O mestre manda, o povo obedece. O novo guru português do desenvolvimento pessoal tem 33 anos e quando lhe perguntam a profissão responde que é um "futuro nomeado ao Nobel da Paz". Apesar dos livros de auto-ajuda já não venderem assim tanto, Sá Nogueira conseguiu juntar seis mil seguidores no Pavilhão Atlântico. Por Ana Henriques (texto) e Raquel Esperança (fotografia)
Camisa de cetim vermelho e alça da mala cruzada no peito, Fátima Leitão mexe-se como se o mundo fosse acabar. Dá pontapés no ar, para um lado e para o outro, e os braços parece que se lhe vão desprender do corpo, tal a energia que põe nos movimentos. A música está a bombar e toda a gente em redor da antiga professora primária de meia-idade dança também, ao som dos ritmos de discoteca. No Pavilhão Atlântico, em Lisboa, ecoa uma voz: "Portugal é brutaaaal!" A mesma voz que já pôs estes milhares de pessoas a dar palmadas nas mãos do vizinho da cadeira ao lado ou a entoar uma desinspirada canção de Natal, a dois meses da época festiva, sem contar com o hino nacional. É só o mestre mandar. Ainda por cima com intensa felicidade, ou não fosse este um dos gurus portugueses da auto-ajuda e da realização pessoal.
Aos 33 anos, Daniel Sá Nogueira consegue arrastar pequenas multidões para as suas acções de formação, sejam elas de desenvolvimento pessoal ou de vendas. A apoteose deu-se no último domingo, quando juntou no Parque das Nações mais de seis mil almas, numa plateia que ia de advogados a vendedores de casas e agricultores - a conferência de Bob Proctor, um dos autores de O Segredo, levou, em Junho de 2008, sete mil pessoas ao Pavilhão Atlântico. Nem as crianças escaparam, levadas por pais ansiosos de lhes mostrarem que afinal é possível terem a vida com que sempre sonharam. Basta acreditar nas palavras de Daniel: "Sente o coração a bater. Encontra a luz dentro de ti. Lembra-te de que és um lusitano. Luz... itano: tu és luz. Entrega-te à luz."
Já lá vão umas boas três horas de um espectáculo de variedades que meteu números de trapezismo, bailarinos e show musical, folclore e anedotas. Tudo entremeado com os ensinamentos de Daniel, que conduz agora um dos momentos mais zen da noite. "Respirem fundo... Vamos respirar todos ao mesmo tempo. Universo significa um único verso. Aaaaah", suspira o mentor para o microfone. "Entrega-te a ti próprio e a todos nós." Sentada nas cadeiras e rendida desde o primeiro momento, a assistência relaxa até entrar o sketch que se segue, no qual Jesus Cristo dialoga com Fernando Pessoa e entra em discussões de cariz religioso com Picasso e Nelson Mandela. Amália acabou de surgir também em palco quando um problema qualquer com o sistema sonoro corta o pio ao homem que faz do pintor espanhol. O líder sul-africano lê uma passagem do livro que o guru português acabou de lançar, intitulado Trate a Vida por Tu (Gal). É aqui que Daniel conta como se cansou de explicar às pessoas o que faz na vida. Hoje, quando lhe perguntam a profissão, a resposta sai-lhe pronta: "Sou um futuro nomeado ao prémio Nobel da Paz."
Os seguidores de Daniel - que apareceu em palco vestido de astronauta, descendo do tecto do pavilhão preso por fios, mas até se ir embora de vez ainda há-de encarnar Michael Jackson e um dançarino folclórico, entre várias outras personagens - rebentam em palmas. Desta vez não é por causa dos seus ensinamentos. Cantado por uma profissional, o momento de fado comove as almas mais empedernidas. Que, de resto, se devem contar pelos dedos de uma mão.
Um kit e muitas palmas
"Às vezes queixamo-nos dos políticos", prossegue o formador. Não vale a pena, garante: "O português gosta de qualidade de vida e isso nunca ninguém nos vai tirar." Afinal, "vivemos num paraíso, num país pacífico, onde podemos comer o nosso prato preferido". Maior felicidade? "Por dez euros por mês podes adoptar uma criança à distância. É verdade. Ela não vem cá. Continua lá, em África ou na Ásia. Mas se não for essa a tua escolha, tá-se bem."
Tudo serve para espalhar a palavra de Daniel. Agora é Jack Nicholson quem aparece num dos ecrãs gigantes do Pavilhão Atlântico, num excerto dos seus filmes. Melhor é impossível, mas acontece: de repente, uma galáxia de coraçõezinhos acompanha o guru quando ele assegura que os portugueses "sentem o amor como talvez mais nenhum povo". Mais aplausos, mais euforia. Pensamentos motivadores: "Ter um filho feliz. Uma conta bancária positiva." Tudo é possível, basta querer. Que o diga o miúdo de braço partido que assiste ao espectáculo numa das primeiras filas e usa o braço livre como pode para ir participando na festa.
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Contrariado, o pessoal que veio de propósito de Reguengos de Monsaraz começa a ir-se embora: os motoristas dos autocarros emprestados pela autarquia para a excursão não esperam mais tempo, que a noite já vai adiantada. "Sinto-me mais leve, mais feliz... livre!", exclama uma comerciante da cidade alentejana antes de partir. Quem os trouxe foi o proprietário de um bar, cujo hálito comprova os afazeres profissionais. "Identifico-me com o Daniel porque os meus problemas também não existem", observa. Os bilhetes foram arranjados por uns amigos da Remax. A imobiliária é uma das empresas de renome que já contrataram o guru para motivar os trabalhadores, o que explica em parte o elevado número de pessoas que já aderiram à sua doutrina. E Eugénia Vaz, uma divorciada com 50 anos e três filhos que veio de Guimarães com mais dois colegas da Remax, constitui uma prova viva do efeito destes ensinamentos: "Estive com o Daniel numa formação para vendedores em Agosto do ano passado, chamada "Trata as Vendas por Tu", e em Novembro facturei dois milhões. Vim beber mais um pouco da sabedoria dele e ver se me ajuda mais um bocadinho."
Sempre que vem a uma coisa destas, Marina Rodrigues sente que fica uns dias "a planar": "Isto é uma espécie de loucura colectiva", descreve a professora de Educação Física de 38 anos. "Ele já deu formação à minha empresa, que é de software de gestão. É um verdadeiro astronauta", confirma um homem que trouxe a mulher e os filhos. De facto, é isso que diz a saqueta de papel distribuída aos espectadores: "Só abrir quando o astronauta disser." O kit, que inclui um balão, um rebuçado, uma raspadinha com dez mandamentos do mestre e uma moeda de um cêntimo, traz várias instruções: bater palmas, sorrir, "preparar para uma viagem de vida" (sic). Mas só quando o astronauta disser.
Quando finalmente a festa acaba, ao fim de mais de quatro horas repletas de êxitos musicais, de Carlos Paião aos Black Eyed Peas, a antiga professora primária, que veio do Fundão, confessa que as suas expectativas foram superadas: "Vou daqui cheia de energia. Só ainda não tive foi a sorte que ele teve." Pagou dez euros pelo bilhete, mas as entradas iam até aos cem. Como não se cansa de repetir Daniel, Portugal é brutal.
O mestre manda, o povo obedece. O novo guru português do desenvolvimento pessoal tem 33 anos e quando lhe perguntam a profissão responde que é um "futuro nomeado ao Nobel da Paz". Apesar dos livros de auto-ajuda já não venderem assim tanto, Sá Nogueira conseguiu juntar seis mil seguidores no Pavilhão Atlântico. Por Ana Henriques (texto) e Raquel Esperança (fotografia)
Camisa de cetim vermelho e alça da mala cruzada no peito, Fátima Leitão mexe-se como se o mundo fosse acabar. Dá pontapés no ar, para um lado e para o outro, e os braços parece que se lhe vão desprender do corpo, tal a energia que põe nos movimentos. A música está a bombar e toda a gente em redor da antiga professora primária de meia-idade dança também, ao som dos ritmos de discoteca. No Pavilhão Atlântico, em Lisboa, ecoa uma voz: "Portugal é brutaaaal!" A mesma voz que já pôs estes milhares de pessoas a dar palmadas nas mãos do vizinho da cadeira ao lado ou a entoar uma desinspirada canção de Natal, a dois meses da época festiva, sem contar com o hino nacional. É só o mestre mandar. Ainda por cima com intensa felicidade, ou não fosse este um dos gurus portugueses da auto-ajuda e da realização pessoal.
Aos 33 anos, Daniel Sá Nogueira consegue arrastar pequenas multidões para as suas acções de formação, sejam elas de desenvolvimento pessoal ou de vendas. A apoteose deu-se no último domingo, quando juntou no Parque das Nações mais de seis mil almas, numa plateia que ia de advogados a vendedores de casas e agricultores - a conferência de Bob Proctor, um dos autores de O Segredo, levou, em Junho de 2008, sete mil pessoas ao Pavilhão Atlântico. Nem as crianças escaparam, levadas por pais ansiosos de lhes mostrarem que afinal é possível terem a vida com que sempre sonharam. Basta acreditar nas palavras de Daniel: "Sente o coração a bater. Encontra a luz dentro de ti. Lembra-te de que és um lusitano. Luz... itano: tu és luz. Entrega-te à luz."
Já lá vão umas boas três horas de um espectáculo de variedades que meteu números de trapezismo, bailarinos e show musical, folclore e anedotas. Tudo entremeado com os ensinamentos de Daniel, que conduz agora um dos momentos mais zen da noite. "Respirem fundo... Vamos respirar todos ao mesmo tempo. Universo significa um único verso. Aaaaah", suspira o mentor para o microfone. "Entrega-te a ti próprio e a todos nós." Sentada nas cadeiras e rendida desde o primeiro momento, a assistência relaxa até entrar o sketch que se segue, no qual Jesus Cristo dialoga com Fernando Pessoa e entra em discussões de cariz religioso com Picasso e Nelson Mandela. Amália acabou de surgir também em palco quando um problema qualquer com o sistema sonoro corta o pio ao homem que faz do pintor espanhol. O líder sul-africano lê uma passagem do livro que o guru português acabou de lançar, intitulado Trate a Vida por Tu (Gal). É aqui que Daniel conta como se cansou de explicar às pessoas o que faz na vida. Hoje, quando lhe perguntam a profissão, a resposta sai-lhe pronta: "Sou um futuro nomeado ao prémio Nobel da Paz."
Os seguidores de Daniel - que apareceu em palco vestido de astronauta, descendo do tecto do pavilhão preso por fios, mas até se ir embora de vez ainda há-de encarnar Michael Jackson e um dançarino folclórico, entre várias outras personagens - rebentam em palmas. Desta vez não é por causa dos seus ensinamentos. Cantado por uma profissional, o momento de fado comove as almas mais empedernidas. Que, de resto, se devem contar pelos dedos de uma mão.
Um kit e muitas palmas
"Às vezes queixamo-nos dos políticos", prossegue o formador. Não vale a pena, garante: "O português gosta de qualidade de vida e isso nunca ninguém nos vai tirar." Afinal, "vivemos num paraíso, num país pacífico, onde podemos comer o nosso prato preferido". Maior felicidade? "Por dez euros por mês podes adoptar uma criança à distância. É verdade. Ela não vem cá. Continua lá, em África ou na Ásia. Mas se não for essa a tua escolha, tá-se bem."
Tudo serve para espalhar a palavra de Daniel. Agora é Jack Nicholson quem aparece num dos ecrãs gigantes do Pavilhão Atlântico, num excerto dos seus filmes. Melhor é impossível, mas acontece: de repente, uma galáxia de coraçõezinhos acompanha o guru quando ele assegura que os portugueses "sentem o amor como talvez mais nenhum povo". Mais aplausos, mais euforia. Pensamentos motivadores: "Ter um filho feliz. Uma conta bancária positiva." Tudo é possível, basta querer. Que o diga o miúdo de braço partido que assiste ao espectáculo numa das primeiras filas e usa o braço livre como pode para ir participando na festa.
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Contrariado, o pessoal que veio de propósito de Reguengos de Monsaraz começa a ir-se embora: os motoristas dos autocarros emprestados pela autarquia para a excursão não esperam mais tempo, que a noite já vai adiantada. "Sinto-me mais leve, mais feliz... livre!", exclama uma comerciante da cidade alentejana antes de partir. Quem os trouxe foi o proprietário de um bar, cujo hálito comprova os afazeres profissionais. "Identifico-me com o Daniel porque os meus problemas também não existem", observa. Os bilhetes foram arranjados por uns amigos da Remax. A imobiliária é uma das empresas de renome que já contrataram o guru para motivar os trabalhadores, o que explica em parte o elevado número de pessoas que já aderiram à sua doutrina. E Eugénia Vaz, uma divorciada com 50 anos e três filhos que veio de Guimarães com mais dois colegas da Remax, constitui uma prova viva do efeito destes ensinamentos: "Estive com o Daniel numa formação para vendedores em Agosto do ano passado, chamada "Trata as Vendas por Tu", e em Novembro facturei dois milhões. Vim beber mais um pouco da sabedoria dele e ver se me ajuda mais um bocadinho."
Sempre que vem a uma coisa destas, Marina Rodrigues sente que fica uns dias "a planar": "Isto é uma espécie de loucura colectiva", descreve a professora de Educação Física de 38 anos. "Ele já deu formação à minha empresa, que é de software de gestão. É um verdadeiro astronauta", confirma um homem que trouxe a mulher e os filhos. De facto, é isso que diz a saqueta de papel distribuída aos espectadores: "Só abrir quando o astronauta disser." O kit, que inclui um balão, um rebuçado, uma raspadinha com dez mandamentos do mestre e uma moeda de um cêntimo, traz várias instruções: bater palmas, sorrir, "preparar para uma viagem de vida" (sic). Mas só quando o astronauta disser.
Quando finalmente a festa acaba, ao fim de mais de quatro horas repletas de êxitos musicais, de Carlos Paião aos Black Eyed Peas, a antiga professora primária, que veio do Fundão, confessa que as suas expectativas foram superadas: "Vou daqui cheia de energia. Só ainda não tive foi a sorte que ele teve." Pagou dez euros pelo bilhete, mas as entradas iam até aos cem. Como não se cansa de repetir Daniel, Portugal é brutal.