Ladrões de Bicicletas: Sem luz ao fundo do túnel

22-05-2019
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As sondagens realizadas em finais de Julho mostram que os partidos do governo estão a ser penalizados mas sem que tal conduza a uma inequívoca descolagem do Partido Socialista. Apesar do descalabro socioeconómico e financeiro em que o país se encontra e da recente crise política sem precedentes, o PS continua a não alcançar a maioria absoluta do eleitorado. Admitindo que a abstenção e o voto em branco devem continuar elevados, as sondagens mostram que os eleitores ainda não estabilizaram a sua escolha eleitoral, porventura insatisfeitos com o menu que lhes apresentam.

 
Não é difícil entender a insatisfação dos eleitores. Os partidos que estão no governo imputaram a presente crise à péssima gestão dos governos socialistas e apresentaram o memorando assinado com a troika como um roteiro adequado para nos colocar no bom caminho. Com os desastrosos resultados obtidos, a que se juntou a carta de demissão de Vítor Gaspar, o país começou a perceber que foi lançado num plano inclinado de que nem a suavização da austeridade nem o tão falado estímulo ao investimento o livram. Não esqueçamos que quaisquer cortes na despesa pública são sempre recessivos, mais ainda quando se trata de despedir funcionários. E também não esqueçamos que os apregoados estímulos ao investimento visam a redução dos custos das empresas e dos impostos das que ainda têm lucros, o que passa ao lado do que é decisivo, a quebra na procura e a grave incerteza quanto à sua retoma.

Até à rebelião de António Costa, e sobretudo até ao regresso de José Sócrates, a direcção do Partido Socialista evitou repudiar frontalmente o discurso do governo sobre as causas internas da crise. Ignorando a sua natureza sistémica, acabou por admitir, pelo menos implicitamente, que as causas internas eram as decisivas. A sua oposição centrou-se no excesso de zelo do governo na execução da austeridade inscrita no memorando e explorou de forma populista, como de resto a restante esquerda, os "erros de previsão" do ministro das finanças. Só mais tarde é que colocou a tónica do discurso na natureza perversa da austeridade, na dimensão europeia da crise e na necessidade de renegociar o memorando. Ainda assim, não fora a agitação de alguns notáveis do partido, o centrismo do PS quase o levou a assinar com o governo um acordo suicida para a cogestão da austeridade.

Boa parte do eleitorado já percebeu que o PS não tem uma alternativa para este caminho de atolamento na depressão. Mas também não vê no BE e no PCP uma política económica suficientemente elaborada para enquadrar estrategicamente a decisão de romper com o memorando e abrir uma renegociação da dívida pública. Afinal, o que faria um governo liderado por estes partidos se a resposta ao pedido de negociações fosse a suspensão do financiamento da UE? Um mínimo de respeito pelos eleitores impõe que enunciem desde já o que se seguiria ao fracasso de tais negociações e da consequente declaração de uma moratória ao serviço da dívida: sair da zona euro e financiar o Estado através da emissão de moeda soberana. Mais ainda, para ser consistente, esta esquerda teria de formular duas estratégias de desenvolvimento para o país, uma para a permanência na zona euro, caso a reestruturação da dívida fosse aceite, outra para o caso de ruptura porque, como é evidente, as condições institucionais seriam radicalmente distintas. Uma base ideológica anticapitalista, a falta de clareza na estratégia e a exclusão de uma plataforma eleitoral comum, são factores que se entrelaçam e impedem estes partidos de se afirmarem nas sondagens como a alternativa por que o eleitorado espera e desespera. Do meu ponto de vista, é sobretudo o impasse político à esquerda que torna a presente crise particularmente dramática. Não se vê mesmo qualquer luz ao fundo do túnel.

(A minha crónica de ontem no jornal i)




As sondagens realizadas em finais de Julho mostram que os partidos do governo estão a ser penalizados mas sem que tal conduza a uma inequívoca descolagem do Partido Socialista. Apesar do descalabro socioeconómico e financeiro em que o país se encontra e da recente crise política sem precedentes, o PS continua a não alcançar a maioria absoluta do eleitorado. Admitindo que a abstenção e o voto em branco devem continuar elevados, as sondagens mostram que os eleitores ainda não estabilizaram a sua escolha eleitoral, porventura insatisfeitos com o menu que lhes apresentam.

 
Não é difícil entender a insatisfação dos eleitores. Os partidos que estão no governo imputaram a presente crise à péssima gestão dos governos socialistas e apresentaram o memorando assinado com a troika como um roteiro adequado para nos colocar no bom caminho. Com os desastrosos resultados obtidos, a que se juntou a carta de demissão de Vítor Gaspar, o país começou a perceber que foi lançado num plano inclinado de que nem a suavização da austeridade nem o tão falado estímulo ao investimento o livram. Não esqueçamos que quaisquer cortes na despesa pública são sempre recessivos, mais ainda quando se trata de despedir funcionários. E também não esqueçamos que os apregoados estímulos ao investimento visam a redução dos custos das empresas e dos impostos das que ainda têm lucros, o que passa ao lado do que é decisivo, a quebra na procura e a grave incerteza quanto à sua retoma.

Até à rebelião de António Costa, e sobretudo até ao regresso de José Sócrates, a direcção do Partido Socialista evitou repudiar frontalmente o discurso do governo sobre as causas internas da crise. Ignorando a sua natureza sistémica, acabou por admitir, pelo menos implicitamente, que as causas internas eram as decisivas. A sua oposição centrou-se no excesso de zelo do governo na execução da austeridade inscrita no memorando e explorou de forma populista, como de resto a restante esquerda, os "erros de previsão" do ministro das finanças. Só mais tarde é que colocou a tónica do discurso na natureza perversa da austeridade, na dimensão europeia da crise e na necessidade de renegociar o memorando. Ainda assim, não fora a agitação de alguns notáveis do partido, o centrismo do PS quase o levou a assinar com o governo um acordo suicida para a cogestão da austeridade.

Boa parte do eleitorado já percebeu que o PS não tem uma alternativa para este caminho de atolamento na depressão. Mas também não vê no BE e no PCP uma política económica suficientemente elaborada para enquadrar estrategicamente a decisão de romper com o memorando e abrir uma renegociação da dívida pública. Afinal, o que faria um governo liderado por estes partidos se a resposta ao pedido de negociações fosse a suspensão do financiamento da UE? Um mínimo de respeito pelos eleitores impõe que enunciem desde já o que se seguiria ao fracasso de tais negociações e da consequente declaração de uma moratória ao serviço da dívida: sair da zona euro e financiar o Estado através da emissão de moeda soberana. Mais ainda, para ser consistente, esta esquerda teria de formular duas estratégias de desenvolvimento para o país, uma para a permanência na zona euro, caso a reestruturação da dívida fosse aceite, outra para o caso de ruptura porque, como é evidente, as condições institucionais seriam radicalmente distintas. Uma base ideológica anticapitalista, a falta de clareza na estratégia e a exclusão de uma plataforma eleitoral comum, são factores que se entrelaçam e impedem estes partidos de se afirmarem nas sondagens como a alternativa por que o eleitorado espera e desespera. Do meu ponto de vista, é sobretudo o impasse político à esquerda que torna a presente crise particularmente dramática. Não se vê mesmo qualquer luz ao fundo do túnel.

(A minha crónica de ontem no jornal i)




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