Em Almada os barões partidários do PSD e do CDS foram dar um abraço a Marcelo, mas foi um socialista que subiu ao palco para lhe fazer o elogio e a defesa: Eduardo Barroso, amigo de infância, com muito afeto
Para entrar no espírito da campanha de Marcelo Rebelo de Sousa é preciso entrar no que se poderia chamar o comprimento-de-onda-Paulo-Coelho, onde os "afetos" salvam o mundo e a autoestima faz o resto. Marcelo repete a cada discurso que "o país precisa de afetos", "o país está carenciado de afetos, de convergências, de aproximações", e com essa mensagem passa por cima das "feridas, dos sacrifícios, dos afastamentos" provocados pela crise económica, primeiro, e pela longa disputa legislativa e pós-legislativa, depois. Esta segunda-feira, em Almada, o seu comício teve um convidado especial que deu uma demonstração prática de como os afetos superam as divergências.
Sala modesta, que modesta é a terra para quem chega com cartão laranja, mesmo que se apresente como sendo "a esquerda da direita", Marcelo tinha umas 200 pessoas à sua espera em Almada para a sua "sessão pública" (marcelês para "comício"). Entre eles, várias caras conhecidas do PSD e do CDS, que por estes dias disfarçam menos a sua proximidade ao candidato: Nilza de Sena, vice-presidente do PSD, Nuno Magalhães, líder parlamentar do CDS, mais os líderes distritais dos dois partidos em Setúbal, e ainda uns quantos deputados e ex-deputados eram visíveis pela sala. Mas não era nem do PSD nem do CDS a estrela convidada para abrilhantar a sessão. Era o cirurgião Eduardo Barroso, socialista de voto e sangue, mas marcelista de criação - são os melhores amigos, e os mais antigos amigos. Ambos da mesma idade (67), ambos amigos e cúmplices há 65 anos (vá lá, 63 anos, se tivermos em conta, como admitiu Barroso, que nos primeiros dois se limitaram a balbuciar e babar).
Ao palco de Almada, Barroso trouxe a promessa do voto em Marcelo, a certeza da vitória de Marcelo à primeira volta (até adiou uma ida a Angola para estar em Portugal no domingo) e as razões do apoio a Marcelo - incluindo, claro está, o afeto.
A rifa premiada, em resposta a Sampaio da Nóvoa
Numa referência a Sampaio da Nóvoa (que, segundo Barroso relevou, o convidou para ser seu mandatário), o cirurgião pegou na frase do ex-reitor sobre votar em Marcelo se o mesmo que comprar uma rifa. Eduardo Barroso tirou do bolso a suposta rifa, desembrulhou-a, descobriu que tinha prémio. "Então, Marcelinho, o que diz a rifa? Diz que talvez eu não mereça a tua amizade fraterna. Elogia a tua competência, a tia generosidade, a tua solidariedade, às vezes a tua irreverência, o teu grande sentido de humor, a tua inteligência e a tua experiência política."
"Marcelinho", na primeira fila, aplaudiu com o resto da sala. Eduardo explicou que o seu voto no amigo "não é um voto nem de esquerda nem de direita, é o voto na pessoa que pensamos estar melhor preparada para ser Presidente da República" - e, curiosamente, incluiu nessa preparação ao anos de comentário televisivo em que Rebelo de Sousa falava de tudo e mais alguma coisa, "até de futebol" - se esses comentários são hoje atacados pelos adversários do candidato, o seu amigo mais antigo viu sempre ali um processo "fundamental" na preparação para o mais alto cargo da nação.
Afinal, o cargo para o qual ele, Eduardo, sempre viu Marcelo talhado: o amigo havia de ser ou Presidente do Conselho (se se desse o caso da ditadura não ter caído), ou Presidente da República. Agora, até a mãe de Marcelo, apesar de já ter morrido, estará "tão contente, porque finalmente o filho vai concretizar o sonho".
No meio de tanta amizade, tanto afeto e até alguma dimensão espiritual (foi essa, "espiritual", a palavra usada adiante por Marcelo para falar da proximidade afetuosa que quer praticar a partir de Belém), ainda houve lugar para Eduardo Barroso fazer política. Cirurgião que é, e de pergaminhos, jurou pelo apoio do amigo, desde sempre, ao serviço nacional de saúde. A acusação contrária, que os adversários têm feito a Marcelo, "foi das mais injustas" de que foi alvo. Palavra de médico e socialista.
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Em Almada os barões partidários do PSD e do CDS foram dar um abraço a Marcelo, mas foi um socialista que subiu ao palco para lhe fazer o elogio e a defesa: Eduardo Barroso, amigo de infância, com muito afeto
Para entrar no espírito da campanha de Marcelo Rebelo de Sousa é preciso entrar no que se poderia chamar o comprimento-de-onda-Paulo-Coelho, onde os "afetos" salvam o mundo e a autoestima faz o resto. Marcelo repete a cada discurso que "o país precisa de afetos", "o país está carenciado de afetos, de convergências, de aproximações", e com essa mensagem passa por cima das "feridas, dos sacrifícios, dos afastamentos" provocados pela crise económica, primeiro, e pela longa disputa legislativa e pós-legislativa, depois. Esta segunda-feira, em Almada, o seu comício teve um convidado especial que deu uma demonstração prática de como os afetos superam as divergências.
Sala modesta, que modesta é a terra para quem chega com cartão laranja, mesmo que se apresente como sendo "a esquerda da direita", Marcelo tinha umas 200 pessoas à sua espera em Almada para a sua "sessão pública" (marcelês para "comício"). Entre eles, várias caras conhecidas do PSD e do CDS, que por estes dias disfarçam menos a sua proximidade ao candidato: Nilza de Sena, vice-presidente do PSD, Nuno Magalhães, líder parlamentar do CDS, mais os líderes distritais dos dois partidos em Setúbal, e ainda uns quantos deputados e ex-deputados eram visíveis pela sala. Mas não era nem do PSD nem do CDS a estrela convidada para abrilhantar a sessão. Era o cirurgião Eduardo Barroso, socialista de voto e sangue, mas marcelista de criação - são os melhores amigos, e os mais antigos amigos. Ambos da mesma idade (67), ambos amigos e cúmplices há 65 anos (vá lá, 63 anos, se tivermos em conta, como admitiu Barroso, que nos primeiros dois se limitaram a balbuciar e babar).
Ao palco de Almada, Barroso trouxe a promessa do voto em Marcelo, a certeza da vitória de Marcelo à primeira volta (até adiou uma ida a Angola para estar em Portugal no domingo) e as razões do apoio a Marcelo - incluindo, claro está, o afeto.
A rifa premiada, em resposta a Sampaio da Nóvoa
Numa referência a Sampaio da Nóvoa (que, segundo Barroso relevou, o convidou para ser seu mandatário), o cirurgião pegou na frase do ex-reitor sobre votar em Marcelo se o mesmo que comprar uma rifa. Eduardo Barroso tirou do bolso a suposta rifa, desembrulhou-a, descobriu que tinha prémio. "Então, Marcelinho, o que diz a rifa? Diz que talvez eu não mereça a tua amizade fraterna. Elogia a tua competência, a tia generosidade, a tua solidariedade, às vezes a tua irreverência, o teu grande sentido de humor, a tua inteligência e a tua experiência política."
"Marcelinho", na primeira fila, aplaudiu com o resto da sala. Eduardo explicou que o seu voto no amigo "não é um voto nem de esquerda nem de direita, é o voto na pessoa que pensamos estar melhor preparada para ser Presidente da República" - e, curiosamente, incluiu nessa preparação ao anos de comentário televisivo em que Rebelo de Sousa falava de tudo e mais alguma coisa, "até de futebol" - se esses comentários são hoje atacados pelos adversários do candidato, o seu amigo mais antigo viu sempre ali um processo "fundamental" na preparação para o mais alto cargo da nação.
Afinal, o cargo para o qual ele, Eduardo, sempre viu Marcelo talhado: o amigo havia de ser ou Presidente do Conselho (se se desse o caso da ditadura não ter caído), ou Presidente da República. Agora, até a mãe de Marcelo, apesar de já ter morrido, estará "tão contente, porque finalmente o filho vai concretizar o sonho".
No meio de tanta amizade, tanto afeto e até alguma dimensão espiritual (foi essa, "espiritual", a palavra usada adiante por Marcelo para falar da proximidade afetuosa que quer praticar a partir de Belém), ainda houve lugar para Eduardo Barroso fazer política. Cirurgião que é, e de pergaminhos, jurou pelo apoio do amigo, desde sempre, ao serviço nacional de saúde. A acusação contrária, que os adversários têm feito a Marcelo, "foi das mais injustas" de que foi alvo. Palavra de médico e socialista.