No Diário de Notícias do passado domingo (p.7), Edite Estrela, agora euro‑deputada, aborda o tema da língua nas instituições da União Europeia, em registo “clássico” para quem o tema não for novo.
Começa por elencar as actuais línguas oficiais (deixando de lado as muitas que não o são), enfatiza o crescimento constante do seu número desde a fundação, e introduz de forma clara o dilema central da moderna Interlinguística Aplicada: «A diversidade linguística »(…)« é um valor central da construção europeia, ainda que »(…)« acarrete iniludíveis dificuldades e elevados custos.» (O negrito a marcar o adversativo é meu.) Ou seja, detecta‑se aqui uma (aparente?) incompatibilidade ético‑prática.
Mais adiante, Edite Estrela faz vislumbrar por que é a diversidade linguística um valor central: «mexe com duas áreas muito sensíveis: a da identidade e a das emoções.» Muito bem, mas claro que isto não esgota a questão. A importância capital do fenómeno língua é medida da inextrincável interpenetração entre este e quase toda a comunicação e muita da expressão humanas.
Quando conjugado num contexto de diversidade linguística, o fenómeno língua assenta de facto na identidade (individual e de grupo, a muitíssimos níveis) e é certamente vector e alvo de emoções (por sua vez ligadas à identidade expressa enquanto de falante), mas extravasa para tudo quanto concerne a, p. ex., autonomia cultural de cada grupo, a comunicação inter‑étnica não‑institucional, ou a globalização dos meios de comunicação — temas estes que ficaram por abordar nesta crónica.
Baseada nestes pressupostos (importância e “delicadeza” de uma política linguística que trate das exigências éticas e práticas da comunicação em meio linguisticamente diverso), é a Edite Estrela evidente que o plurilinguismo é um bom princípio (entendido como competência comunicacional em linguas não‑maternas, numa perspectiva eminentemente escolar; a crónica é aliás introduzida por uma referência ao lema «Aprende Línguas e serás Alguém», a adoptar pelo Parlamento Europeu em Janeiro), e que a hegemonia da lingua franca actual, o inglês, é um mal necessário (desfiando argumentos que, embora evidentes na substância, soam terrivelmente ingénuos a um esperantista “moderno”, por força de tanto os ouvir de seus pares mais tradicionais).
E que sai deste começo bem gizado, deste “pigarro” que haveria de introduzir uma lista de futuros possíveis e/ou desejáveis? Bem, a meu ver nada de articulado: Tendo deixado de lado uma avenida promissora, Edite Estrela derrapa no último parágrafo em aparente contradição. Vejamos:
No 4º parágrafo menciona duas «vozes» que «se fizeram ouvir» «perante tal labirinto linguístico» em defesa respectiva do inglês e do esperanto. Fica subentendido que Edite Estrela não preconiza qualquer destas soluções para o problema, mas não se adianta: Quanto ao inglês (cuja actual configuração hegemónica lhe merece graves reparos no 6º parágrafo), nem adita o óbvio — que basta nada fazer de novo em matéria de política linguística europeia para promover esta opção. No que concerne ao esperanto, fica aparentemente o “caso arrumado” com a frase que diz «pode ser‑se bilingue, mas não apátrida da linguagem à procura de asilo numa língua de acolhimento»; fica à imaginação de quem puder entender a relevância desta citação — eu por mim não percebi nada: Talvez por conhecer bem de mais os volumosos dossiês que cruzam as coordenadas "esperanto" com "União Europeia"? Conhecê‑los‑á Edite?
Finalmente, no 8º e último parágrafo Edite Estrela descai, como dito, para um discurso que parece contradizer tudo o que afirmara e defendera acima: Como paradoxais e ineficazes contraponto à denúncia da hegemonia, e corolário ao elogio da diversidade, surge a fechar a crónica um panegírico deslocado à língua portuguesa e apelo à sua promoção no espaço da União. Ora, posta que está a vitalidade demográfica e social do português, tanto na Europa como no mundo, põe‑se esta fora do alcance da protecção devida às línguas de pequena dimensão (aspecto que foi apenas tratado oblíquamente nesta crónica).
Que se pretende então com este exaltar da “lusa língua”? Justificar que deveria esta ocupar o lugar “imerecido” do italiano ou do alemão? Se sim, é uma conclusão ao arrepio das considerações éticas tecidas nos seis primeiros parágrafos da crónica. No 7º Edite Estrela admite que «não há inocência nem acaso nas escolhas linguísticas», aditando já no 8º que o português é mais falado no mundo que outras línguas europeias, as quais porém detêm na União melhor situação na escala de «hierarquia e privilégio» que «na prática» contradiz o princípio teórico da igualdade das línguas.
Edite Estrela arenga então sobre o (limiano?) «dever dos deputados portugueses no PE» de promover (citando Torga) a língua portuguesa e a sua suposta «riqueza e originalidade» (será que tidas por ímpares ou únicas?). Faz lista de características fortuitas e duvidosas do português («foi a primeira língua europeia a establecer uma verdadeira ponte cultural entre o Ocidente e o Oriente») e chega a afirmar que, por isso, «devia ter um lugar especial no conjunto das línguas oficiais europeias».
Por quê? Se a diversidade e a igualdade linguísticas são positivas e essenciais à identidade europeia e se a hegemonia é má quando protagonizada pelo inglês, como se pode então reclamar um lugar de destaque para o português? Se a adopção do esperanto é posta de parte por (depreendo) se tratar de uma solução que exigiria “vontade política” a contrapêlo da tendência natural para “apostar no que vai à frente”, o que justifica então esta promoção de uma posição que, dado o inexistente prestígio do português como lingua franca global ou europeia, não é mais que uma utopia gratuita?
(Noto que não é possível assumir uma posição de pretensa “defesa” da língua portuguesa após se ter argumentado da sua excelência com base justamente na sua pujança demográfica e social. Constato com alívio que Edite Estrela não caiu nesta “popular” armadilha.)
Confesso que não entendo, pois, a lógica deste “golpe de anca” na argumentação da crónica — a menos como uma manifestação da necessidade do político de agradar a todos, de muito falar para nada mudar: Esta Estrela, “verde” para alguns temas, mas experiente Rainha Encarnada.
No Diário de Notícias do passado domingo (p.7), Edite Estrela, agora euro‑deputada, aborda o tema da língua nas instituições da União Europeia, em registo “clássico” para quem o tema não for novo.
Começa por elencar as actuais línguas oficiais (deixando de lado as muitas que não o são), enfatiza o crescimento constante do seu número desde a fundação, e introduz de forma clara o dilema central da moderna Interlinguística Aplicada: «A diversidade linguística »(…)« é um valor central da construção europeia, ainda que »(…)« acarrete iniludíveis dificuldades e elevados custos.» (O negrito a marcar o adversativo é meu.) Ou seja, detecta‑se aqui uma (aparente?) incompatibilidade ético‑prática.
Mais adiante, Edite Estrela faz vislumbrar por que é a diversidade linguística um valor central: «mexe com duas áreas muito sensíveis: a da identidade e a das emoções.» Muito bem, mas claro que isto não esgota a questão. A importância capital do fenómeno língua é medida da inextrincável interpenetração entre este e quase toda a comunicação e muita da expressão humanas.
Quando conjugado num contexto de diversidade linguística, o fenómeno língua assenta de facto na identidade (individual e de grupo, a muitíssimos níveis) e é certamente vector e alvo de emoções (por sua vez ligadas à identidade expressa enquanto de falante), mas extravasa para tudo quanto concerne a, p. ex., autonomia cultural de cada grupo, a comunicação inter‑étnica não‑institucional, ou a globalização dos meios de comunicação — temas estes que ficaram por abordar nesta crónica.
Baseada nestes pressupostos (importância e “delicadeza” de uma política linguística que trate das exigências éticas e práticas da comunicação em meio linguisticamente diverso), é a Edite Estrela evidente que o plurilinguismo é um bom princípio (entendido como competência comunicacional em linguas não‑maternas, numa perspectiva eminentemente escolar; a crónica é aliás introduzida por uma referência ao lema «Aprende Línguas e serás Alguém», a adoptar pelo Parlamento Europeu em Janeiro), e que a hegemonia da lingua franca actual, o inglês, é um mal necessário (desfiando argumentos que, embora evidentes na substância, soam terrivelmente ingénuos a um esperantista “moderno”, por força de tanto os ouvir de seus pares mais tradicionais).
E que sai deste começo bem gizado, deste “pigarro” que haveria de introduzir uma lista de futuros possíveis e/ou desejáveis? Bem, a meu ver nada de articulado: Tendo deixado de lado uma avenida promissora, Edite Estrela derrapa no último parágrafo em aparente contradição. Vejamos:
No 4º parágrafo menciona duas «vozes» que «se fizeram ouvir» «perante tal labirinto linguístico» em defesa respectiva do inglês e do esperanto. Fica subentendido que Edite Estrela não preconiza qualquer destas soluções para o problema, mas não se adianta: Quanto ao inglês (cuja actual configuração hegemónica lhe merece graves reparos no 6º parágrafo), nem adita o óbvio — que basta nada fazer de novo em matéria de política linguística europeia para promover esta opção. No que concerne ao esperanto, fica aparentemente o “caso arrumado” com a frase que diz «pode ser‑se bilingue, mas não apátrida da linguagem à procura de asilo numa língua de acolhimento»; fica à imaginação de quem puder entender a relevância desta citação — eu por mim não percebi nada: Talvez por conhecer bem de mais os volumosos dossiês que cruzam as coordenadas "esperanto" com "União Europeia"? Conhecê‑los‑á Edite?
Finalmente, no 8º e último parágrafo Edite Estrela descai, como dito, para um discurso que parece contradizer tudo o que afirmara e defendera acima: Como paradoxais e ineficazes contraponto à denúncia da hegemonia, e corolário ao elogio da diversidade, surge a fechar a crónica um panegírico deslocado à língua portuguesa e apelo à sua promoção no espaço da União. Ora, posta que está a vitalidade demográfica e social do português, tanto na Europa como no mundo, põe‑se esta fora do alcance da protecção devida às línguas de pequena dimensão (aspecto que foi apenas tratado oblíquamente nesta crónica).
Que se pretende então com este exaltar da “lusa língua”? Justificar que deveria esta ocupar o lugar “imerecido” do italiano ou do alemão? Se sim, é uma conclusão ao arrepio das considerações éticas tecidas nos seis primeiros parágrafos da crónica. No 7º Edite Estrela admite que «não há inocência nem acaso nas escolhas linguísticas», aditando já no 8º que o português é mais falado no mundo que outras línguas europeias, as quais porém detêm na União melhor situação na escala de «hierarquia e privilégio» que «na prática» contradiz o princípio teórico da igualdade das línguas.
Edite Estrela arenga então sobre o (limiano?) «dever dos deputados portugueses no PE» de promover (citando Torga) a língua portuguesa e a sua suposta «riqueza e originalidade» (será que tidas por ímpares ou únicas?). Faz lista de características fortuitas e duvidosas do português («foi a primeira língua europeia a establecer uma verdadeira ponte cultural entre o Ocidente e o Oriente») e chega a afirmar que, por isso, «devia ter um lugar especial no conjunto das línguas oficiais europeias».
Por quê? Se a diversidade e a igualdade linguísticas são positivas e essenciais à identidade europeia e se a hegemonia é má quando protagonizada pelo inglês, como se pode então reclamar um lugar de destaque para o português? Se a adopção do esperanto é posta de parte por (depreendo) se tratar de uma solução que exigiria “vontade política” a contrapêlo da tendência natural para “apostar no que vai à frente”, o que justifica então esta promoção de uma posição que, dado o inexistente prestígio do português como lingua franca global ou europeia, não é mais que uma utopia gratuita?
(Noto que não é possível assumir uma posição de pretensa “defesa” da língua portuguesa após se ter argumentado da sua excelência com base justamente na sua pujança demográfica e social. Constato com alívio que Edite Estrela não caiu nesta “popular” armadilha.)
Confesso que não entendo, pois, a lógica deste “golpe de anca” na argumentação da crónica — a menos como uma manifestação da necessidade do político de agradar a todos, de muito falar para nada mudar: Esta Estrela, “verde” para alguns temas, mas experiente Rainha Encarnada.