Paulo Jorge Figueiredo
Quem diria que no Verão de 2017 uma semana inteira seria dedicada a discussões sobre ciganos e homossexuais? André Ventura, candidato à Câmara de Loures, decidiu dar um tiro no pé, antes mesmo de a corrida começar a sério, julgando fazer um discurso que, em princípio, agradaria ao “seu eleitorado”. Por seu eleitorado leia-se aqui os adeptos do PSD e CDS, que quase toda a gente continua a considerar a Direita, porque assim fica mais fácil distinguir, e colocar em confronto com a Esquerda. Já o disse várias vezes, mas está na altura de repetir, que me parece algo (ou melhor, muito) deslocada esta distinção, incapaz de arranjar melhor nomenclatura do que a nascida nos pós-25 de abril. Aí, sim, como sabemos ou ouvimos contar, o país estava dividido ao meio, nem bem em Esquerda e Direita, mas em comunas e fachos. Cada lado odiava o outro, de forma quase religiosa, porque implacável e fundamentalista. Eram, aliás, tempos em que não se vislumbrava essa amiba que hoje me parece ter tomado conta de todas as forças partidárias, a que se chama Centro. Ou Centrão, para designar a única mudança a que realmente assistimos no poder em mais de 40 anos: ou PS ou PSD. O resto, apesar da moderna geringonça, ou da colagem exígua do CDS, é folclore. O que foge do Centro, venha mais da esquerda ou da direita, deve ser gerido com muita cautela. Do género: dá para fazer piadas em jantaradas com amigos mas não é aconselhável evidenciar ou confessar em campanha aberta. Parece-me que foi este o erro do candidato; não perceber a diferença entre estas circunstâncias. Porque o discurso sobre os ciganos (preguiçosos, nada interessados em integrar-se, burlões, sempre à cata de subsídios) já o ouvi a muita gente de quem vocês nem desconfiam. Quer isto dizer que o discurso revela uma “verdade” que nem todos estão preparados para ouvir? Não, de todo. O discurso, mais ou menos aberto, é perigoso e injusto. O problema, quer-me parecer, é que o combate a este tipo de estupidez é também ele mal conduzido. Pelo que vejo, responde-se à generalização mais absurda com... uma outra generalização absurda. Do que vi e ouvi, foi tal a sede de bater no candidato xenófobo que só faltou ouvir os indignados dizerem que nunca sequer ouviram falar de um cigano aldrabão. Que são todos uns anjos. É o problema de se responder à estupidez com demasiada pressa. Cai-se no extremo oposto, também ele ridículo. Claro que há ciganos aldrabões, como há milhões de outros aldrabões, das mais variadas cores e raças e credos. De outra forma, foi também um rolo compressor de generalidades o que respondeu ao médico Gentil Martins, que na famosa entrevista disse coisas sobre a homossexualidade que já julgávamos enterradas, bem fundo, no baú das alarvidades. Com esta frase (julgo eu) fica claro o que penso das afirmações do ilustre professor. Mas foi mais uma vez com mágoa (porque considero ineficaz) ver tanta resposta que lhe deram a louvar a homossexualidade. A homossexualidade não precisa de ser louvada, não pode cair na armadilha (como vi escrito em comentários) de se dizer “muito mais bonita e verdadeira que as relações ditas normais”. A homossexualidade não pode cair na esparrela de quem lhe quer arranjar uma guerra com outras formas de sentir o sexo. Como diz, e muito bem, Ney Matogrosso, “gay o caraças, eu sou uma pessoa.” A generalidade absurda de Gentil Martins, aliada a um preconceito pouco compreensível num homem de ciência, teve muita resposta disparatada, muita generalidade. E o problema dessa generalização foi, precisamente, o de ver tanta gente (talvez sem o perceber) responder-lhe como se os homossexuais fossem um grupo de gente toda igual. Isso é confinarem-se a um gueto estereotipado. E foi para aí que Gentil Martins os quis mandar.
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Paulo Jorge Figueiredo
Quem diria que no Verão de 2017 uma semana inteira seria dedicada a discussões sobre ciganos e homossexuais? André Ventura, candidato à Câmara de Loures, decidiu dar um tiro no pé, antes mesmo de a corrida começar a sério, julgando fazer um discurso que, em princípio, agradaria ao “seu eleitorado”. Por seu eleitorado leia-se aqui os adeptos do PSD e CDS, que quase toda a gente continua a considerar a Direita, porque assim fica mais fácil distinguir, e colocar em confronto com a Esquerda. Já o disse várias vezes, mas está na altura de repetir, que me parece algo (ou melhor, muito) deslocada esta distinção, incapaz de arranjar melhor nomenclatura do que a nascida nos pós-25 de abril. Aí, sim, como sabemos ou ouvimos contar, o país estava dividido ao meio, nem bem em Esquerda e Direita, mas em comunas e fachos. Cada lado odiava o outro, de forma quase religiosa, porque implacável e fundamentalista. Eram, aliás, tempos em que não se vislumbrava essa amiba que hoje me parece ter tomado conta de todas as forças partidárias, a que se chama Centro. Ou Centrão, para designar a única mudança a que realmente assistimos no poder em mais de 40 anos: ou PS ou PSD. O resto, apesar da moderna geringonça, ou da colagem exígua do CDS, é folclore. O que foge do Centro, venha mais da esquerda ou da direita, deve ser gerido com muita cautela. Do género: dá para fazer piadas em jantaradas com amigos mas não é aconselhável evidenciar ou confessar em campanha aberta. Parece-me que foi este o erro do candidato; não perceber a diferença entre estas circunstâncias. Porque o discurso sobre os ciganos (preguiçosos, nada interessados em integrar-se, burlões, sempre à cata de subsídios) já o ouvi a muita gente de quem vocês nem desconfiam. Quer isto dizer que o discurso revela uma “verdade” que nem todos estão preparados para ouvir? Não, de todo. O discurso, mais ou menos aberto, é perigoso e injusto. O problema, quer-me parecer, é que o combate a este tipo de estupidez é também ele mal conduzido. Pelo que vejo, responde-se à generalização mais absurda com... uma outra generalização absurda. Do que vi e ouvi, foi tal a sede de bater no candidato xenófobo que só faltou ouvir os indignados dizerem que nunca sequer ouviram falar de um cigano aldrabão. Que são todos uns anjos. É o problema de se responder à estupidez com demasiada pressa. Cai-se no extremo oposto, também ele ridículo. Claro que há ciganos aldrabões, como há milhões de outros aldrabões, das mais variadas cores e raças e credos. De outra forma, foi também um rolo compressor de generalidades o que respondeu ao médico Gentil Martins, que na famosa entrevista disse coisas sobre a homossexualidade que já julgávamos enterradas, bem fundo, no baú das alarvidades. Com esta frase (julgo eu) fica claro o que penso das afirmações do ilustre professor. Mas foi mais uma vez com mágoa (porque considero ineficaz) ver tanta resposta que lhe deram a louvar a homossexualidade. A homossexualidade não precisa de ser louvada, não pode cair na armadilha (como vi escrito em comentários) de se dizer “muito mais bonita e verdadeira que as relações ditas normais”. A homossexualidade não pode cair na esparrela de quem lhe quer arranjar uma guerra com outras formas de sentir o sexo. Como diz, e muito bem, Ney Matogrosso, “gay o caraças, eu sou uma pessoa.” A generalidade absurda de Gentil Martins, aliada a um preconceito pouco compreensível num homem de ciência, teve muita resposta disparatada, muita generalidade. E o problema dessa generalização foi, precisamente, o de ver tanta gente (talvez sem o perceber) responder-lhe como se os homossexuais fossem um grupo de gente toda igual. Isso é confinarem-se a um gueto estereotipado. E foi para aí que Gentil Martins os quis mandar.