Inscreveu-se no PS no dia 5 de outubro de 1980, após a derrota de Soares contra a AD. “Sempre fui do PS. Nunca fui outra coisa”, diz Edite Estrela. A dirigente socialista acredita que este governo vai cumprir os quatro anos da legislatura e defende que o PS não deve afastar nenhum cenário para as próximas legislativas, inclusive uma coligação com os partidos à sua esquerda.
Quando entrou para o PS havia poucas mulheres na política. Foi discriminada por ser mulher?
Não posso dizer que alguma vez tenha sido discriminada, mas não é preciso ter sido discriminada para saber que as mulheres continuam, infelizmente, a ser discriminadas. Quando fui eleita pela primeira vez para a comissão política do PS, éramos apenas três mulheres.
Isso foi em 1983...
Sim. Eu aderi ao Partido Socialista em 1980.
Quando entrou na política era professora...
Exatamente. Era professora de Português e de Latim. Foi muito gratificante e, ao longo da minha vida, tenho encontrado muitos ex-alunos que recordam com simpatia os tempos em que eram meus alunos.
Era nessa altura que fazia os programas na RTP em que ensinava a falar português?
Fiz quase durante dez anos. Cheguei a fazer um programa entre o telejornal e a novela que toda a gente via no horário nobre. Era um programa muito curto e prendia as crianças. Há muitas pessoas que me dizem – hoje já são adultos – que viam os programas de língua portuguesa quando eram crianças.
Lembra-se das circunstâncias em que aderiu ao PS?
Foi no dia seguinte à derrota da Frente Republicana e Socialista (FRS), no dia 5 de outubro de 1980, porque eu tinha feito a campanha e fiquei muito dececionada quando ganhou a AD. Fui para a Costa da Caparica sozinha, porque gosto muito de me inspirar no mar. No silêncio, ouvindo apenas as ondas. E nessa noite decidi inscrever-me no PS.
Foi sempre do PS?
Sim. Sempre. Nunca fui de outra coisa. Mas como eu aderi ao PS mais ou menos na mesma altura em que aderiram os ex-MES, achavam que eu também tinha vindo do MES. Mas não. Nunca fui do MES, nunca fui de outra coisa.
No congresso do PS, em 2013, defendeu que o PS devia fazer alianças à esquerda. O que achou agora desta solução?
Só podia ficar satisfeita porque, de facto, era lamentável que, enquanto a direita tinha condições para fazer alianças e criar soluções governativas mais estáveis, o PS parecia condenado a fazer também alianças só com a direita. Isso, para mim, era muito difícil de compreender. Eu senti nesta campanha eleitoral que era isso que uma grande maioria dos eleitores queriam. Quando falava com as pessoas, na campanha, frequentemente me era dito o seguinte: “Eu não sei se vou votar no PS, vou votar à esquerda e o que importa é que haja uma maioria de esquerda. Depois vocês entendam-se.” Havia esta mensagem que era recorrente no sentido de haver uma solução governativa de esquerda. E isso, para mim, ficou muito claro durante a campanha.
Já encontrou alguma explicação para a derrota do PS?
Foi precisamente porque as pessoas quiseram forçar essa solução à esquerda.
O conceito de derrota é muito interessante. Eu tenho uma ex-colega dinamarquesa do Parlamento Europeu que acompanha com interesse a situação política portuguesa e faz comentário político na televisão dinamarquesa, e a seguir às eleições ela estranhava que se dissesse que o PSD tinha ganho as eleições, porque na Dinamarca quem ganha as eleições é quem aumenta o seu score em relação a anteriores eleições e o vencedor é quem consegue formar governo. Ela estranhava e acha que quem ganhou foi o PS, porque foi o PS que conseguiu formar governo.
Esta solução obrigou o PS a virar à esquerda?
O PS mantém-se fiel aos seus valores, aos seus princípios, à sua história e àquilo que foi a obra que é reconhecida em prol do interesse público. E fiel ao seu programa. Não tenho memória de um partido ter cumprido tudo aquilo que prometeu na campanha eleitoral. E isso é possível porque tem condições no parlamento para cumprir o programa eleitoral. Sem colocar em causa as regras de consolidação orçamental que decorrem da nossa pertença à zona euro.
É possível continuar a responder às exigências do PCP e do BE e cumprir as metas de Bruxelas?
Faz seis meses que esses acordos foram assinados. Poucos auguravam que chegássemos ao fim destes seis meses na situação em que estamos. O que diziam era que este acordo não ia além do teste do Orçamento para 2016. Depois diziam que não iria além do teste do Programa de Estabilidade. A verdade é que tem passado todos os testes e esta solução governativa está consolidada. Chamam-lhe geringonça. Pois que seja geringonça, mas a verdade é que funciona.
E vai continuar a funcionar até ao final da legislatura?
Acredito que iremos cumprir o mandato. Sabe porquê? Porque os acordos foram feitos com base nos pontos de convergência, que passavam por devolver os rendimentos às famílias, mas ninguém escondeu que havia pontos de divergência. Esses pontos de divergência são claros. Ninguém esconde nada de ninguém.
A questão é se as regras de Bruxelas são compatíveis com as exigências do BE e do PCP, porque no dia em que o governo tiver de avançar com medidas de austeridade corre o risco de perder o apoio dos partidos à sua esquerda.
Está a ser compatível. O que tem sido privilegiado a nível interno é virar a página da austeridade, devolver os salários que tinham sido cortados, aumentar o salário mínimo nacional, reduzir os impostos, ou seja, criar condições para aumentar a procura interna e promover o crescimento e a criação de emprego. Era isto que constava do programa do PS e são objetivos convergentes com o PCP, o BE e o PEV. Em matéria europeia não se escondem as divergências.
Que são muitas.
O PS sempre afirmou que iria cumprir os compromissos europeus, mas houve uma alteração da nossa relação com a Europa. O António Costa não está a ser subserviente. Há toda uma dinâmica neste processo de diálogo europeu que também vai mudando porque vão mudando os atores e vão mudando os interlocutores. Temos um primeiro-ministro que é conhecido na Europa, que é respeitado na Europa, que pertence a uma grande família europeia, que tem uma grande experiência governativa, que tem um diálogo fácil com outros primeiros-ministros. António Costa tem procurado estabelecer uma estratégia de convergência com outros países, mesmo países que não são governados pela mesma família política, mas que têm o mesmo tipo de interesses e problemas. Não é uma voz desgarrada. Isto tem sido aproveitado a favor do interesse nacional.
Mas a diferença entre o PS e os partidos à sua esquerda é profunda. O PS sempre foi um partido europeísta e o PCP, mesmo esta semana, voltou a defender que Portugal deve sair do euro.
Sem dúvida que o PS é um partido europeísta e não abdica disso, mas isso não põe em causa o acordo. O PS não mudou e o PCP também não mudou. Esses pontos de divergência foram assumidos.
A partir de agora, a tendência será o PS aliar-se à esquerda e o PSD à direita?
Não gosto de fazer futurologia, porque vivemos tempos de grande imprevisibilidade. É possível que haja no futuro a reprodução destes acordos e é possível que evoluam noutro sentido. Temos de esperar para perceber o que será melhor.
Este acordo foi possível porque António Costa era o líder do PS?
Acho que sim. Foi possível porque António Costa era o secretário-geral do PS e foi o candidato a primeiro-
-ministro.
Nas próximas eleições, o PS irá concorrer sozinho?
Na moção de estratégia que o Antó Costa apresenta ao congresso não se prevê qualquer aliança pré-eleitoral.
Mas qual é a sua opinião?
Acho que ainda é muito cedo. Estamos no início deste processo e, portanto, estar a antever o que pode acontecer daqui a quatro anos... Quatro anos em política é demasiado tempo para perdermos tempo com exercícios académicos
Mas não a chocava uma solução dessas...
Devemos estar abertos a todas as soluções que defendam o interesse nacional. Não excluo nenhuma solução que defenda o interesse nacional.
Há muitos socialistas a elogiar Marcelo Rebelo de Sousa: Manuel Alegre, Jorge Coelho… Partilha desse entusiasmo?
O Presidente da República, comparativamente com os dez anos de Presidência de Cavaco Silva, representa uma lufada de ar fresco. Cavaco Silva fechava-se e ninguém dava por ele. Nós sabemos o que está a fazer este Presidente da República.
Não pode tornar-se excessivo?
Pode cair no exagero, por um lado, pode cansar, por outro, e há momentos em que é necessário resguardar-se. O Presidente da República de certeza que vai ter momentos em que lhe é exigida uma grande ponderação para tomar decisões. Para já, acho graça e acho que é uma lufada de ar fresco, mas ninguém aguentaria este ritmo frenético durante cinco anos.
Tem apoiado o governo.
Não tem sido sectário. Tem sido isento.
A tentativa do Presidente da República de colocar o acordo ortográfico na agenda política não foi pacífica. Faz sentido repensar o acordo?
Eu sou favorável ao acordo ortográfico. Isso não significa que eu considere que todas as opções que este acordo contempla são as melhores opções, mas não há nenhuma reforma ortográfica que seja perfeita e esta também não é perfeita. Julgo que cumpre os principais objetivos que levaram à sua assinatura pelos vários países que têm a língua portuguesa como língua materna ou como língua oficial. Como lhe disse, considero que Marcelo tem estado bem no exercício das suas funções, mas acho que as declarações que fez foram talvez a primeira falha que ele cometeu.
Porquê?
Ele não pode distinguir o cidadão Marcelo do Presidente da República. O lugar onde se fala e a pessoa que fala têm relevância para o entendimento da mensagem e obviamente que os cidadãos, ao ouvirem o Presidente da República dizer aquilo que ele disse, dão uma maior importância do que se fosse dito por qualquer outro cidadão. Por outro lado, não foi o momento mais adequado, porque fez essa declaração antes de uma visita oficial a um país de língua oficial portuguesa [Moçambique]. Nem o conteúdo nem o momento escolhido foram adequados. Como Presidente, deveria ter-se resguardado.
José Sócrates queixou-se há pouco tempo da falta de apoio do PS. Gostava de ter visto o PS a defender o seu ex-líder?
O António Costa tem gerido bem uma situação que é difícil para todos nós e muito mais para aqueles que são amigos do eng.o Sócrates. Mas uma coisa é o nosso sentimento, outra coisa é a ação política. E, portanto, desde muito cedo que o António Costa disse: “À justiça o que é da justiça, à política o que é da política.”
É dessa postura do PS que José Sócrates se queixa.
Tem sido essa a atitude que tem sido tomada e, do meu ponto de vista, é correta. Nós sempre defendemos a separação de poderes, mas é evidente que eu, como cidadã, não deixo de estranhar que o eng.o José Sócrates tenha estado preso vários meses... A verdade é que não foi deduzida acusação e é demasiado tempo, do meu ponto de vista. Mas não sou jurista. Partilho da estupefação com que muitos cidadãos acompanham este processo.
Não ficou surpreendida quando soube que o ex-primeiro-ministro recebia dinheiro de um amigo ligado à construção civil?
Não me quero pronunciar... Não conheço o processo. Não sei se é mesmo assim ou não é.
É público que José Sócrates recebia dinheiro de um amigo...
Que pediu emprestado... Acho que pedir dinheiro emprestado com intenção de pagar não é crime e não é condenável, mas não quero estar a falar de um assunto que não conheço.
Encara a possibilidade de José Sócrates voltar à política?
Não posso fazer futurologia, como é óbvio.
Esteve cinco anos no Parlamento Europeu e tinha a expectativa de continuar em Bruxelas. Ficou magoada com António José Seguro por não ter sido incluída na lista para o Parlamento Europeu?
Fui apanhada de surpresa porque tinha reuniões regulares com o secretário-geral do PS [António José Seguro], mas tive apenas conhecimento meia hora antes de a lista ser apresentada à comissão política de que o meu nome não constava. Eu tinha sido eleita a melhor deputada do ano na área dos assuntos sociais em 2014. Também já o tinha sido em 2010. Penso que não terá havido nenhum outro deputado que tenha sido eleito por duas vezes, na sua passagem pelo Parlamento Europeu, o melhor deputado. Fiquei muito surpreendida. Estava a de-senvolver um bom trabalho, que era reconhecido pelos meus colegas e pelas organizações não governamentais que acompanham as áreas em que eu trabalhava.
Julga que foi penalizada por não ser “segurista”? Qual a razão que lhe foi apresentada?
Não sei qual foi a razão. Essa resposta só poderá ser dada pelo ex-secretário-
-geral António José Seguro.
Gostou de voltar à Assembleia da República?
Tenho uma grande capacidade de adaptação às novas situações porque eu gosto de trabalhar. Dei o meu melhor quando estive aqui na Assembleia da República, dei o meu melhor quando fui presidente da Câmara Municipal de Sintra e orgulho-me da obra feita. Hoje, essa obra é mais reconhecida do que foi naquela altura. Orgulho-me do trabalho que fiz no Parlamento Europeu, mas gosto também daquilo que estou a fazer. Sou presidente da Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto.
Foi deputada pela primeira vez em 1987. Há quem ache que os deputados, hoje, têm menos qualidade. Concorda?
Não concordo. A Assembleia da República sem dúvida que está diferente. Rejuvenesceu. Tem uma maior percentagem de gente jovem e é natural que hoje se faça política de maneira diferente. Temos acesso à informação e a tudo o que se passa no mundo no momento em que ocorre. A existência das redes sociais, a internet, isso está tudo ao alcance de um clique. As redes sociais abriram à participação cidadã um debate que era tido apenas em privado, porque nem todos os cidadãos, mesmo aqueles que tinham pensamento crítico, tinham acesso à comunicação social.
Para o bem e para o mal
Todas as grandes descobertas da humanidade tiveram o seu lado positivo e o seu lado negativo. Mas muitas das chamadas figuras públicas de hoje emergiram nas redes sociais, na blogosfera... Há uma grande transformação na sociedade e no próprio país. Hoje somos um país moderno, não obstante os últimos quatro anos de retrocesso na ciência, na inovação e na qualificação das pessoas – objetivos que estão a ser retomados por este governo. Mas, hoje em dia, Portugal é um país moderno e com recursos humanos qualificados. Infelizmente, uma parte dos recursos humanos mais jovens e altamente qualificados foram obrigados a emigrar. Perdemos alguns dos nossos talentos, o que contribui para o empobrecimento do país. Alguns dos que agora se mostram muito preocupados com a taxa de natalidade, que acordaram para esse problema de uma forma oportunista e pouca séria, diria mesmo até demagógica, foram os mesmos que obrigaram e convidaram os jovens a sair do país.
Está a falar do CDS, que apresentou 25 medidas para aumentar a natalidade.
Exatamente. Foi o CDS que apresentou esse pacote. Cortaram os salários, cortaram as pensões, reduziram os apoios sociais como o rendimento social de inserção ou o complemento solidário para idosos... As famílias empobreceram. O próprio primeiro-ministro assumiu que a estratégia para sair da crise era através do empobrecimento. Não é empobrecendo as famílias que se consegue estimular a natalidade. Convenhamos que é ridículo apresentar como uma das propostas para incentivar a natalidade a criação do Dia dos Irmãos.
É uma proposta simbólica.
Se alguém pensa que é com a criação do Dia dos Irmãos que as famílias vão a correr ter o segundo filho... é completamente ridículo. A questão demográfica é uma questão muito séria e tem de ser tratada com seriedade. Durante os quatro anos do governo PSD/CDS, a natalidade baixou 18%. Ou seja, baixou mais do que nos anteriores 20 anos. O que está a acontecer é, de facto, dramático, porque põe em causa a sustentabilidade da Segurança Social e o desenvolvimento do país.
É diretora do jornal oficial do PS. Tem muitos leitores?
É uma experiência inovadora e única no país. É um projeto de comunicação de um partido político, mas é o mais livre e o mais aberto à sociedade.
Quais são os limites de um jornal como o “Ação Socialista”?
Não há limite nenhum. Nunca me foi imposto limite nenhum. Nunca o secretário-geral me chamou a atenção para o que quer que fosse. Pelo contrário...
O PS é acusado com alguma frequência de pressionar a comunicação social...
Pode ter a certeza que o órgão de comunicação “Ação Socialista” nunca foi alvo de pressões, nunca houve nenhuma interferência. Inclusivamente foi publicada uma entrevista ao ativista Luaty Beirão em que ele criticava o PS e o governo, e a entrevista foi publicada. Não há censura. As pessoas escrevem, a opinião é plural. A crítica também é necessária.
Qual a sua opinião sobre a fase que o jornalismo está a atravessar?
Vejo com preocupação alguns sinais de concentração da propriedade de órgãos de comunicação social, o desaparecimento de alguns títulos ou, pelo menos, o desaparecimento em papel, fusões anunciadas e os despedimentos que têm ocorrido. Está já agendado um debate sobre a comunicação social por iniciativa da comissão de Cultura e Comunicação. Há em Portugal excelentes jornalistas e há órgãos de comunicação social com muita qualidade. É um debate que deve ser feito. A comunicação social cumpre um papel inestimável em qualquer democracia.
Lê jornais em papel ou na internet?
As duas coisas. Sou da geração do papel. Continuo a ter necessidade de ter contacto com o papel, mas adaptei-me bastante bem às novas tecnologias. O iPad é um dos meus objetos de estimação e alterou muito a minha vida. Mas continuo a ter a necessidade do contacto com o papel.
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Inscreveu-se no PS no dia 5 de outubro de 1980, após a derrota de Soares contra a AD. “Sempre fui do PS. Nunca fui outra coisa”, diz Edite Estrela. A dirigente socialista acredita que este governo vai cumprir os quatro anos da legislatura e defende que o PS não deve afastar nenhum cenário para as próximas legislativas, inclusive uma coligação com os partidos à sua esquerda.
Quando entrou para o PS havia poucas mulheres na política. Foi discriminada por ser mulher?
Não posso dizer que alguma vez tenha sido discriminada, mas não é preciso ter sido discriminada para saber que as mulheres continuam, infelizmente, a ser discriminadas. Quando fui eleita pela primeira vez para a comissão política do PS, éramos apenas três mulheres.
Isso foi em 1983...
Sim. Eu aderi ao Partido Socialista em 1980.
Quando entrou na política era professora...
Exatamente. Era professora de Português e de Latim. Foi muito gratificante e, ao longo da minha vida, tenho encontrado muitos ex-alunos que recordam com simpatia os tempos em que eram meus alunos.
Era nessa altura que fazia os programas na RTP em que ensinava a falar português?
Fiz quase durante dez anos. Cheguei a fazer um programa entre o telejornal e a novela que toda a gente via no horário nobre. Era um programa muito curto e prendia as crianças. Há muitas pessoas que me dizem – hoje já são adultos – que viam os programas de língua portuguesa quando eram crianças.
Lembra-se das circunstâncias em que aderiu ao PS?
Foi no dia seguinte à derrota da Frente Republicana e Socialista (FRS), no dia 5 de outubro de 1980, porque eu tinha feito a campanha e fiquei muito dececionada quando ganhou a AD. Fui para a Costa da Caparica sozinha, porque gosto muito de me inspirar no mar. No silêncio, ouvindo apenas as ondas. E nessa noite decidi inscrever-me no PS.
Foi sempre do PS?
Sim. Sempre. Nunca fui de outra coisa. Mas como eu aderi ao PS mais ou menos na mesma altura em que aderiram os ex-MES, achavam que eu também tinha vindo do MES. Mas não. Nunca fui do MES, nunca fui de outra coisa.
No congresso do PS, em 2013, defendeu que o PS devia fazer alianças à esquerda. O que achou agora desta solução?
Só podia ficar satisfeita porque, de facto, era lamentável que, enquanto a direita tinha condições para fazer alianças e criar soluções governativas mais estáveis, o PS parecia condenado a fazer também alianças só com a direita. Isso, para mim, era muito difícil de compreender. Eu senti nesta campanha eleitoral que era isso que uma grande maioria dos eleitores queriam. Quando falava com as pessoas, na campanha, frequentemente me era dito o seguinte: “Eu não sei se vou votar no PS, vou votar à esquerda e o que importa é que haja uma maioria de esquerda. Depois vocês entendam-se.” Havia esta mensagem que era recorrente no sentido de haver uma solução governativa de esquerda. E isso, para mim, ficou muito claro durante a campanha.
Já encontrou alguma explicação para a derrota do PS?
Foi precisamente porque as pessoas quiseram forçar essa solução à esquerda.
O conceito de derrota é muito interessante. Eu tenho uma ex-colega dinamarquesa do Parlamento Europeu que acompanha com interesse a situação política portuguesa e faz comentário político na televisão dinamarquesa, e a seguir às eleições ela estranhava que se dissesse que o PSD tinha ganho as eleições, porque na Dinamarca quem ganha as eleições é quem aumenta o seu score em relação a anteriores eleições e o vencedor é quem consegue formar governo. Ela estranhava e acha que quem ganhou foi o PS, porque foi o PS que conseguiu formar governo.
Esta solução obrigou o PS a virar à esquerda?
O PS mantém-se fiel aos seus valores, aos seus princípios, à sua história e àquilo que foi a obra que é reconhecida em prol do interesse público. E fiel ao seu programa. Não tenho memória de um partido ter cumprido tudo aquilo que prometeu na campanha eleitoral. E isso é possível porque tem condições no parlamento para cumprir o programa eleitoral. Sem colocar em causa as regras de consolidação orçamental que decorrem da nossa pertença à zona euro.
É possível continuar a responder às exigências do PCP e do BE e cumprir as metas de Bruxelas?
Faz seis meses que esses acordos foram assinados. Poucos auguravam que chegássemos ao fim destes seis meses na situação em que estamos. O que diziam era que este acordo não ia além do teste do Orçamento para 2016. Depois diziam que não iria além do teste do Programa de Estabilidade. A verdade é que tem passado todos os testes e esta solução governativa está consolidada. Chamam-lhe geringonça. Pois que seja geringonça, mas a verdade é que funciona.
E vai continuar a funcionar até ao final da legislatura?
Acredito que iremos cumprir o mandato. Sabe porquê? Porque os acordos foram feitos com base nos pontos de convergência, que passavam por devolver os rendimentos às famílias, mas ninguém escondeu que havia pontos de divergência. Esses pontos de divergência são claros. Ninguém esconde nada de ninguém.
A questão é se as regras de Bruxelas são compatíveis com as exigências do BE e do PCP, porque no dia em que o governo tiver de avançar com medidas de austeridade corre o risco de perder o apoio dos partidos à sua esquerda.
Está a ser compatível. O que tem sido privilegiado a nível interno é virar a página da austeridade, devolver os salários que tinham sido cortados, aumentar o salário mínimo nacional, reduzir os impostos, ou seja, criar condições para aumentar a procura interna e promover o crescimento e a criação de emprego. Era isto que constava do programa do PS e são objetivos convergentes com o PCP, o BE e o PEV. Em matéria europeia não se escondem as divergências.
Que são muitas.
O PS sempre afirmou que iria cumprir os compromissos europeus, mas houve uma alteração da nossa relação com a Europa. O António Costa não está a ser subserviente. Há toda uma dinâmica neste processo de diálogo europeu que também vai mudando porque vão mudando os atores e vão mudando os interlocutores. Temos um primeiro-ministro que é conhecido na Europa, que é respeitado na Europa, que pertence a uma grande família europeia, que tem uma grande experiência governativa, que tem um diálogo fácil com outros primeiros-ministros. António Costa tem procurado estabelecer uma estratégia de convergência com outros países, mesmo países que não são governados pela mesma família política, mas que têm o mesmo tipo de interesses e problemas. Não é uma voz desgarrada. Isto tem sido aproveitado a favor do interesse nacional.
Mas a diferença entre o PS e os partidos à sua esquerda é profunda. O PS sempre foi um partido europeísta e o PCP, mesmo esta semana, voltou a defender que Portugal deve sair do euro.
Sem dúvida que o PS é um partido europeísta e não abdica disso, mas isso não põe em causa o acordo. O PS não mudou e o PCP também não mudou. Esses pontos de divergência foram assumidos.
A partir de agora, a tendência será o PS aliar-se à esquerda e o PSD à direita?
Não gosto de fazer futurologia, porque vivemos tempos de grande imprevisibilidade. É possível que haja no futuro a reprodução destes acordos e é possível que evoluam noutro sentido. Temos de esperar para perceber o que será melhor.
Este acordo foi possível porque António Costa era o líder do PS?
Acho que sim. Foi possível porque António Costa era o secretário-geral do PS e foi o candidato a primeiro-
-ministro.
Nas próximas eleições, o PS irá concorrer sozinho?
Na moção de estratégia que o Antó Costa apresenta ao congresso não se prevê qualquer aliança pré-eleitoral.
Mas qual é a sua opinião?
Acho que ainda é muito cedo. Estamos no início deste processo e, portanto, estar a antever o que pode acontecer daqui a quatro anos... Quatro anos em política é demasiado tempo para perdermos tempo com exercícios académicos
Mas não a chocava uma solução dessas...
Devemos estar abertos a todas as soluções que defendam o interesse nacional. Não excluo nenhuma solução que defenda o interesse nacional.
Há muitos socialistas a elogiar Marcelo Rebelo de Sousa: Manuel Alegre, Jorge Coelho… Partilha desse entusiasmo?
O Presidente da República, comparativamente com os dez anos de Presidência de Cavaco Silva, representa uma lufada de ar fresco. Cavaco Silva fechava-se e ninguém dava por ele. Nós sabemos o que está a fazer este Presidente da República.
Não pode tornar-se excessivo?
Pode cair no exagero, por um lado, pode cansar, por outro, e há momentos em que é necessário resguardar-se. O Presidente da República de certeza que vai ter momentos em que lhe é exigida uma grande ponderação para tomar decisões. Para já, acho graça e acho que é uma lufada de ar fresco, mas ninguém aguentaria este ritmo frenético durante cinco anos.
Tem apoiado o governo.
Não tem sido sectário. Tem sido isento.
A tentativa do Presidente da República de colocar o acordo ortográfico na agenda política não foi pacífica. Faz sentido repensar o acordo?
Eu sou favorável ao acordo ortográfico. Isso não significa que eu considere que todas as opções que este acordo contempla são as melhores opções, mas não há nenhuma reforma ortográfica que seja perfeita e esta também não é perfeita. Julgo que cumpre os principais objetivos que levaram à sua assinatura pelos vários países que têm a língua portuguesa como língua materna ou como língua oficial. Como lhe disse, considero que Marcelo tem estado bem no exercício das suas funções, mas acho que as declarações que fez foram talvez a primeira falha que ele cometeu.
Porquê?
Ele não pode distinguir o cidadão Marcelo do Presidente da República. O lugar onde se fala e a pessoa que fala têm relevância para o entendimento da mensagem e obviamente que os cidadãos, ao ouvirem o Presidente da República dizer aquilo que ele disse, dão uma maior importância do que se fosse dito por qualquer outro cidadão. Por outro lado, não foi o momento mais adequado, porque fez essa declaração antes de uma visita oficial a um país de língua oficial portuguesa [Moçambique]. Nem o conteúdo nem o momento escolhido foram adequados. Como Presidente, deveria ter-se resguardado.
José Sócrates queixou-se há pouco tempo da falta de apoio do PS. Gostava de ter visto o PS a defender o seu ex-líder?
O António Costa tem gerido bem uma situação que é difícil para todos nós e muito mais para aqueles que são amigos do eng.o Sócrates. Mas uma coisa é o nosso sentimento, outra coisa é a ação política. E, portanto, desde muito cedo que o António Costa disse: “À justiça o que é da justiça, à política o que é da política.”
É dessa postura do PS que José Sócrates se queixa.
Tem sido essa a atitude que tem sido tomada e, do meu ponto de vista, é correta. Nós sempre defendemos a separação de poderes, mas é evidente que eu, como cidadã, não deixo de estranhar que o eng.o José Sócrates tenha estado preso vários meses... A verdade é que não foi deduzida acusação e é demasiado tempo, do meu ponto de vista. Mas não sou jurista. Partilho da estupefação com que muitos cidadãos acompanham este processo.
Não ficou surpreendida quando soube que o ex-primeiro-ministro recebia dinheiro de um amigo ligado à construção civil?
Não me quero pronunciar... Não conheço o processo. Não sei se é mesmo assim ou não é.
É público que José Sócrates recebia dinheiro de um amigo...
Que pediu emprestado... Acho que pedir dinheiro emprestado com intenção de pagar não é crime e não é condenável, mas não quero estar a falar de um assunto que não conheço.
Encara a possibilidade de José Sócrates voltar à política?
Não posso fazer futurologia, como é óbvio.
Esteve cinco anos no Parlamento Europeu e tinha a expectativa de continuar em Bruxelas. Ficou magoada com António José Seguro por não ter sido incluída na lista para o Parlamento Europeu?
Fui apanhada de surpresa porque tinha reuniões regulares com o secretário-geral do PS [António José Seguro], mas tive apenas conhecimento meia hora antes de a lista ser apresentada à comissão política de que o meu nome não constava. Eu tinha sido eleita a melhor deputada do ano na área dos assuntos sociais em 2014. Também já o tinha sido em 2010. Penso que não terá havido nenhum outro deputado que tenha sido eleito por duas vezes, na sua passagem pelo Parlamento Europeu, o melhor deputado. Fiquei muito surpreendida. Estava a de-senvolver um bom trabalho, que era reconhecido pelos meus colegas e pelas organizações não governamentais que acompanham as áreas em que eu trabalhava.
Julga que foi penalizada por não ser “segurista”? Qual a razão que lhe foi apresentada?
Não sei qual foi a razão. Essa resposta só poderá ser dada pelo ex-secretário-
-geral António José Seguro.
Gostou de voltar à Assembleia da República?
Tenho uma grande capacidade de adaptação às novas situações porque eu gosto de trabalhar. Dei o meu melhor quando estive aqui na Assembleia da República, dei o meu melhor quando fui presidente da Câmara Municipal de Sintra e orgulho-me da obra feita. Hoje, essa obra é mais reconhecida do que foi naquela altura. Orgulho-me do trabalho que fiz no Parlamento Europeu, mas gosto também daquilo que estou a fazer. Sou presidente da Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto.
Foi deputada pela primeira vez em 1987. Há quem ache que os deputados, hoje, têm menos qualidade. Concorda?
Não concordo. A Assembleia da República sem dúvida que está diferente. Rejuvenesceu. Tem uma maior percentagem de gente jovem e é natural que hoje se faça política de maneira diferente. Temos acesso à informação e a tudo o que se passa no mundo no momento em que ocorre. A existência das redes sociais, a internet, isso está tudo ao alcance de um clique. As redes sociais abriram à participação cidadã um debate que era tido apenas em privado, porque nem todos os cidadãos, mesmo aqueles que tinham pensamento crítico, tinham acesso à comunicação social.
Para o bem e para o mal
Todas as grandes descobertas da humanidade tiveram o seu lado positivo e o seu lado negativo. Mas muitas das chamadas figuras públicas de hoje emergiram nas redes sociais, na blogosfera... Há uma grande transformação na sociedade e no próprio país. Hoje somos um país moderno, não obstante os últimos quatro anos de retrocesso na ciência, na inovação e na qualificação das pessoas – objetivos que estão a ser retomados por este governo. Mas, hoje em dia, Portugal é um país moderno e com recursos humanos qualificados. Infelizmente, uma parte dos recursos humanos mais jovens e altamente qualificados foram obrigados a emigrar. Perdemos alguns dos nossos talentos, o que contribui para o empobrecimento do país. Alguns dos que agora se mostram muito preocupados com a taxa de natalidade, que acordaram para esse problema de uma forma oportunista e pouca séria, diria mesmo até demagógica, foram os mesmos que obrigaram e convidaram os jovens a sair do país.
Está a falar do CDS, que apresentou 25 medidas para aumentar a natalidade.
Exatamente. Foi o CDS que apresentou esse pacote. Cortaram os salários, cortaram as pensões, reduziram os apoios sociais como o rendimento social de inserção ou o complemento solidário para idosos... As famílias empobreceram. O próprio primeiro-ministro assumiu que a estratégia para sair da crise era através do empobrecimento. Não é empobrecendo as famílias que se consegue estimular a natalidade. Convenhamos que é ridículo apresentar como uma das propostas para incentivar a natalidade a criação do Dia dos Irmãos.
É uma proposta simbólica.
Se alguém pensa que é com a criação do Dia dos Irmãos que as famílias vão a correr ter o segundo filho... é completamente ridículo. A questão demográfica é uma questão muito séria e tem de ser tratada com seriedade. Durante os quatro anos do governo PSD/CDS, a natalidade baixou 18%. Ou seja, baixou mais do que nos anteriores 20 anos. O que está a acontecer é, de facto, dramático, porque põe em causa a sustentabilidade da Segurança Social e o desenvolvimento do país.
É diretora do jornal oficial do PS. Tem muitos leitores?
É uma experiência inovadora e única no país. É um projeto de comunicação de um partido político, mas é o mais livre e o mais aberto à sociedade.
Quais são os limites de um jornal como o “Ação Socialista”?
Não há limite nenhum. Nunca me foi imposto limite nenhum. Nunca o secretário-geral me chamou a atenção para o que quer que fosse. Pelo contrário...
O PS é acusado com alguma frequência de pressionar a comunicação social...
Pode ter a certeza que o órgão de comunicação “Ação Socialista” nunca foi alvo de pressões, nunca houve nenhuma interferência. Inclusivamente foi publicada uma entrevista ao ativista Luaty Beirão em que ele criticava o PS e o governo, e a entrevista foi publicada. Não há censura. As pessoas escrevem, a opinião é plural. A crítica também é necessária.
Qual a sua opinião sobre a fase que o jornalismo está a atravessar?
Vejo com preocupação alguns sinais de concentração da propriedade de órgãos de comunicação social, o desaparecimento de alguns títulos ou, pelo menos, o desaparecimento em papel, fusões anunciadas e os despedimentos que têm ocorrido. Está já agendado um debate sobre a comunicação social por iniciativa da comissão de Cultura e Comunicação. Há em Portugal excelentes jornalistas e há órgãos de comunicação social com muita qualidade. É um debate que deve ser feito. A comunicação social cumpre um papel inestimável em qualquer democracia.
Lê jornais em papel ou na internet?
As duas coisas. Sou da geração do papel. Continuo a ter necessidade de ter contacto com o papel, mas adaptei-me bastante bem às novas tecnologias. O iPad é um dos meus objetos de estimação e alterou muito a minha vida. Mas continuo a ter a necessidade do contacto com o papel.