugueses.
Se o Governo caísse agora, uma crise política não iria agravar ainda mais a situação do país?
Quando apresentamos esta moção e associamos PS e PSD, não temos muitas ilusões em relação ao desfecho institucional. Mas também não aceitamos que o Governo diga "ou eu ou o caos". Se caísse, não se perdia grande coisa. Mas o que procurámos foi fazer uma censura política a estas medidas e a este rumo de desastre nacional e dar uma dimensão institucional ao grande sentimento de insatisfação dos portugueses perante esta política de direita.
Este Governo, que tem sete meses, é de esquerda. Por que é que não foi possível um maior entendimento à esquerda?
Logo após as eleições, naquela noite, Sócrates teve uma frase lapidar: "Não iremos mudar de rumo." Foi a demonstração de que não aprendeu a lição e quis manter a política de direita.
Mas o Governo já teve de rever várias das suas políticas e promessas eleitorais...
De facto mudou em algumas coisas, mas às arrecuas. Acho que o Governo se limita a gerir aquilo que são as orientações determinadas pelo capital financeiro e das grandes potências da Europa. Digo isto, porque o PCP está profundamente preocupado com as questões que envolvem a nossa soberania e a nossa independência. Não é uma frase de comício. Olhando hoje para as declarações da senhora Merkel, desse directório de grandes potências, quando vemos o Governo português ir com as medidas do PEC na mão apresentá-las a Bruxelas, quando esse directório, em particular a senhora Merkel, já decidem como temos de fazer, a questão da soberania coloca-se. Corremos o risco, tendo em conta a chantagem e a situação financeira em que nos encontramos, de nos transformarmos num mero protectorado de Bruxelas.
É uma preocupação comungada não só pelos comunistas. São muitos os portugueses, os patriotas, os democratas que, olhando para o seu país, que mal ou bem durante séculos construiu a sua independência e a sua soberania, novamente essa soberania esteja em causa por causa desta política seguidista, sem rasgo de patriotismo, aceitando de cruz tudo o que vem da União Europeia. E num quadro da UE em que essa teoria da coesão económica e social é mera propaganda, está cada um a lutar por si. Os poderosos estão a tratar dos seus interesses, secundarizando países como o nosso, mais vulneráveis do ponto de vista económico.