Textos de Contracapa: 162

19-12-2009
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Não, não estou. Ao fim de trinta anos de profissão, aprendi muito nestes cinco anos. De facto, a experiência de um grande grupo internacional é uma coisa valiosa para nós, que estamos aqui um pouco afastados de tudo o que de importante acontece na Europa.

Tudo isto começou em 1980, quando comprou a Dom Quixote. Era uma editora média, que transformou numa das maiores editoras portuguesas.

Isso é verdade. Quando tomei contacto com a Dom Quixote, após o falecimento da Snu Abcassis (que eu tive o privilégio de conhecer, que muito estimava e que sempre considerei a fundadora da empresa), era uma pequena empresa, embora muito prestigiada, com uma marca e uma imagem de trabalho de qualidade.

Quantos livros editava por ano?

Editava, sei lá!, uns 30 livros por ano.

E quando saiu?

Editei isso, ou mais do que isso, por mês.

Curiosamente, o seu primeiro livro havia sido publicado pela Dom Quixote, em 1966.

Nessa altura, era um jovem de 21 anos, com ideias de ser escritor.

Apresentei esse livro, que se chamava «Noite Recuperada», a sete ou oito editoras, que me disseram que não e recusaram o livro. Até que o apresentei à Dom Quixote e tive uma resposta positiva.Sim. Fui, provavelmente, o primeiro autor de ficção da Dom Quixote.Sim, não há exemplares e eu próprio não consigo comprá-los.Sim, achou isso. Conscientemente. À excepção do livro de crítica.Não me envergonho, mas são obras nitidamente juvenis, obras de quem começa...É verdade. É completamente impossível regressar. Ou se é escritor uma vida inteira, ou não se é escritor. Todos os verdadeiros escritores lhe dirão isto.Ser escritor é um trabalho muito meticuloso, muito difícil, que exige um exercício permanente, uma constância, uma regularidade, e eu não me dei a esse trabalho. Para se ser escritor, para se fazer literatura, é preciso um trabalho de persistência, de rigor...Se não são oito, são seis; se não são seis, são quatro... Mas é preciso escrever todos os dias e de uma forma muito consciente.Tive, aliás, a sorte de ter um administrador nessa companhia de seguros que gostava de música e literatura, chamado Luís Barbosa, que mais tarde apareceu na política através do CDS. Um dia disse-me: «Olhe, você que tem a mania das literaturas, tome lá uma editora e vá tomar conta dela.» Despejou-me dos seguros para uma empresa acessória, que era a Arcádia. Aí começou a minha actividade futura de editor.Quando eu cheguei, a Arcádia acabava de ter o seu maior sucesso. Chamava-se «Portugal e o Futuro», do general Spínola.Fui ainda gerir os efeitos desse sucesso. Aliás, convivi ainda com o general Spínola nesse sentido, cheguei a ir a casa dele, em Massamá. Porque ele emendava e revia as provas das reedições, introduzia emendas, etc.... Paradela de Abreu, hoje já falecido. Mas convivi na Arcádia com uma pessoa muito interessante, que foi a Natália Correia, que era a directora literária. Eu estava acima dela, porque representava o accionista, mas não se pode estar acima da Natália Correia, no dia a dia. Só se podia olhar para ela com admiração.Já não me lembro bem, mas foi qualquer coisa parecida.Creio que o Saramago pode atingir hoje esses números. Estamos a falar de anos muito distintos e de taxas de leitura felizmente bastante diferentes.Sem dúvida, sem dúvida.Ao contrário do que por vezes se ouve dizer.Isso porque os editores gostam de se lamentar. Logo a seguir ao general Spínola, a Arcádia editou - e aí, já sim, por meu intermédio -, pela primeira vez em Portugal, um livro de um jovem político chamado Mário Soares, e que se chamava...Acompanhei desde o princípio a feitura do livro com o Dr. Mário Soares, indo a sua casa, vendo as provas, etc. Recordo-me de que ia a sua casa, no Campo Grande, ao fim da tarde. O Dr. Soares estava sentado numa poltrona, descontraidamente, e apontava-me, à sua frente, aquele pufo onde, quando estaria sozinho, ele estenderia os pés e descansava as pernas ao fim do dia... Eu sentava-me quase no meio das suas pernas, no pufo, e ficávamos ali, frente a frente... Ele hoje provavelmente nem se lembra disso, mas eu nunca mais esqueci a primeira vez que lá fui e fiquei sentado aos seus pés.Talvez.Não. Conheci pessoalmente Sá Carneiro e Álvaro Cunhal, mas nunca publiquei livros seus.... do Pedro Tamen, que entretanto tinha sido convidado para a administração da Fundação Gulbenkian e que quase me passou a editora como herança.Conhecíamo-nos das letras. Eu andava próximo das pessoas dos jornais, dos poetas, dos escritores, dos editores. Era o meu mundo desse tempo.Sim, sentava-me à mesa onde se sentavam o Carlos de Oliveira, o José Gomes Ferreira, o José Cardoso Pires, para os ouvir. Assim como faziam outros jovens da minha idade - recordo-me do Nuno Júdice, do Gastão Cruz... Sentávamo-nos ali para os ouvir. Eles discutiam política, literatura, falavam de livros - livros que a gente depois ia procurar ler. Admirávamos aqueles homens e respeitávamo-los de uma maneira muito vincada.Claro, quando cheguei à idade e à situação de poder ser eu a convidá-los e desafiá-los, foi isso que fiz. Naquela altura, havia alguns editores respeitáveis, mas havia outros que o não eram. Eu quis dar aos autores que amava e respeitava um trabalho, do lado da edição dos seus livros, que correspondesse à admiração e ao respeito que lhes tinha.Houve muitos homens que trabalharam na edição e que...O Rogério de Moura, o Francisco Lyon de Castro de então, o Manuel Rodrigues de Oliveira, o Manuel Dias de Carvalho, entre outros, que tinham da sua profissão o lado da seriedade, da entrega ao trabalho do autor - porque o editor está ali para servir e dar a voz ao trabalho do autor.Já, mas era uma editora extremamente simpática e que correspondia, na perfeição, àquilo que era o meu objectivo desde sempre: era uma editora de autores portugueses. Tinha uma colecção de poesia portuguesa que era assinalável: Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, o próprio Pedro Támen, António Ramos Rosa, Ruy Belo, tantos poetas importantes e que eu tive a felicidade de acompanhar. E depois teve, chamados por mim, um conjunto de outros escritores, como o José Gomes Ferreira, o José Cardoso Pires, o José Saramago e muitos outros. A Moraes foi o meu primeiro grande ensaio, valioso ensaio. É uma pena ter interrompido o seu percurso.... com um livreiro excepcional, o Edmundo, e que foi um excelente companheiro de trabalho. Era uma editora que, de facto, correspondia inteiramente àquilo que eu pensava da edição e àquilo que eu queria fazer. Foi o meu primeiro ensaio para trabalhar com autores portugueses. Desde essa altura que há uma frase que eu repito em todo o meu percurso: não faz sentido ser editor em Portugal de costas voltadas para a produção cultural nacional. Foi aí que começou a minha relação com o José Cardoso Pires, o José Gomes Ferreira, o Nuno Bragança, a Maria Velho da Costa, o Saramago, com quem tive um acidente...Essa é uma história engraçada, ocorrida durante o Verão Quente. A Moraes pertencia a O Século e foi apanhada pela agitação que se verificou dentro do jornal «O Século». Como accionista da Moraes, O Século tinha direito a nomear um administrador: o sr. Pinto. Não me lembro do seu nome, era o sr. Pinto, que chegava às quintas-feiras para a reunião de administração. Trazia uma pasta de mão e, dentro, uma arma. Chegava, punha a pistola em cima da mesa e dizia: «Ora vamos lá ver o que é que você tem aí para publicar!»Éramos os dois da administração - talvez ele fosse o presidente, já não sei. Discutíamos então a programação e os problemas da editora com uma pistola em cima da mesa. Estas histórias existiram por todo o lado.Não faço ideia. Sei que o sr. Pinto pertencia ao MRPP, que era um partido que muito influenciava a vida de «O Século» nessa altura.Exactamente. Para o sr. Pinto, eu era um social-fascista e confrontávamo-nos nessa situação. Não sei quem é hoje o sr. Pinto. Era um senhor de barbas, forte...Mas a barba dele era maior... Apesar da pistola e da consideração de que eu era um social-fascista, não me lembro de termos tido nenhum grande desacordo. Fomos sempre educados.Não, não. A história do Saramago é posterior. Mas houve outra história na Moraes muito engraçada, quando me apareceu alguém dizendo que era um operacional do ELP.... pura e dura, envolvido no bombismo, etc. Apareceu-me com um pacote de cartas do Eça de Queirós. Isto, após eu ter publicado o romance inédito do Eça, «A Tragédia da Rua das Flores», que foi um acontecimento editorial naquela altura. Era o primeiro livro do Eça inédito que se publicava ao fim de tantos anos.Aproveitando essa situação sobre o Eça, queria-me vender aquelas cartas.Inéditas e verdadeiras. Tive o cuidado de chamar um especialista em Eça de Queirós, o arquitecto Campos Matos, que me explicou que as cartas eram verdadeiras, dirigidas ao conde de Arnoso e pertencentes, portanto, à família e sucessores do conde de Arnoso - ou seja, hoje, à família Espírito Santo. A posse das cartas, portanto, era indevida.Posse indevida - não vou acrescentar mais. Contactei a família Espírito Santo e consegui estabelecer um acordo, em que pus o senhor do ELP numa sala ao lado do meu gabinete e o representante da família Espírito Santo noutra sala. O meu gabinete tinha duas portas e eu servi de pombo-correio. Consegui que a família Espírito Santo reavesse este conjunto valiosíssimo de correspondência inédita do Eça de Queirós.Seria indelicado ir até esses pormenores. Digo apenas que, como prémio deste esforço negocial (em que eu me senti como ministro dos Negócios Estrangeiros...), obtive uma carta do patriarca da família, o Sr. Ricardo Espírito Santo Silva, dizendo que, se alguma vez pensassem publicar aquele material inédito do Eça, o fariam comigo. Essa promessa ainda hoje subsiste.Estão em poder da família Espírito Santo. É um espólio volumoso e valioso. O arquitecto Campos Matos explicou que houve uma grande troca de correspondência entre o Eça e o Conde de Arnoso.Não lhe sei dizer o nome. Sei apenas que me ofereceu uma pequena estatueta, também em retribuição, esculpida em pedra, que eu suponho roubada de uma sepultura - tem todo o ar disso. Ainda hoje a conservo.Não faço ideia. Não foi por falta de interesse do editor. Mas também foi, no sentido em que eu nunca mais insisti, porque entretanto a Moraes acabou e eu fui fazer outras coisas para a Dom Quixote.Conservo essa carta, assinada pelo Sr. Ricardo Espírito Santo Silva, escrita de Londres. De resto, ele era familiar da actual ministra da Cultura, que conhece esta história, uma vez que chegámos a conviver de perto quando ela era esposa do António Lobo Antunes.Certamente que não.Sim. Quando a Moraes acabou, muitos escritores ficaram desprotegidos e vieram comigo para a Dom Quixote.É verdade.Concordo, mas se calhar estamos a esquecer alguns autores.Tentei por várias vezes, chegámos a ter conversas a esse respeito. Mas a Agustina tem também uma relação muito próxima com o seu editor e eu não forço essas situações para além de certos limites. Não sou um editor que diga que em concorrência vale tudo.O João de Melo (da Assírio & Alvim), a Lídia Jorge (Europa-América), o Cardoso Pires (O Jornal), o Lobo Antunes (Vega), o Pepetela (Edições 70)... E depois os novos que foram aparecendo, como a Inês Pedrosa, a Mafalda Ivo Cruz, o Pedro Rosa Mendes, a Ana Zanatti - e esquecerei muitos outros, que se calhar se vão zangar comigo...O apoio dos autores foi praticamente unânime. Todos manifestaram as suas preocupações perante os acontecimentos, a sua amizade, evidenciando devidamente o peso do trabalho realizado ao longo de tantos anos. Não tinham que tomar partido, mas alguns fizeram-no publicamente, outros preferiram não o fazer de um modo muito evidente. Havia que ter algum cuidado, compreende-se perfeitamente. Mas todos quiseram, cada um à sua maneira, directamente, manifestar-me o seu apoio pessoal, a sua simpatia, o seu apreço pelo meu trabalho, agradecendo o que alguns consideravam «que me deviam» e não desejavam nunca esquecer... Mas um escritor nunca «deve» nada a um editor... o editor apenas faz o trabalho que deve fazer. É este que deve ao autor a felicidade de confiar nesse trabalho.... o António Lobo Antunes, que imediatamente apoiou a nova gerência, sem sequer me ouvir, sem sequer falar comigo.Isso é conhecido. Ela gaba-se de ter sido recusada tal e qual como o Saramago. Costuma dizer isso por graça (eu também acho graça) e corresponde a uma meia verdade. À Margarida Rebelo Pinto não recusei nos mesmos termos do Saramago - embora, como disse, no caso do Saramago não tenha sido uma recusa, mas um pedido de escusa. Eu li o seu primeiro livro, «Sei Lá», achei que tinha algumas qualidades mas uma escrita descuidada e dei-lhe alguns conselhos sobre correcções a fazer; pedi-lhe que fosse para casa, que trabalhasse e reescrevesse o livro. Ela, com a sua força de juventude, achou que os meus comentários não tinham grande importância e publicou o livro tal e qual estava.Sim, com a Mafalda foi muito interessante. E isso é uma das coisas muito compensadoras da vida de um editor, esse trabalho que se faz com os autores.Nunca contabilizei muito essa situação. Para mim, é um facto natural atrever-me a discutir com um autor. Desde o José Cardoso Pires, com quem discuti um título ou algo semelhante. Muitas vezes, o autor não aceita - tem todo o direito de não aceitar, a última palavra é dele.Aceitava falar e discutir. Às vezes explicava porque é que insistia em manter aquela solução; outras vezes dizia, com naturalidade, «bom, vou tomar nota e vou ver». O que importa é esse trabalho de repartição, de o escritor sentir-se apoiado no seu editor, enquanto um leitor treinado, experiente e até com certa autoridade.Sim, também. Fiz-lhe alguns comentários relativamente a alguns livros. Aceitava muito pouco esses comentários, mas isso por razões que têm a ver com uma grande precisão que ele põe nas palavras que utiliza e ser-lhe-ia difícil a alteração.Nós somos um país de poetas! Eu já tinha convivido de muito perto com os poetas. Fui grande amigo do Ruy Belo, cheguei a conhecer o Jorge de Sena, na Moraes conheci de perto muitos dos poetas portugueses que publiquei. Foi aí que publiquei, pela primeira vez, o Manuel Alegre, depois do 25 de Abril. Sou um leitor regular de poesia e um poeta frustrado, ou seja, gostava muito de saber escrever poesia.Não, não. Escrevi poesia nos tempos do «Diário de Lisboa Juvenil», quando era dirigido pelo Mário Castrim.Sim. Quase todos os grandes prémios literários importantes em Portugal têm sido atribuídos, nos últimos anos, aos autores da Dom Quixote.... o da APE, o do Pen Club, o Prémio Vida Literária, o Prémio Camões, o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio Fernando Namora, eu sei lá!Isso é outro trabalho importante que os editores fazem, que é o de promover os seus autores junto de agentes literários, aliciar e seduzir esses agentes e as editoras estrangeiras a pegarem nos nossos autores e a publicá-los.Neste momento, pode dizer-se que não há autor da Dom Quixote que não esteja publicado em vários países. Na maior parte dos casos, isso deve-se a um trabalho meu.O crédito é comum, porque, se estivéssemos a falar de maus livros ou de maus escritores, nada disto se conseguiria.... é do editor: é apresentar o seu escritor, defendê-lo, explicá-lo nos outros países.Deveu-se ao que é hoje inevitável no mundo editorial. Surgiram novas faixas de leitores, que também há que abastecer.É claro que é uma cedência, não escondo isso. Que, em teoria, eu justifico dizendo que é muito importante que as pessoas leiam seja o que for que leiam. E que, através da leitura, vão conquistando a capacidade de seleccionar. Recordemos o que se passou connosco quando começámos a ler na juventude, que líamos o que nos punham à frente: quer histórias de amor, quer livros policiais. Progressivamente, foram essas leituras que nos foram ensinando a seleccionar as futuras leituras que fomos tendo.Exacto, mesmo coisas de menor qualidade.Mesmo lixo. Você se calhar também lê lixo, quando pega em tantos livros e depois põe de lado. O que importa é que o convívio com os livros seja cada vez mais livre e mais informado da parte do leitores. Não lhe escondo, evidentemente, que, tendo aparecido novas faixas de leitores nessa área mais ligeira, esses livros também são uma forma que as editoras, que são empresas comerciais, encontram de diversificar a sua actividade e de ir buscar compensações para os livros que se lêem menos.(Silêncio) A minha memória não me acusa de nada de que eu tenha assim uma grande vergonha.Se eu lhe disser que foram tantos, estou a ser vaidoso.A decisão de, no início da Dom Quixote, ter feito uma aposta numa tiragem de 30 mil exemplares num romance de José Cardoso Pires, chamado «Alexandra Alpha», contra a vontade do próprio autor, que me chamou louco por dezenas de vezes, mas que depois se surpreendeu quando, um ou dois meses depois, estávamos a reeditar esse livro.Exactamente. Ou de ter dito ao Manuel Alegre, quando ele me entregou o original da «Senhora das Tempestades», que ia fazer quinze mil exemplares. Também ele se surpreendeu - e reeditámos a obra. Quinze mil exemplares como tiragem inicial de um livro de poesia era qualquer coisa impensável em Portugal.Talvez a «Senhora das Tempestades», talvez a obra completa de Manuel Alegre, que já teve várias edições. Ou talvez, lá para trás, o «Poeta Militante», do José Gomes Ferreira, no tempo em que ele estava vivo e os seus livros eram um sucesso. Mas nem são os projectos que vendem muito ou têm grandes tiragens que são importantes na vida de um editor. Fico contente se um livro for discutido pela sociedade, mesmo que essa discussão seja negativa relativamente ao livro.(Silêncio)Ah, sim, certamente. Foi o mais atrevido. Vendeu trinta mil exemplares no dia do seu lançamento. Teve todas as coberturas - não houve nem jornal, nem rádio, nem canal de televisão que não ocupasse uma grande parte do seu tempo com este livro. Foi um livro que me causou bastantes dificuldades pessoais.Não digo pressões nem ameaças, mas mal-estares, comentários negativos. Algumas pessoas manifestaram o seu desgosto por eu ter tomado a decisão de o publicar. A todos expliquei que o livro existia, tratava uma questão importante, tinha revelações importantes e procurava ser sério ao ponto de as provar. Desse ponto de vista, achei que o livro merecia ser discutido na sociedade - e a sociedade que o recuse, o queime ou faça o que entender. Ou seja: eu não sou um censor!É um desafio. Eu tive a felicidade de, no meio destas tristezas e desaires que constituíram o encerramento da minha relação com a Dom Quixote, me ter surgido o desafio que a Âmbar me fez. É um desafio corajoso da parte deles. Trataram-me com uma grande gentileza e simpatia, como que a querer compensar e limpar as minhas feridas. Desse ponto de vista, foram verdadeiramente excepcionais - vieram limpar as minhas chagas e dar-me vida de novo, sem me deixar amachucar. E eu enchi-me de coragem. Talvez eu consiga voltar atrás, talvez eu consiga fazer de novo um projecto editorial similar, visto que não sei fazer outra coisa. Ou seja: reunir autores nacionais e alguns autores estrangeiros de qualidade, tentar pesquisar áreas do conhecimento e do saber, provocar a sociedade com alguns livros mais polémicos. Confesso que não sei se conseguirei, se tenho forças...Dão-me condições para isso e dão-me total liberdade e independência. Criaram-me condições para que eu ficasse em Lisboa, onde vou ficar instalado e bem instalado.Não tenho nenhuma revelação para fazer neste momento. A única coisa que estou a fazer é definir o projecto editorial, globalmente, com a equipa da Âmbar.Não digo que isso não possa acontecer. Não vou procurá-lo. O que a Âmbar deseja é autores portugueses, apresentados por autores portugueses, livros portugueses nos seus diversos domínios.Vai ser uma aposta forte e muito entusiasmada. Sinto que tenho uma alma nova e tenho todo o gosto em retribuir, com a minha eventual experiência adquirida, aquilo que a Âmbar me tentou dar num momento menos bom do ponto de vista pessoal.ENTREVISTA DE JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA - FOTOGRAFIAS DE JOÃO CARLOS SANTOS

Não, não estou. Ao fim de trinta anos de profissão, aprendi muito nestes cinco anos. De facto, a experiência de um grande grupo internacional é uma coisa valiosa para nós, que estamos aqui um pouco afastados de tudo o que de importante acontece na Europa.

Tudo isto começou em 1980, quando comprou a Dom Quixote. Era uma editora média, que transformou numa das maiores editoras portuguesas.

Isso é verdade. Quando tomei contacto com a Dom Quixote, após o falecimento da Snu Abcassis (que eu tive o privilégio de conhecer, que muito estimava e que sempre considerei a fundadora da empresa), era uma pequena empresa, embora muito prestigiada, com uma marca e uma imagem de trabalho de qualidade.

Quantos livros editava por ano?

Editava, sei lá!, uns 30 livros por ano.

E quando saiu?

Editei isso, ou mais do que isso, por mês.

Curiosamente, o seu primeiro livro havia sido publicado pela Dom Quixote, em 1966.

Nessa altura, era um jovem de 21 anos, com ideias de ser escritor.

Apresentei esse livro, que se chamava «Noite Recuperada», a sete ou oito editoras, que me disseram que não e recusaram o livro. Até que o apresentei à Dom Quixote e tive uma resposta positiva.Sim. Fui, provavelmente, o primeiro autor de ficção da Dom Quixote.Sim, não há exemplares e eu próprio não consigo comprá-los.Sim, achou isso. Conscientemente. À excepção do livro de crítica.Não me envergonho, mas são obras nitidamente juvenis, obras de quem começa...É verdade. É completamente impossível regressar. Ou se é escritor uma vida inteira, ou não se é escritor. Todos os verdadeiros escritores lhe dirão isto.Ser escritor é um trabalho muito meticuloso, muito difícil, que exige um exercício permanente, uma constância, uma regularidade, e eu não me dei a esse trabalho. Para se ser escritor, para se fazer literatura, é preciso um trabalho de persistência, de rigor...Se não são oito, são seis; se não são seis, são quatro... Mas é preciso escrever todos os dias e de uma forma muito consciente.Tive, aliás, a sorte de ter um administrador nessa companhia de seguros que gostava de música e literatura, chamado Luís Barbosa, que mais tarde apareceu na política através do CDS. Um dia disse-me: «Olhe, você que tem a mania das literaturas, tome lá uma editora e vá tomar conta dela.» Despejou-me dos seguros para uma empresa acessória, que era a Arcádia. Aí começou a minha actividade futura de editor.Quando eu cheguei, a Arcádia acabava de ter o seu maior sucesso. Chamava-se «Portugal e o Futuro», do general Spínola.Fui ainda gerir os efeitos desse sucesso. Aliás, convivi ainda com o general Spínola nesse sentido, cheguei a ir a casa dele, em Massamá. Porque ele emendava e revia as provas das reedições, introduzia emendas, etc.... Paradela de Abreu, hoje já falecido. Mas convivi na Arcádia com uma pessoa muito interessante, que foi a Natália Correia, que era a directora literária. Eu estava acima dela, porque representava o accionista, mas não se pode estar acima da Natália Correia, no dia a dia. Só se podia olhar para ela com admiração.Já não me lembro bem, mas foi qualquer coisa parecida.Creio que o Saramago pode atingir hoje esses números. Estamos a falar de anos muito distintos e de taxas de leitura felizmente bastante diferentes.Sem dúvida, sem dúvida.Ao contrário do que por vezes se ouve dizer.Isso porque os editores gostam de se lamentar. Logo a seguir ao general Spínola, a Arcádia editou - e aí, já sim, por meu intermédio -, pela primeira vez em Portugal, um livro de um jovem político chamado Mário Soares, e que se chamava...Acompanhei desde o princípio a feitura do livro com o Dr. Mário Soares, indo a sua casa, vendo as provas, etc. Recordo-me de que ia a sua casa, no Campo Grande, ao fim da tarde. O Dr. Soares estava sentado numa poltrona, descontraidamente, e apontava-me, à sua frente, aquele pufo onde, quando estaria sozinho, ele estenderia os pés e descansava as pernas ao fim do dia... Eu sentava-me quase no meio das suas pernas, no pufo, e ficávamos ali, frente a frente... Ele hoje provavelmente nem se lembra disso, mas eu nunca mais esqueci a primeira vez que lá fui e fiquei sentado aos seus pés.Talvez.Não. Conheci pessoalmente Sá Carneiro e Álvaro Cunhal, mas nunca publiquei livros seus.... do Pedro Tamen, que entretanto tinha sido convidado para a administração da Fundação Gulbenkian e que quase me passou a editora como herança.Conhecíamo-nos das letras. Eu andava próximo das pessoas dos jornais, dos poetas, dos escritores, dos editores. Era o meu mundo desse tempo.Sim, sentava-me à mesa onde se sentavam o Carlos de Oliveira, o José Gomes Ferreira, o José Cardoso Pires, para os ouvir. Assim como faziam outros jovens da minha idade - recordo-me do Nuno Júdice, do Gastão Cruz... Sentávamo-nos ali para os ouvir. Eles discutiam política, literatura, falavam de livros - livros que a gente depois ia procurar ler. Admirávamos aqueles homens e respeitávamo-los de uma maneira muito vincada.Claro, quando cheguei à idade e à situação de poder ser eu a convidá-los e desafiá-los, foi isso que fiz. Naquela altura, havia alguns editores respeitáveis, mas havia outros que o não eram. Eu quis dar aos autores que amava e respeitava um trabalho, do lado da edição dos seus livros, que correspondesse à admiração e ao respeito que lhes tinha.Houve muitos homens que trabalharam na edição e que...O Rogério de Moura, o Francisco Lyon de Castro de então, o Manuel Rodrigues de Oliveira, o Manuel Dias de Carvalho, entre outros, que tinham da sua profissão o lado da seriedade, da entrega ao trabalho do autor - porque o editor está ali para servir e dar a voz ao trabalho do autor.Já, mas era uma editora extremamente simpática e que correspondia, na perfeição, àquilo que era o meu objectivo desde sempre: era uma editora de autores portugueses. Tinha uma colecção de poesia portuguesa que era assinalável: Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, o próprio Pedro Támen, António Ramos Rosa, Ruy Belo, tantos poetas importantes e que eu tive a felicidade de acompanhar. E depois teve, chamados por mim, um conjunto de outros escritores, como o José Gomes Ferreira, o José Cardoso Pires, o José Saramago e muitos outros. A Moraes foi o meu primeiro grande ensaio, valioso ensaio. É uma pena ter interrompido o seu percurso.... com um livreiro excepcional, o Edmundo, e que foi um excelente companheiro de trabalho. Era uma editora que, de facto, correspondia inteiramente àquilo que eu pensava da edição e àquilo que eu queria fazer. Foi o meu primeiro ensaio para trabalhar com autores portugueses. Desde essa altura que há uma frase que eu repito em todo o meu percurso: não faz sentido ser editor em Portugal de costas voltadas para a produção cultural nacional. Foi aí que começou a minha relação com o José Cardoso Pires, o José Gomes Ferreira, o Nuno Bragança, a Maria Velho da Costa, o Saramago, com quem tive um acidente...Essa é uma história engraçada, ocorrida durante o Verão Quente. A Moraes pertencia a O Século e foi apanhada pela agitação que se verificou dentro do jornal «O Século». Como accionista da Moraes, O Século tinha direito a nomear um administrador: o sr. Pinto. Não me lembro do seu nome, era o sr. Pinto, que chegava às quintas-feiras para a reunião de administração. Trazia uma pasta de mão e, dentro, uma arma. Chegava, punha a pistola em cima da mesa e dizia: «Ora vamos lá ver o que é que você tem aí para publicar!»Éramos os dois da administração - talvez ele fosse o presidente, já não sei. Discutíamos então a programação e os problemas da editora com uma pistola em cima da mesa. Estas histórias existiram por todo o lado.Não faço ideia. Sei que o sr. Pinto pertencia ao MRPP, que era um partido que muito influenciava a vida de «O Século» nessa altura.Exactamente. Para o sr. Pinto, eu era um social-fascista e confrontávamo-nos nessa situação. Não sei quem é hoje o sr. Pinto. Era um senhor de barbas, forte...Mas a barba dele era maior... Apesar da pistola e da consideração de que eu era um social-fascista, não me lembro de termos tido nenhum grande desacordo. Fomos sempre educados.Não, não. A história do Saramago é posterior. Mas houve outra história na Moraes muito engraçada, quando me apareceu alguém dizendo que era um operacional do ELP.... pura e dura, envolvido no bombismo, etc. Apareceu-me com um pacote de cartas do Eça de Queirós. Isto, após eu ter publicado o romance inédito do Eça, «A Tragédia da Rua das Flores», que foi um acontecimento editorial naquela altura. Era o primeiro livro do Eça inédito que se publicava ao fim de tantos anos.Aproveitando essa situação sobre o Eça, queria-me vender aquelas cartas.Inéditas e verdadeiras. Tive o cuidado de chamar um especialista em Eça de Queirós, o arquitecto Campos Matos, que me explicou que as cartas eram verdadeiras, dirigidas ao conde de Arnoso e pertencentes, portanto, à família e sucessores do conde de Arnoso - ou seja, hoje, à família Espírito Santo. A posse das cartas, portanto, era indevida.Posse indevida - não vou acrescentar mais. Contactei a família Espírito Santo e consegui estabelecer um acordo, em que pus o senhor do ELP numa sala ao lado do meu gabinete e o representante da família Espírito Santo noutra sala. O meu gabinete tinha duas portas e eu servi de pombo-correio. Consegui que a família Espírito Santo reavesse este conjunto valiosíssimo de correspondência inédita do Eça de Queirós.Seria indelicado ir até esses pormenores. Digo apenas que, como prémio deste esforço negocial (em que eu me senti como ministro dos Negócios Estrangeiros...), obtive uma carta do patriarca da família, o Sr. Ricardo Espírito Santo Silva, dizendo que, se alguma vez pensassem publicar aquele material inédito do Eça, o fariam comigo. Essa promessa ainda hoje subsiste.Estão em poder da família Espírito Santo. É um espólio volumoso e valioso. O arquitecto Campos Matos explicou que houve uma grande troca de correspondência entre o Eça e o Conde de Arnoso.Não lhe sei dizer o nome. Sei apenas que me ofereceu uma pequena estatueta, também em retribuição, esculpida em pedra, que eu suponho roubada de uma sepultura - tem todo o ar disso. Ainda hoje a conservo.Não faço ideia. Não foi por falta de interesse do editor. Mas também foi, no sentido em que eu nunca mais insisti, porque entretanto a Moraes acabou e eu fui fazer outras coisas para a Dom Quixote.Conservo essa carta, assinada pelo Sr. Ricardo Espírito Santo Silva, escrita de Londres. De resto, ele era familiar da actual ministra da Cultura, que conhece esta história, uma vez que chegámos a conviver de perto quando ela era esposa do António Lobo Antunes.Certamente que não.Sim. Quando a Moraes acabou, muitos escritores ficaram desprotegidos e vieram comigo para a Dom Quixote.É verdade.Concordo, mas se calhar estamos a esquecer alguns autores.Tentei por várias vezes, chegámos a ter conversas a esse respeito. Mas a Agustina tem também uma relação muito próxima com o seu editor e eu não forço essas situações para além de certos limites. Não sou um editor que diga que em concorrência vale tudo.O João de Melo (da Assírio & Alvim), a Lídia Jorge (Europa-América), o Cardoso Pires (O Jornal), o Lobo Antunes (Vega), o Pepetela (Edições 70)... E depois os novos que foram aparecendo, como a Inês Pedrosa, a Mafalda Ivo Cruz, o Pedro Rosa Mendes, a Ana Zanatti - e esquecerei muitos outros, que se calhar se vão zangar comigo...O apoio dos autores foi praticamente unânime. Todos manifestaram as suas preocupações perante os acontecimentos, a sua amizade, evidenciando devidamente o peso do trabalho realizado ao longo de tantos anos. Não tinham que tomar partido, mas alguns fizeram-no publicamente, outros preferiram não o fazer de um modo muito evidente. Havia que ter algum cuidado, compreende-se perfeitamente. Mas todos quiseram, cada um à sua maneira, directamente, manifestar-me o seu apoio pessoal, a sua simpatia, o seu apreço pelo meu trabalho, agradecendo o que alguns consideravam «que me deviam» e não desejavam nunca esquecer... Mas um escritor nunca «deve» nada a um editor... o editor apenas faz o trabalho que deve fazer. É este que deve ao autor a felicidade de confiar nesse trabalho.... o António Lobo Antunes, que imediatamente apoiou a nova gerência, sem sequer me ouvir, sem sequer falar comigo.Isso é conhecido. Ela gaba-se de ter sido recusada tal e qual como o Saramago. Costuma dizer isso por graça (eu também acho graça) e corresponde a uma meia verdade. À Margarida Rebelo Pinto não recusei nos mesmos termos do Saramago - embora, como disse, no caso do Saramago não tenha sido uma recusa, mas um pedido de escusa. Eu li o seu primeiro livro, «Sei Lá», achei que tinha algumas qualidades mas uma escrita descuidada e dei-lhe alguns conselhos sobre correcções a fazer; pedi-lhe que fosse para casa, que trabalhasse e reescrevesse o livro. Ela, com a sua força de juventude, achou que os meus comentários não tinham grande importância e publicou o livro tal e qual estava.Sim, com a Mafalda foi muito interessante. E isso é uma das coisas muito compensadoras da vida de um editor, esse trabalho que se faz com os autores.Nunca contabilizei muito essa situação. Para mim, é um facto natural atrever-me a discutir com um autor. Desde o José Cardoso Pires, com quem discuti um título ou algo semelhante. Muitas vezes, o autor não aceita - tem todo o direito de não aceitar, a última palavra é dele.Aceitava falar e discutir. Às vezes explicava porque é que insistia em manter aquela solução; outras vezes dizia, com naturalidade, «bom, vou tomar nota e vou ver». O que importa é esse trabalho de repartição, de o escritor sentir-se apoiado no seu editor, enquanto um leitor treinado, experiente e até com certa autoridade.Sim, também. Fiz-lhe alguns comentários relativamente a alguns livros. Aceitava muito pouco esses comentários, mas isso por razões que têm a ver com uma grande precisão que ele põe nas palavras que utiliza e ser-lhe-ia difícil a alteração.Nós somos um país de poetas! Eu já tinha convivido de muito perto com os poetas. Fui grande amigo do Ruy Belo, cheguei a conhecer o Jorge de Sena, na Moraes conheci de perto muitos dos poetas portugueses que publiquei. Foi aí que publiquei, pela primeira vez, o Manuel Alegre, depois do 25 de Abril. Sou um leitor regular de poesia e um poeta frustrado, ou seja, gostava muito de saber escrever poesia.Não, não. Escrevi poesia nos tempos do «Diário de Lisboa Juvenil», quando era dirigido pelo Mário Castrim.Sim. Quase todos os grandes prémios literários importantes em Portugal têm sido atribuídos, nos últimos anos, aos autores da Dom Quixote.... o da APE, o do Pen Club, o Prémio Vida Literária, o Prémio Camões, o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio Fernando Namora, eu sei lá!Isso é outro trabalho importante que os editores fazem, que é o de promover os seus autores junto de agentes literários, aliciar e seduzir esses agentes e as editoras estrangeiras a pegarem nos nossos autores e a publicá-los.Neste momento, pode dizer-se que não há autor da Dom Quixote que não esteja publicado em vários países. Na maior parte dos casos, isso deve-se a um trabalho meu.O crédito é comum, porque, se estivéssemos a falar de maus livros ou de maus escritores, nada disto se conseguiria.... é do editor: é apresentar o seu escritor, defendê-lo, explicá-lo nos outros países.Deveu-se ao que é hoje inevitável no mundo editorial. Surgiram novas faixas de leitores, que também há que abastecer.É claro que é uma cedência, não escondo isso. Que, em teoria, eu justifico dizendo que é muito importante que as pessoas leiam seja o que for que leiam. E que, através da leitura, vão conquistando a capacidade de seleccionar. Recordemos o que se passou connosco quando começámos a ler na juventude, que líamos o que nos punham à frente: quer histórias de amor, quer livros policiais. Progressivamente, foram essas leituras que nos foram ensinando a seleccionar as futuras leituras que fomos tendo.Exacto, mesmo coisas de menor qualidade.Mesmo lixo. Você se calhar também lê lixo, quando pega em tantos livros e depois põe de lado. O que importa é que o convívio com os livros seja cada vez mais livre e mais informado da parte do leitores. Não lhe escondo, evidentemente, que, tendo aparecido novas faixas de leitores nessa área mais ligeira, esses livros também são uma forma que as editoras, que são empresas comerciais, encontram de diversificar a sua actividade e de ir buscar compensações para os livros que se lêem menos.(Silêncio) A minha memória não me acusa de nada de que eu tenha assim uma grande vergonha.Se eu lhe disser que foram tantos, estou a ser vaidoso.A decisão de, no início da Dom Quixote, ter feito uma aposta numa tiragem de 30 mil exemplares num romance de José Cardoso Pires, chamado «Alexandra Alpha», contra a vontade do próprio autor, que me chamou louco por dezenas de vezes, mas que depois se surpreendeu quando, um ou dois meses depois, estávamos a reeditar esse livro.Exactamente. Ou de ter dito ao Manuel Alegre, quando ele me entregou o original da «Senhora das Tempestades», que ia fazer quinze mil exemplares. Também ele se surpreendeu - e reeditámos a obra. Quinze mil exemplares como tiragem inicial de um livro de poesia era qualquer coisa impensável em Portugal.Talvez a «Senhora das Tempestades», talvez a obra completa de Manuel Alegre, que já teve várias edições. Ou talvez, lá para trás, o «Poeta Militante», do José Gomes Ferreira, no tempo em que ele estava vivo e os seus livros eram um sucesso. Mas nem são os projectos que vendem muito ou têm grandes tiragens que são importantes na vida de um editor. Fico contente se um livro for discutido pela sociedade, mesmo que essa discussão seja negativa relativamente ao livro.(Silêncio)Ah, sim, certamente. Foi o mais atrevido. Vendeu trinta mil exemplares no dia do seu lançamento. Teve todas as coberturas - não houve nem jornal, nem rádio, nem canal de televisão que não ocupasse uma grande parte do seu tempo com este livro. Foi um livro que me causou bastantes dificuldades pessoais.Não digo pressões nem ameaças, mas mal-estares, comentários negativos. Algumas pessoas manifestaram o seu desgosto por eu ter tomado a decisão de o publicar. A todos expliquei que o livro existia, tratava uma questão importante, tinha revelações importantes e procurava ser sério ao ponto de as provar. Desse ponto de vista, achei que o livro merecia ser discutido na sociedade - e a sociedade que o recuse, o queime ou faça o que entender. Ou seja: eu não sou um censor!É um desafio. Eu tive a felicidade de, no meio destas tristezas e desaires que constituíram o encerramento da minha relação com a Dom Quixote, me ter surgido o desafio que a Âmbar me fez. É um desafio corajoso da parte deles. Trataram-me com uma grande gentileza e simpatia, como que a querer compensar e limpar as minhas feridas. Desse ponto de vista, foram verdadeiramente excepcionais - vieram limpar as minhas chagas e dar-me vida de novo, sem me deixar amachucar. E eu enchi-me de coragem. Talvez eu consiga voltar atrás, talvez eu consiga fazer de novo um projecto editorial similar, visto que não sei fazer outra coisa. Ou seja: reunir autores nacionais e alguns autores estrangeiros de qualidade, tentar pesquisar áreas do conhecimento e do saber, provocar a sociedade com alguns livros mais polémicos. Confesso que não sei se conseguirei, se tenho forças...Dão-me condições para isso e dão-me total liberdade e independência. Criaram-me condições para que eu ficasse em Lisboa, onde vou ficar instalado e bem instalado.Não tenho nenhuma revelação para fazer neste momento. A única coisa que estou a fazer é definir o projecto editorial, globalmente, com a equipa da Âmbar.Não digo que isso não possa acontecer. Não vou procurá-lo. O que a Âmbar deseja é autores portugueses, apresentados por autores portugueses, livros portugueses nos seus diversos domínios.Vai ser uma aposta forte e muito entusiasmada. Sinto que tenho uma alma nova e tenho todo o gosto em retribuir, com a minha eventual experiência adquirida, aquilo que a Âmbar me tentou dar num momento menos bom do ponto de vista pessoal.ENTREVISTA DE JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA - FOTOGRAFIAS DE JOÃO CARLOS SANTOS

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