blogue do não: Dando a palavra aos filósofos

22-12-2009
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Cara Mafalda,

O meu bem haja pelas tuas contribuições para este blogue! Revelam ponderação, equilibrio, sensatez e profunda robustez intelectual. Mas sou forçado a convir que há aqui muitas pérolas para porcos, ou no mínimo, muita sapiência para irreflectidos... Choca-me em particular a facilidade com que se esgrimem pseudo-argumentos sem qualquer fundamentação maior, a não ser aquela que acha (egocentricamente) que “a minha opinião” é melhor do que “a tua”, sendo que a na maior parte das vezes a “dita” opinião não passa disso mesmo: é pessoal, incomunicável, infundamentada, irreflectida, e parte na maioria das vezes de (pre)conceitos apenas provenientes do olhar ingénuo sobre o mundo. Ora, em democracia, e perante um espectável acto de pronunciamento referendário, nada me parece mais perigoso.Por isso quero ajudar ao debate (tão necessário num país de unanimismos baratos e “uniões” de interesses à gauche et à droite), dando o meu modesto contributo de formado em filosofia (o termo “filósofo” parece-me sempre pretensioso e infinitamente superior às minhas modestas capacidades) para a discussão de um tema, dito, “fracturante” (como se todas as discussões não fossem, por norma e defeito genético, “fracturantes”...), que tanta tinta tem feito correr na nossa sociedade, e tantas e tantas vezes, de maneira tão leviana. Ora vamos lá a ver se nos entendemos sobre dois pontos fundamentais:

1- Começo, genesicamente pois claro, pela distinção ética-moral. De uma vez por todas julgo ser necessário perceber, aprender, comer, que “ÉTICA” NÃO É SINÓNIMO DE “MORAL” (confusão frequente, avulsa que parte da ideia simplista e mediática de reduzir tudo e todos ao seu denominador mínimo comum); mais: a moral será, quanto muito, a apreensão, a compreensão, a leitura profundamente pessoal e incomunicável que cada um faz da ética, ou melhor, das éticas vigentes. Desse modo, haverá tantas “morais” quanto cabeças para as pensarem, o que de resto já Kant no século XVIII explicou muito claramente, ao que parece, sem grande resultado... O que poderemos então questionar é: então como conciliar essas várias visões éticas, isto é, as várias visões da relação do sujeito ao outro? Lévinas, filósofo lituano-francês, crítico do humanismo da segunda metade do século XX ajuda-nos: para o fazer é necessário “dar a primazia ao outro”, ou seja, admitir como máxima fundante de toda e qualquer relação ética, a primazia, a primeira palavra do outro: numa definição redonda e luminosa, o mandamento do “não matarás”, a vida do outro, seja ele quem for.

2- É frequente ler/escutar nestes debates a distinção entre “feto”, “vida humana”, “pessoa” e “pessoa humana”. Escusado será dizer que me parecem distinções pouco sérias e só compreensíveis em quem não sabe muito bem o que está a dizer. Se o feto não é vida humana é o quê? Vida vegetal? Unicamente animal? Será que poderá dar origem a uma qualquer couve, rabanete, coelho ou periquito?E a distinção entre pessoa e pessoa humana? Mas haverá uma sem a outra? De que modo? E de que modo será possível pensar uma pessoa (o humana parece-me verdadeiramente uma tautologia) e a vida humana? É possível pensar (já nem quero imaginar a sua existência carnal) uma pessoa sem ser vida humana, existência humana, ser humano? Todo e qualquer esforço de delimitação dos termos sem identificação plena não corre o risco do totalitarismo (se bem me lembro, uma das fundamentações dos nazis e dos comunistas para a perseguição ao povo judeu não passava pela suspensão e delimitação ad minimum dos seus direitos de “pessoalidade”, considerando-os, “não pessoas”, “não humanos”, e o que significava exactamente o mesmo, não “nazis” ou não “comunistas”? Sobre isto, leia-se, por exemplo, a reflexão sobre o trauma autobiográfico que Derrida escreveu em “O Monolinguismo do Outro”, acerca da suspensão da cidadania francesa a todos os judeus e seus descendentes na Argélia (não ocupada pelas forças alemãs ,entenda-se!) francesa da Segunda Guerra Mundial.

Porque já me alonguei demasiado, fico hoje por aqui, esperando que este contributo possa ajudar à discussão, clarificando confusões a mais que, insistentemente, leio e ouço nas discussões em torno da IVG.

Um abraço doLuís

Há comentários que merecem ser publicados. Deixo-vos este do Luís.

Cara Mafalda,

O meu bem haja pelas tuas contribuições para este blogue! Revelam ponderação, equilibrio, sensatez e profunda robustez intelectual. Mas sou forçado a convir que há aqui muitas pérolas para porcos, ou no mínimo, muita sapiência para irreflectidos... Choca-me em particular a facilidade com que se esgrimem pseudo-argumentos sem qualquer fundamentação maior, a não ser aquela que acha (egocentricamente) que “a minha opinião” é melhor do que “a tua”, sendo que a na maior parte das vezes a “dita” opinião não passa disso mesmo: é pessoal, incomunicável, infundamentada, irreflectida, e parte na maioria das vezes de (pre)conceitos apenas provenientes do olhar ingénuo sobre o mundo. Ora, em democracia, e perante um espectável acto de pronunciamento referendário, nada me parece mais perigoso.Por isso quero ajudar ao debate (tão necessário num país de unanimismos baratos e “uniões” de interesses à gauche et à droite), dando o meu modesto contributo de formado em filosofia (o termo “filósofo” parece-me sempre pretensioso e infinitamente superior às minhas modestas capacidades) para a discussão de um tema, dito, “fracturante” (como se todas as discussões não fossem, por norma e defeito genético, “fracturantes”...), que tanta tinta tem feito correr na nossa sociedade, e tantas e tantas vezes, de maneira tão leviana. Ora vamos lá a ver se nos entendemos sobre dois pontos fundamentais:

1- Começo, genesicamente pois claro, pela distinção ética-moral. De uma vez por todas julgo ser necessário perceber, aprender, comer, que “ÉTICA” NÃO É SINÓNIMO DE “MORAL” (confusão frequente, avulsa que parte da ideia simplista e mediática de reduzir tudo e todos ao seu denominador mínimo comum); mais: a moral será, quanto muito, a apreensão, a compreensão, a leitura profundamente pessoal e incomunicável que cada um faz da ética, ou melhor, das éticas vigentes. Desse modo, haverá tantas “morais” quanto cabeças para as pensarem, o que de resto já Kant no século XVIII explicou muito claramente, ao que parece, sem grande resultado... O que poderemos então questionar é: então como conciliar essas várias visões éticas, isto é, as várias visões da relação do sujeito ao outro? Lévinas, filósofo lituano-francês, crítico do humanismo da segunda metade do século XX ajuda-nos: para o fazer é necessário “dar a primazia ao outro”, ou seja, admitir como máxima fundante de toda e qualquer relação ética, a primazia, a primeira palavra do outro: numa definição redonda e luminosa, o mandamento do “não matarás”, a vida do outro, seja ele quem for.

2- É frequente ler/escutar nestes debates a distinção entre “feto”, “vida humana”, “pessoa” e “pessoa humana”. Escusado será dizer que me parecem distinções pouco sérias e só compreensíveis em quem não sabe muito bem o que está a dizer. Se o feto não é vida humana é o quê? Vida vegetal? Unicamente animal? Será que poderá dar origem a uma qualquer couve, rabanete, coelho ou periquito?E a distinção entre pessoa e pessoa humana? Mas haverá uma sem a outra? De que modo? E de que modo será possível pensar uma pessoa (o humana parece-me verdadeiramente uma tautologia) e a vida humana? É possível pensar (já nem quero imaginar a sua existência carnal) uma pessoa sem ser vida humana, existência humana, ser humano? Todo e qualquer esforço de delimitação dos termos sem identificação plena não corre o risco do totalitarismo (se bem me lembro, uma das fundamentações dos nazis e dos comunistas para a perseguição ao povo judeu não passava pela suspensão e delimitação ad minimum dos seus direitos de “pessoalidade”, considerando-os, “não pessoas”, “não humanos”, e o que significava exactamente o mesmo, não “nazis” ou não “comunistas”? Sobre isto, leia-se, por exemplo, a reflexão sobre o trauma autobiográfico que Derrida escreveu em “O Monolinguismo do Outro”, acerca da suspensão da cidadania francesa a todos os judeus e seus descendentes na Argélia (não ocupada pelas forças alemãs ,entenda-se!) francesa da Segunda Guerra Mundial.

Porque já me alonguei demasiado, fico hoje por aqui, esperando que este contributo possa ajudar à discussão, clarificando confusões a mais que, insistentemente, leio e ouço nas discussões em torno da IVG.

Um abraço doLuís

Há comentários que merecem ser publicados. Deixo-vos este do Luís.

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