4 de Abril de 2009

11-01-2020
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São as vantagens de ter tido bons professores. Há um quarto de século tive um desses, excelente, que muito me ensinou - e bem mais do que na altura eu julguei ter aprendido - sobre história da antropologia. Nesses caminhos bem me lembro de uma sua intervenção a propósito de um então muito em voga "Sobre as Sociedades Pré-capitalistas" onde desfez - assim como quem não quer a coisa - essas conceptualizações/periodizações assentes nos "pré" e "pós", coisas que, vim a sabê-lo, que por mais voltas retóricas que se façam assentam sempre em teleologias e essencialismos. Ou então, em não sendo mesmo o caso, não servem para nada.

Daí que quando ouço falar nessa moda perene do "pós-colonial" fico com os cabelos eriçados. E em verdadeiros roncos quando discorrem, doutorais (ou phdais), sobre a "ambiguidade" peculiar de tais "contextos". Pois, raios os fulminem, qual o "contexto" [singular] onde não há "peculiares" "ambiguidades" [plurais]?

Vem isto a propósito de um "rascunho" de "post" que para aqui foi envelhecendo, dedicado à

exposição colectiva "Troca de Olhares" que foi apresentada no Instituto Camões - Maputo há um ou dois anos (acho que em 2007), uma produção do próprio Instituto Camões, com curadoria de Isabel Carlos integrando obras de Ângela Ferreira, Francisco Vidal, Maria Lusitano e Vasco Araújo, com algumas obras curiosas e outras nem tanto, mas apelando acima de tudo ao diálogo com a ideologia (falsa consciência, a la Marx) que ali as unia.

[Ângela Ferreira, "Portugal é Sensacional", Escultura, 1999]

Lembro-me de que na altura pouco apreciei o conteúdo - a obra acima reproduzida é o caso inverso - , nada gostei do texto introdutório do catálogo e menos da intervenção da curadora, a qual aqui acabou por reduzir o "chapéu de chuva" do "pós-colonialismo" a uma questão de calendarização/periodização. Vim para casa, reproduzi as imagens (estas) e imaginei-me, com esta desculpa, a agredir a tralha "pós-colonial". O tempo passou, o saber escasseou, a memória e o interesse também, e o "rascunho" foi ficando para trás, aliás, lá para o fundo. E já nem me lembro do que queria então dizer e do que, do como, não tinha gostado.

Hoje ao ler este O Rei da Machamba, de Cristina Ferreira de Almeida lembrei-me deste "pré-post" abandonado, em particular desta obra,

[Ângela Ferreira, "Hortas nas Auto-Estradas (A Reforma Agrária)", 2006]

então vista como reflectindo a "pós-colonialidade", sua encarnação iconográfica pois "o local para esta encarnação iconográfica não é de todo inocente: são as hortas plantadas nas bermas das auto-estradas, território de ninguém que os habitantes, nomeadamente de origem africana, dos subúrbios de Lisboa foram cultivando ..." (Isabel Carlos, catálogo, p. 10), manipulação a la carte do real, mitificação que tanto me tinha irritado, olivalense crescido entre-hortas que sou.

Mas ainda bem que desde então nada escrevi. Pois nunca teria sido tão explícito" e eficaz como este Rei da Machamba. Para o texto e sua autora fica esta última foto.

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São as vantagens de ter tido bons professores. Há um quarto de século tive um desses, excelente, que muito me ensinou - e bem mais do que na altura eu julguei ter aprendido - sobre história da antropologia. Nesses caminhos bem me lembro de uma sua intervenção a propósito de um então muito em voga "Sobre as Sociedades Pré-capitalistas" onde desfez - assim como quem não quer a coisa - essas conceptualizações/periodizações assentes nos "pré" e "pós", coisas que, vim a sabê-lo, que por mais voltas retóricas que se façam assentam sempre em teleologias e essencialismos. Ou então, em não sendo mesmo o caso, não servem para nada.

Daí que quando ouço falar nessa moda perene do "pós-colonial" fico com os cabelos eriçados. E em verdadeiros roncos quando discorrem, doutorais (ou phdais), sobre a "ambiguidade" peculiar de tais "contextos". Pois, raios os fulminem, qual o "contexto" [singular] onde não há "peculiares" "ambiguidades" [plurais]?

Vem isto a propósito de um "rascunho" de "post" que para aqui foi envelhecendo, dedicado à

exposição colectiva "Troca de Olhares" que foi apresentada no Instituto Camões - Maputo há um ou dois anos (acho que em 2007), uma produção do próprio Instituto Camões, com curadoria de Isabel Carlos integrando obras de Ângela Ferreira, Francisco Vidal, Maria Lusitano e Vasco Araújo, com algumas obras curiosas e outras nem tanto, mas apelando acima de tudo ao diálogo com a ideologia (falsa consciência, a la Marx) que ali as unia.

[Ângela Ferreira, "Portugal é Sensacional", Escultura, 1999]

Lembro-me de que na altura pouco apreciei o conteúdo - a obra acima reproduzida é o caso inverso - , nada gostei do texto introdutório do catálogo e menos da intervenção da curadora, a qual aqui acabou por reduzir o "chapéu de chuva" do "pós-colonialismo" a uma questão de calendarização/periodização. Vim para casa, reproduzi as imagens (estas) e imaginei-me, com esta desculpa, a agredir a tralha "pós-colonial". O tempo passou, o saber escasseou, a memória e o interesse também, e o "rascunho" foi ficando para trás, aliás, lá para o fundo. E já nem me lembro do que queria então dizer e do que, do como, não tinha gostado.

Hoje ao ler este O Rei da Machamba, de Cristina Ferreira de Almeida lembrei-me deste "pré-post" abandonado, em particular desta obra,

[Ângela Ferreira, "Hortas nas Auto-Estradas (A Reforma Agrária)", 2006]

então vista como reflectindo a "pós-colonialidade", sua encarnação iconográfica pois "o local para esta encarnação iconográfica não é de todo inocente: são as hortas plantadas nas bermas das auto-estradas, território de ninguém que os habitantes, nomeadamente de origem africana, dos subúrbios de Lisboa foram cultivando ..." (Isabel Carlos, catálogo, p. 10), manipulação a la carte do real, mitificação que tanto me tinha irritado, olivalense crescido entre-hortas que sou.

Mas ainda bem que desde então nada escrevi. Pois nunca teria sido tão explícito" e eficaz como este Rei da Machamba. Para o texto e sua autora fica esta última foto.

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