Joana Lima

07-02-2016
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Vórtice

por Joana Lima

Vórtice

Afortunadamente sopraram-me alguma sugestão de má-sorte quando nasci. Creio explicados os pesadelos horrendos que me assolavam o sono de gritos e o colchão de urina quando tinha cinco anos. Aparecia uma velha coberta de preto, ordinariamente bruxa, e ela sim, andava como a noite. Ordinariamente bruxa, suspirava o meu nome com a fidelidade do azar. Arrastava-se pelos corredores da casa com a rapidez de uma praga, ela própria um gafanhoto irado, tornando o meu miocárdio um tamborzito doloroso e descompassado. Afortunadamente porque tomei o gosto à intempérie.

Orpheu

Onde estavas?

Desejos. Desejava saber de ti como de um códice perdido. Como estavas branca. Uma pressa empurrou-me. Nas minhas mãos fechadas o molho grosso de chaves difíceis de olhar.

Hades

A experiência do regresso é sempre uma morte súbita, uma possessão. O corredor é uma língua comprida. Brinco contigo, irmã, soldados transviados, desertores da ordem. O pomar é morto, cadáveres de maçãs. Degraus. Tu como estátua de jardim, um espectro de carne triste. Os mistérios que o bebé

chora do seu par de olhos grandes. “Queres tocar para mim?”. Depois também se rendia.

Cassandra

“Sai da estrada”. Não respondia. “Sai da estrada! O que queres fazer de nós?”. Não prefiro o silêncio da bordinha. O tímido determinado a tirar-me o violino e o espectáculo das mãos alucinadas. Uma viagem de maca, o meu rosto cansado da alucinação mais que dos fármacos. Até que ele se diluiu numa escura.

Vórtice

por Joana Lima

Vórtice

Afortunadamente sopraram-me alguma sugestão de má-sorte quando nasci. Creio explicados os pesadelos horrendos que me assolavam o sono de gritos e o colchão de urina quando tinha cinco anos. Aparecia uma velha coberta de preto, ordinariamente bruxa, e ela sim, andava como a noite. Ordinariamente bruxa, suspirava o meu nome com a fidelidade do azar. Arrastava-se pelos corredores da casa com a rapidez de uma praga, ela própria um gafanhoto irado, tornando o meu miocárdio um tamborzito doloroso e descompassado. Afortunadamente porque tomei o gosto à intempérie.

Orpheu

Onde estavas?

Desejos. Desejava saber de ti como de um códice perdido. Como estavas branca. Uma pressa empurrou-me. Nas minhas mãos fechadas o molho grosso de chaves difíceis de olhar.

Hades

A experiência do regresso é sempre uma morte súbita, uma possessão. O corredor é uma língua comprida. Brinco contigo, irmã, soldados transviados, desertores da ordem. O pomar é morto, cadáveres de maçãs. Degraus. Tu como estátua de jardim, um espectro de carne triste. Os mistérios que o bebé

chora do seu par de olhos grandes. “Queres tocar para mim?”. Depois também se rendia.

Cassandra

“Sai da estrada”. Não respondia. “Sai da estrada! O que queres fazer de nós?”. Não prefiro o silêncio da bordinha. O tímido determinado a tirar-me o violino e o espectáculo das mãos alucinadas. Uma viagem de maca, o meu rosto cansado da alucinação mais que dos fármacos. Até que ele se diluiu numa escura.

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