Marco António e a vertigem do poder

07-06-2017
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Diz-se que foi Marco António Costa quem, perante o PEC IV apresentado por José Sócrates, terá dito a Passos Coelho que era a altura de fazer cair o Governo socialista ("ou há eleições no país ou há eleições no PSD", assim reza a lenda) Aparentemente, Passos seguiu a primeira alternativa e votou (ao lado do CDS, PCP e BE) contra o PEC precipitando a queda do governo minoritário de Sócrates.

Marco António foi tomado pela vertigem do poder e contagiou Passos com essa vertigem, um impulso próprio de quem não sabe esperar a sua hora. Outros conselheiros de Passos (diz-se que Catroga, por exemplo), seriam a favor da aprovação do PEC, a fim de cozinhar Sócrates em lume brando, em vez de o apear repentinamente do poder.

Aqueles que ainda hoje são indefetíveis do ex-líder do PS e do Governo juram que, caso o PEC IV tivesse sido aprovado, jamais a troika teria entrado em Portugal. Pessoalmente, e apesar de na altura ter defendido que o PSD devia ter votado favoravelmente o PEC, duvido desse desfecho. Acredito que viria um PEC V e ou mesmo um VI e, depois, inapelavelmente, entrava a mesmíssima troika. Bem sei que se argumenta que a Espanha e a Itália (para não falar da França) conseguiram evitar o FMI, apesar das enormes dificuldades por que passaram e passam. Mas o mesmo não aconteceu com Chipre, nem tinha acontecido com a Grécia ou a Irlanda, uma vez que, como Portugal, são pequenas economias. Comparar-nos com a Espanha é como a Bélgica comparar-se com a França, a Irlanda com o Reino Unido ou a Áustria com a Alemanha. Não se trata da dignidade de cada povo, ou do bom senso de cada Governo; antes se trata da possibilidade de cada país.

Qual era, então a vantagem? É que ficaria claro que o anterior Governo não tinha um projeto interrompido. Pura e simplesmente não tinha projeto nenhum. Ou que o anterior Governo seria tão - digamos por facilidade - 'neo-liberal' como este. Ou (hipótese que coloco no mero campo académico), que o anterior Governo tinha razão e estaríamos todos melhor, ou menos mal.

Mas houve eleições, que tal como Marco António previra, deram a vitória ao PSD, coligado com o CDS. Três anos de crise brutal depois, apesar de os indicadores macroeconómicos terem melhorado, que lucrou Marco António com a sua vertigem? Uma secretaria de Estado! Estará convicto que fica na História por ter salvado o país? Que o povo lhe agradece? Não quer nada, foi mero jogo? Ou nas suas cogitações apenas deseja um bom lugar numa empresa privada (isso pode ser mais provável)?

Seja o que for, Marco António Costa será lembrado como o homem que não soube esperar, que avançou sem medir consequências. Neste particular honra o nome (o Marco António romano, depois de várias peripécias e devassas denunciadas por Cícero, após alianças feitas e desfeitas com César que lhe deram a esperança de ser o seu sucessor, acabou no Egito, ao lado de Cleópatra a comportar-se como um déspota sendo derrotado por Octávio, na batalha marítima de Áccio, onde perdeu qualquer hipótese de se tornar Imperador).

A vertigem do poder acaba, quase sempre assim, em desgraça. Ou assassinado (real ou metaforicamente por um próximo, como César foi por Brutus) ou derrotado por alguém mais novo, sem apelo nem agravo.

Quando o mandato deste Governo estiver completo, qual será o conselho de Marco António a Pedro Passos Coelho? Que se afaste? Para dar o lugar a quem, no PSD? Que continue e se exponha à derrota certa?

Como todas as vertigens, ou desejos incontroláveis, também a do poder só acaba quando esbarra na realidade. E o balanço que se pode fazer da ação do PSD até agora está longe de ser grandioso: nem fez o que devia na reforma do Estado, nem conseguiu demonstrar que era diferente (com o caso Relvas tornou-se igual), nem conseguiu provar a boa parte da população que o caminho de Sócrates era verdadeiramente insustentável. Para muitos, a chegada de Passos Coelho ao poder é uma tragédia que não deixarão de fazer sentir nas urnas de forma bastante viva. E tudo isso resulta, apenas, do súbito desejo de poder de Marco António.

Twitter: @HenriquMonteiro https://twitter.com/HenriquMonteiro

Facebook:Henrique Monteiro http://www.facebook.com/hmonteir

Diz-se que foi Marco António Costa quem, perante o PEC IV apresentado por José Sócrates, terá dito a Passos Coelho que era a altura de fazer cair o Governo socialista ("ou há eleições no país ou há eleições no PSD", assim reza a lenda) Aparentemente, Passos seguiu a primeira alternativa e votou (ao lado do CDS, PCP e BE) contra o PEC precipitando a queda do governo minoritário de Sócrates.

Marco António foi tomado pela vertigem do poder e contagiou Passos com essa vertigem, um impulso próprio de quem não sabe esperar a sua hora. Outros conselheiros de Passos (diz-se que Catroga, por exemplo), seriam a favor da aprovação do PEC, a fim de cozinhar Sócrates em lume brando, em vez de o apear repentinamente do poder.

Aqueles que ainda hoje são indefetíveis do ex-líder do PS e do Governo juram que, caso o PEC IV tivesse sido aprovado, jamais a troika teria entrado em Portugal. Pessoalmente, e apesar de na altura ter defendido que o PSD devia ter votado favoravelmente o PEC, duvido desse desfecho. Acredito que viria um PEC V e ou mesmo um VI e, depois, inapelavelmente, entrava a mesmíssima troika. Bem sei que se argumenta que a Espanha e a Itália (para não falar da França) conseguiram evitar o FMI, apesar das enormes dificuldades por que passaram e passam. Mas o mesmo não aconteceu com Chipre, nem tinha acontecido com a Grécia ou a Irlanda, uma vez que, como Portugal, são pequenas economias. Comparar-nos com a Espanha é como a Bélgica comparar-se com a França, a Irlanda com o Reino Unido ou a Áustria com a Alemanha. Não se trata da dignidade de cada povo, ou do bom senso de cada Governo; antes se trata da possibilidade de cada país.

Qual era, então a vantagem? É que ficaria claro que o anterior Governo não tinha um projeto interrompido. Pura e simplesmente não tinha projeto nenhum. Ou que o anterior Governo seria tão - digamos por facilidade - 'neo-liberal' como este. Ou (hipótese que coloco no mero campo académico), que o anterior Governo tinha razão e estaríamos todos melhor, ou menos mal.

Mas houve eleições, que tal como Marco António previra, deram a vitória ao PSD, coligado com o CDS. Três anos de crise brutal depois, apesar de os indicadores macroeconómicos terem melhorado, que lucrou Marco António com a sua vertigem? Uma secretaria de Estado! Estará convicto que fica na História por ter salvado o país? Que o povo lhe agradece? Não quer nada, foi mero jogo? Ou nas suas cogitações apenas deseja um bom lugar numa empresa privada (isso pode ser mais provável)?

Seja o que for, Marco António Costa será lembrado como o homem que não soube esperar, que avançou sem medir consequências. Neste particular honra o nome (o Marco António romano, depois de várias peripécias e devassas denunciadas por Cícero, após alianças feitas e desfeitas com César que lhe deram a esperança de ser o seu sucessor, acabou no Egito, ao lado de Cleópatra a comportar-se como um déspota sendo derrotado por Octávio, na batalha marítima de Áccio, onde perdeu qualquer hipótese de se tornar Imperador).

A vertigem do poder acaba, quase sempre assim, em desgraça. Ou assassinado (real ou metaforicamente por um próximo, como César foi por Brutus) ou derrotado por alguém mais novo, sem apelo nem agravo.

Quando o mandato deste Governo estiver completo, qual será o conselho de Marco António a Pedro Passos Coelho? Que se afaste? Para dar o lugar a quem, no PSD? Que continue e se exponha à derrota certa?

Como todas as vertigens, ou desejos incontroláveis, também a do poder só acaba quando esbarra na realidade. E o balanço que se pode fazer da ação do PSD até agora está longe de ser grandioso: nem fez o que devia na reforma do Estado, nem conseguiu demonstrar que era diferente (com o caso Relvas tornou-se igual), nem conseguiu provar a boa parte da população que o caminho de Sócrates era verdadeiramente insustentável. Para muitos, a chegada de Passos Coelho ao poder é uma tragédia que não deixarão de fazer sentir nas urnas de forma bastante viva. E tudo isso resulta, apenas, do súbito desejo de poder de Marco António.

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