O passeio de Costa e a arte do slalom da geringonça

03-10-2017
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Não foi um passeio no parque, apenas pelo detalhe de ter ocorrido num mercado. Em Portimão, bastião socialista há 41 anos, António Costa foi recebido como uma estrela. Acompanhado por uma comitiva de perto de uma centena de apoiantes do PS e da presidente da Câmara local e recandidata Isilda Gomes, o secretário-geral do PS distribuiu abraços, beijos e cumprimentos, posou para fotos e selfies e desafiou durante uma hora a popularidade do Presidente Marcelo. Mas foi noutra arte que mostrou particular engenho: nos sucessivos slalooms que a comitiva fez para evitar cruzar-se com a campanha do Bloco de Esquerda que, "por coincidência", também estava no local. Se dúvidas houvesse, Costa provou novamente que é um condutor exímio ao volante da geringonça.

O cortejo socialista irrompeu pelo mercado de Portimão às 10h30, depois de Costa ser recebido por Isilda Gomes. Aplausos, gritos de viva ao PS e eis que se sobe o lanço de escadas rumo à zona dos frescos - há uma agenda para respeitar e às 12h00 Costa é esperado em Lagos. Naquela zona do mercado de Portimão há fruta, legumes, verduras, talhos, eleitores, apoiantes e curiosos. Voam ofertas de bonés e sacos com o símbolo do PS, chovem as felicitações ao primeiro-ministro, trocam-se conversas de circunstância.

"O negócio vai melhor", sim, admite-se entre os vendedores. Mas podia estar ainda melhor, arriscam outros. Costa sorri, concorda, mas o tempo não é para grandes discursos. Porque, contas feitas, naquele mar socialista a sensação que fica é que hoje o país está melhor e as pessoas também. Ao contrário de outros tempos. A custo, a comitiva vai fluindo, alegrando a vida aos miúdos que pedem um aperto de mão e dificultando a vida a um casal de idosos que tenta aviar as compras. "Como é que eu passo para ali?", irrita-se a senhora.

Naquela maré de afetos, ladeado por Isilda Gomes, Costa curva à direita, curva à esquerda, faz a reta em direcção à zona do peixe... e chega o aviso dos comissários da pista socialista: por ali não, que há uma comitiva do Bloco de Esquerda à espera. Nova guinada, curiosamente à esquerda, para evitar o choque com um dos parceiros da coligação de Governo. Que é de esquerdas. Mas que não é chamado para o plano autárquico. Esta pista não é para geringonças.

Costa prossegue então pela zona das verduras, novamente, e João Vasconcelos, deputado bloquista e candidato à Câmara de Portimão ali fica, entre as bancadas de pão e uma dúzia de sardinhas, a ver Costa escapar. "Viemos aqui porque é sábado e sabemos que é uma zona movimentada", diz ao Expresso, garantindo ter sido uma coincidência aquele quase encontro com Costa. Mas já que ali estava... "Gostava de ter podido dizer algo, mas não há problema", assume, sem concretizar o caderno de reivindicações que teria para apresentar.

Sobre as expectativas que tem para as eleições, é realista. Conseguirá o Bloco eleger um vereador na cidade? "É difícil, a Câmara de Portimão é PS desde sempre, mas tudo é possível", diz Vasconcelos, convicto de que a experiência da geringonça dificilmente se repetirá numa cidade em que o PS "tem uma vocação de alianças mais à direita - e isso não ajuda nesses figurinos", acusa. Uma alusão ao acordo pós-eleitoral de 2013, que levou o então presidente da concelhia social-democrata a aceitar um cargo de vereador e a viabilizar o atual executivo na câmara, socialista.

Quando termina a conversa com João Vasconcelos - que critica também o "enorme endividamento da cidade" e as "obras eleitorais que estão em curso" -, retomamos o contacto com Costa umas dezenas de metros mais à frente. Prossegue a sucessão de cumprimentos, vai parando à beira das bancadas e esboça um sorriso amarelo quando a dona de um talho lhe mostra um coelho esfolado. Nova curva à esquerda e, separados por apenas um corredor de bancadas, as comitivas do PS e do BE voltam a cruzar-se. Com uma distância segura: as bandeiras do PS quase abafam a dezena de apoiantes do Bloco.

Cumprido o desvio, Costa lá consegue chegar à zona do peixe. Conversa sobre o que há e o que se vende, o que compram alguns clientes, o rumo dos negócios. Que vai melhor, sim, ali também. Mas... Há sempre um mas. Mas o dia é de festa. Costa, que já leva um par de rosas na mão, e Isilda, que leva mais do que isso - rosas, um bouquet de flores e dezenas de beijos de quem a conhece da zona -, cumprem a volta ao circuito em quase uma hora e abordam a saída. Novas escadas, agora em sentido descendente e, surpresa, a comitiva do Bloco, de novo à espera. Mas como todos os circuitos profissionais, este também tem uma escapatória. A escada bifurca e se o Bloco espera à esquerda, Costa segue com uma curva apertada à direita. Das escadas. Rumo ao carro que o espera para o conduzir até Lagos.

É já em Lagos, numa arruada acompanhada pelo som de tambores - e numa cidade também liderada por uma presidente socialista, Maria Joaquina Matos - que reencontramos a presidente de Portimão, Isilda Gomes. Convicta de que vai ser possível prolongar por mais quatro anos o reinado socialista na cidade, rejeita antecipar quaisquer tipos de cenários pós-eleitorais. "A nossa expectativa é ganhar as eleições com a maioria que os cidadãos desejarem. Mas se possível, queremos a maioria absoluta, para podermos ter mais tranquilidade a resolver os problemas da cidade", diz, apenas. Da geringonça nem sinal. Como no mercado.

Não foi um passeio no parque, apenas pelo detalhe de ter ocorrido num mercado. Em Portimão, bastião socialista há 41 anos, António Costa foi recebido como uma estrela. Acompanhado por uma comitiva de perto de uma centena de apoiantes do PS e da presidente da Câmara local e recandidata Isilda Gomes, o secretário-geral do PS distribuiu abraços, beijos e cumprimentos, posou para fotos e selfies e desafiou durante uma hora a popularidade do Presidente Marcelo. Mas foi noutra arte que mostrou particular engenho: nos sucessivos slalooms que a comitiva fez para evitar cruzar-se com a campanha do Bloco de Esquerda que, "por coincidência", também estava no local. Se dúvidas houvesse, Costa provou novamente que é um condutor exímio ao volante da geringonça.

O cortejo socialista irrompeu pelo mercado de Portimão às 10h30, depois de Costa ser recebido por Isilda Gomes. Aplausos, gritos de viva ao PS e eis que se sobe o lanço de escadas rumo à zona dos frescos - há uma agenda para respeitar e às 12h00 Costa é esperado em Lagos. Naquela zona do mercado de Portimão há fruta, legumes, verduras, talhos, eleitores, apoiantes e curiosos. Voam ofertas de bonés e sacos com o símbolo do PS, chovem as felicitações ao primeiro-ministro, trocam-se conversas de circunstância.

"O negócio vai melhor", sim, admite-se entre os vendedores. Mas podia estar ainda melhor, arriscam outros. Costa sorri, concorda, mas o tempo não é para grandes discursos. Porque, contas feitas, naquele mar socialista a sensação que fica é que hoje o país está melhor e as pessoas também. Ao contrário de outros tempos. A custo, a comitiva vai fluindo, alegrando a vida aos miúdos que pedem um aperto de mão e dificultando a vida a um casal de idosos que tenta aviar as compras. "Como é que eu passo para ali?", irrita-se a senhora.

Naquela maré de afetos, ladeado por Isilda Gomes, Costa curva à direita, curva à esquerda, faz a reta em direcção à zona do peixe... e chega o aviso dos comissários da pista socialista: por ali não, que há uma comitiva do Bloco de Esquerda à espera. Nova guinada, curiosamente à esquerda, para evitar o choque com um dos parceiros da coligação de Governo. Que é de esquerdas. Mas que não é chamado para o plano autárquico. Esta pista não é para geringonças.

Costa prossegue então pela zona das verduras, novamente, e João Vasconcelos, deputado bloquista e candidato à Câmara de Portimão ali fica, entre as bancadas de pão e uma dúzia de sardinhas, a ver Costa escapar. "Viemos aqui porque é sábado e sabemos que é uma zona movimentada", diz ao Expresso, garantindo ter sido uma coincidência aquele quase encontro com Costa. Mas já que ali estava... "Gostava de ter podido dizer algo, mas não há problema", assume, sem concretizar o caderno de reivindicações que teria para apresentar.

Sobre as expectativas que tem para as eleições, é realista. Conseguirá o Bloco eleger um vereador na cidade? "É difícil, a Câmara de Portimão é PS desde sempre, mas tudo é possível", diz Vasconcelos, convicto de que a experiência da geringonça dificilmente se repetirá numa cidade em que o PS "tem uma vocação de alianças mais à direita - e isso não ajuda nesses figurinos", acusa. Uma alusão ao acordo pós-eleitoral de 2013, que levou o então presidente da concelhia social-democrata a aceitar um cargo de vereador e a viabilizar o atual executivo na câmara, socialista.

Quando termina a conversa com João Vasconcelos - que critica também o "enorme endividamento da cidade" e as "obras eleitorais que estão em curso" -, retomamos o contacto com Costa umas dezenas de metros mais à frente. Prossegue a sucessão de cumprimentos, vai parando à beira das bancadas e esboça um sorriso amarelo quando a dona de um talho lhe mostra um coelho esfolado. Nova curva à esquerda e, separados por apenas um corredor de bancadas, as comitivas do PS e do BE voltam a cruzar-se. Com uma distância segura: as bandeiras do PS quase abafam a dezena de apoiantes do Bloco.

Cumprido o desvio, Costa lá consegue chegar à zona do peixe. Conversa sobre o que há e o que se vende, o que compram alguns clientes, o rumo dos negócios. Que vai melhor, sim, ali também. Mas... Há sempre um mas. Mas o dia é de festa. Costa, que já leva um par de rosas na mão, e Isilda, que leva mais do que isso - rosas, um bouquet de flores e dezenas de beijos de quem a conhece da zona -, cumprem a volta ao circuito em quase uma hora e abordam a saída. Novas escadas, agora em sentido descendente e, surpresa, a comitiva do Bloco, de novo à espera. Mas como todos os circuitos profissionais, este também tem uma escapatória. A escada bifurca e se o Bloco espera à esquerda, Costa segue com uma curva apertada à direita. Das escadas. Rumo ao carro que o espera para o conduzir até Lagos.

É já em Lagos, numa arruada acompanhada pelo som de tambores - e numa cidade também liderada por uma presidente socialista, Maria Joaquina Matos - que reencontramos a presidente de Portimão, Isilda Gomes. Convicta de que vai ser possível prolongar por mais quatro anos o reinado socialista na cidade, rejeita antecipar quaisquer tipos de cenários pós-eleitorais. "A nossa expectativa é ganhar as eleições com a maioria que os cidadãos desejarem. Mas se possível, queremos a maioria absoluta, para podermos ter mais tranquilidade a resolver os problemas da cidade", diz, apenas. Da geringonça nem sinal. Como no mercado.

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