Nos últimos 18 anos, a taxa de poupança das famílias portuguesas caiu de 12,7% para 6,5%, segundo os dados do Eurostat. Uma descida pronunciada que traduz diferentes padrões de consumo e contextos ao longo de quase duas décadas. Mas afinal, que motivos explicam este fenómeno? E que medidas poderiam estimular os portugueses a por dinheiro de lado?
“As razões são várias. As pessoas queixavam-se de falta de rendimentos, mas o engraçado é que a taxa de poupança subiu durante a crise. Isso explica em grande parte o nosso comportamento em termos financeiros”, diz ao Expresso João Duque, professor catedrático do ISEG-ULisboa e presidente da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES).
Segundo o docente de Finanças, existe entre os portugueses um “sentimento pouco fundado” de que o Estado toma conta deles, o que acaba por desresponsabilizá-los quanto à necessidade de poupar nomeadamente para o período da reforma.
A crise não foi pedagógica
“Nem o susto da troika parece ter ensinado alguma coisa. A medida mais forte para alterar este cenário seria dizer aos cidadãos que não haverá Segurança Social que lhes garanta pensões de reforma na velhice. Mas isso não aconteceu até agora”, acrescenta João Duque, lamentando o discurso político omisso em relação a isso.
Opinião partilhada por Luís Mira Amaral, economista e ex-ministro da Indústria e da Energia, que destaca o indicador de confiança dos portugueses que tem assinalado um movimento ascendente nos últimos seis meses, à exceção de outubro, quando diminuiu ligeiramente, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE).
“Portugal vive numa sociedade de consumo muito mais intensa do que há 20 anos. E depois, nós, portugueses, somos bipolares: ou aproximamo-nos da bancarrota, como em 2011, e somos obrigados a poupar, ou entramos na euforia, como no período pós-troika, e voltamos a consumir de forma desenfreada”, afirma o antigo ministro, sublinhando que quando terminou o período da austeridade, o Governo de António Costa transmitiu uma “certa sensação de descompressão”.
Dívida externa é “muito preocupante”
Admitindo que a reduzida taxa de poupança é motivo de alarme, Mira Amaral realça que o país pode sempre recorrer ao investimento estrangeiro, mas “a dívida externa é muito preocupante” e coloca pressões adicionais. “No caso de investidores estrangeiros, só ficam as rendas e os salários. Os juros vão-se embora, o que é negativo”, observa por sua vez João Duque.
Embora a baixa taxa de poupança das famílias em Portugal não seja caso único na União Europeia (UE), há países como o Luxemburgo ou a Alemanha que lideram ao nível da poupança, tendo alcançado taxas de 21,4% e 18,5%, respetivamente, em 2018.
“Quando olhamos para a taxa da Alemanha verificamos que os alemães têm uma fixação pela poupança. E o país consegue poupar a três níveis: ao nível do Estado, das empresas e das famílias. Por cá, o cenário é o inverso: aumentamos a dívida ao nível do Estado, das famílias e das empresas”, explica o docente do ISEG.
Investimento imobiliário tem componente de poupança
João Duque salienta ainda que todo o investimento imobiliário tem também uma “componente de poupança” e que nessa área estamos à frente de vários países europeus, onde a população prefere arrendar casa.
Num contexto de taxas de juro historicamente baixas, o professor catedrático antecipa a médio prazo uma alteração deste quadro, que conduzirá também a mudanças ao nível das políticas de cada Estado-membro. “O Banco Central Europeu (BCE) tenta incentivar as pessoas a aumentar o consumo. Mas há muita liquidez que se esvai e o consumo mantém-se estável. Começa a haver uma divergência muito grande na Europa. Em 2018, a taxa de juro já devia ter subido, este ano voltaram a adiar, por isso acredito que no espaço de um ano e meio não dará para adiar mais”, vaticina João Duque, frisando que o BCE não tem praticamente margem para baixar mais as taxas.
Para inverter este cenário em Portugal, o professor catedrático sugere em primeiro lugar que o Governo apele à necessidade de poupança “em termos individuais e coletivos”. “O discurso é de total euforia e de total afastamento da palavra poupança. Durante os últimos anos, este Governo não usou a palavra poupança, talvez porque achasse que dava a sensação de que não podia estar a correr tudo bem. Mas é preciso alterar esta prática”, sustenta.
Contas-poupança e Planos Poupança Reforma
Entre outras medidas, João Duque e Mira Amaral aconselham que se aposte mais nas contas-poupança e nos Planos Poupança Reforma e Fundos de Pensões, devendo o Executivo incluir mais benefícios fiscais nesses instrumentos de aforro. “Porque, como já se sabe, para incentivar os portugueses é preciso dar sempre um rebuçado”, diz o antigo ministro da Indústria e da Energia, entre risos.
Por último, defendem mais incentivos para o investimento em instrumentos financeiros e também uma maior aposta na literacia financeira. “É importante educar e informar as pessoas, mas duvido sempre dos resultados. As pessoas são muito utilitaristas e consumistas”, refere Mira Amaral.
Já João Duque considera que em Portugal, não há um ambiente de estímulo à cultura de risco, nem à cultura de sucesso, uma vez que “os portugueses são altamente conservadores” e não vêem, por exemplo, no mercado de capitais um instrumento de poupança. “Mas não se podem esquecer de uma coisa: para ganhar dinheiro é preciso também arriscar”, remata o docente.
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Nos últimos 18 anos, a taxa de poupança das famílias portuguesas caiu de 12,7% para 6,5%, segundo os dados do Eurostat. Uma descida pronunciada que traduz diferentes padrões de consumo e contextos ao longo de quase duas décadas. Mas afinal, que motivos explicam este fenómeno? E que medidas poderiam estimular os portugueses a por dinheiro de lado?
“As razões são várias. As pessoas queixavam-se de falta de rendimentos, mas o engraçado é que a taxa de poupança subiu durante a crise. Isso explica em grande parte o nosso comportamento em termos financeiros”, diz ao Expresso João Duque, professor catedrático do ISEG-ULisboa e presidente da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES).
Segundo o docente de Finanças, existe entre os portugueses um “sentimento pouco fundado” de que o Estado toma conta deles, o que acaba por desresponsabilizá-los quanto à necessidade de poupar nomeadamente para o período da reforma.
A crise não foi pedagógica
“Nem o susto da troika parece ter ensinado alguma coisa. A medida mais forte para alterar este cenário seria dizer aos cidadãos que não haverá Segurança Social que lhes garanta pensões de reforma na velhice. Mas isso não aconteceu até agora”, acrescenta João Duque, lamentando o discurso político omisso em relação a isso.
Opinião partilhada por Luís Mira Amaral, economista e ex-ministro da Indústria e da Energia, que destaca o indicador de confiança dos portugueses que tem assinalado um movimento ascendente nos últimos seis meses, à exceção de outubro, quando diminuiu ligeiramente, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE).
“Portugal vive numa sociedade de consumo muito mais intensa do que há 20 anos. E depois, nós, portugueses, somos bipolares: ou aproximamo-nos da bancarrota, como em 2011, e somos obrigados a poupar, ou entramos na euforia, como no período pós-troika, e voltamos a consumir de forma desenfreada”, afirma o antigo ministro, sublinhando que quando terminou o período da austeridade, o Governo de António Costa transmitiu uma “certa sensação de descompressão”.
Dívida externa é “muito preocupante”
Admitindo que a reduzida taxa de poupança é motivo de alarme, Mira Amaral realça que o país pode sempre recorrer ao investimento estrangeiro, mas “a dívida externa é muito preocupante” e coloca pressões adicionais. “No caso de investidores estrangeiros, só ficam as rendas e os salários. Os juros vão-se embora, o que é negativo”, observa por sua vez João Duque.
Embora a baixa taxa de poupança das famílias em Portugal não seja caso único na União Europeia (UE), há países como o Luxemburgo ou a Alemanha que lideram ao nível da poupança, tendo alcançado taxas de 21,4% e 18,5%, respetivamente, em 2018.
“Quando olhamos para a taxa da Alemanha verificamos que os alemães têm uma fixação pela poupança. E o país consegue poupar a três níveis: ao nível do Estado, das empresas e das famílias. Por cá, o cenário é o inverso: aumentamos a dívida ao nível do Estado, das famílias e das empresas”, explica o docente do ISEG.
Investimento imobiliário tem componente de poupança
João Duque salienta ainda que todo o investimento imobiliário tem também uma “componente de poupança” e que nessa área estamos à frente de vários países europeus, onde a população prefere arrendar casa.
Num contexto de taxas de juro historicamente baixas, o professor catedrático antecipa a médio prazo uma alteração deste quadro, que conduzirá também a mudanças ao nível das políticas de cada Estado-membro. “O Banco Central Europeu (BCE) tenta incentivar as pessoas a aumentar o consumo. Mas há muita liquidez que se esvai e o consumo mantém-se estável. Começa a haver uma divergência muito grande na Europa. Em 2018, a taxa de juro já devia ter subido, este ano voltaram a adiar, por isso acredito que no espaço de um ano e meio não dará para adiar mais”, vaticina João Duque, frisando que o BCE não tem praticamente margem para baixar mais as taxas.
Para inverter este cenário em Portugal, o professor catedrático sugere em primeiro lugar que o Governo apele à necessidade de poupança “em termos individuais e coletivos”. “O discurso é de total euforia e de total afastamento da palavra poupança. Durante os últimos anos, este Governo não usou a palavra poupança, talvez porque achasse que dava a sensação de que não podia estar a correr tudo bem. Mas é preciso alterar esta prática”, sustenta.
Contas-poupança e Planos Poupança Reforma
Entre outras medidas, João Duque e Mira Amaral aconselham que se aposte mais nas contas-poupança e nos Planos Poupança Reforma e Fundos de Pensões, devendo o Executivo incluir mais benefícios fiscais nesses instrumentos de aforro. “Porque, como já se sabe, para incentivar os portugueses é preciso dar sempre um rebuçado”, diz o antigo ministro da Indústria e da Energia, entre risos.
Por último, defendem mais incentivos para o investimento em instrumentos financeiros e também uma maior aposta na literacia financeira. “É importante educar e informar as pessoas, mas duvido sempre dos resultados. As pessoas são muito utilitaristas e consumistas”, refere Mira Amaral.
Já João Duque considera que em Portugal, não há um ambiente de estímulo à cultura de risco, nem à cultura de sucesso, uma vez que “os portugueses são altamente conservadores” e não vêem, por exemplo, no mercado de capitais um instrumento de poupança. “Mas não se podem esquecer de uma coisa: para ganhar dinheiro é preciso também arriscar”, remata o docente.