crónicas on the rocks: La solitude, ça n'existe pas?

22-12-2019
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"Chez moi il n'y a plus que moi
Et pourtant ça ne me fait pas peur
La radio, la télé sont là
Pour me donner le temps et l'heure
J'ai ma chaise au Café du Nord
J'ai mes compagnons de flipper
Et quand il fait trop froid dehors
Je vais chez les petites sœurs des cœurs

La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas"
(Gilbert Bécaud)

Só ouvi falar dele no dia da sua morte. Erro meu, que não perco um minuto a ver telenovelas. Fiquei a saber que Rodrigo Meneses  era actor de telenovela e foi encontrado morto em casa no sábado. Ou, como escrevia o Correio da Manha: 

“ Rodrigo Menezes acordou morto. Autoridades estão no local a apurar as causas da morte do ator que esta manhã acordou morto” 

Eu sei que é um bocado tétrico estar a gozar com a javardice de jornalistas, que escrevem textos assim e de editores que deixam  passar notícias destas,  quando se está a falar de alguém que morreu e, ainda por cima, parece colher a simpatia de milhões de portugueses. Mas nos funerais  parece que é  normal contar anedotas para descontrair e eu estou a fazer o mesmo, porque o que vem a seguir é  ( pelo menos para mim) um assunto bastante sério.

Rodrigo Meneses era actor de telenovela e tinha apenas 40 anos. Colegas e público não se cansaram de enaltecer as suas qualidade de actor e de ser humano. Razões suficientes para lamentar a sua morte, mesmo não o conhecendo nem nunca o tendo visto actuar.  Mas não é a idade ou as qualidades de Rodrigo Meneses que me levam a escrever este post.  É o que soube a seguir: estava morto em casa desde quinta- feira! Foi então que me arrepiei.

Como é que uma pessoa admirada e elogiada pelos amigos e colegas de trabalho, permaneceu dois dias morto em casa, sem que ninguém se tivesse apercebido?  Como é que uma pessoa aparentemente popular, sociável e estimada por amigos e colegas, consegue fugir ao escrutínio da morte e só é encontrado dois dias depois?

Que haja velhos que morrem e só são encontrados  semanas, meses, ou anos depois  impressiona-me, custa-me a aceitar, mas compreendo, porque  os velhos têm tendência a isolar-se progressivamente, principalmente quando não têm família chegada por perto.  Agora, quando isso acontece com uma pessoa de sucesso,  na flor da idade, popular , “ com muitos amigos”  causa-me muita impressão e perplexidade.

Só a solidão pode explicar que uma pessoa sociável, com um círculo vasto de “amigos”,  seja encontrada em sua casa, cadáver, apenas dois dias após a sua morte. Isso assusta-me, mas é a realidade deste mundo individualista onde se cultivam as aparências.
La solitude, ça n'existe pas? As aparências iludem, mon cher Gilbert Bécaud!

"Chez moi il n'y a plus que moi
Et pourtant ça ne me fait pas peur
La radio, la télé sont là
Pour me donner le temps et l'heure
J'ai ma chaise au Café du Nord
J'ai mes compagnons de flipper
Et quand il fait trop froid dehors
Je vais chez les petites sœurs des cœurs

La solitude ça n'existe pas
La solitude ça n'existe pas"
(Gilbert Bécaud)

Só ouvi falar dele no dia da sua morte. Erro meu, que não perco um minuto a ver telenovelas. Fiquei a saber que Rodrigo Meneses  era actor de telenovela e foi encontrado morto em casa no sábado. Ou, como escrevia o Correio da Manha: 

“ Rodrigo Menezes acordou morto. Autoridades estão no local a apurar as causas da morte do ator que esta manhã acordou morto” 

Eu sei que é um bocado tétrico estar a gozar com a javardice de jornalistas, que escrevem textos assim e de editores que deixam  passar notícias destas,  quando se está a falar de alguém que morreu e, ainda por cima, parece colher a simpatia de milhões de portugueses. Mas nos funerais  parece que é  normal contar anedotas para descontrair e eu estou a fazer o mesmo, porque o que vem a seguir é  ( pelo menos para mim) um assunto bastante sério.

Rodrigo Meneses era actor de telenovela e tinha apenas 40 anos. Colegas e público não se cansaram de enaltecer as suas qualidade de actor e de ser humano. Razões suficientes para lamentar a sua morte, mesmo não o conhecendo nem nunca o tendo visto actuar.  Mas não é a idade ou as qualidades de Rodrigo Meneses que me levam a escrever este post.  É o que soube a seguir: estava morto em casa desde quinta- feira! Foi então que me arrepiei.

Como é que uma pessoa admirada e elogiada pelos amigos e colegas de trabalho, permaneceu dois dias morto em casa, sem que ninguém se tivesse apercebido?  Como é que uma pessoa aparentemente popular, sociável e estimada por amigos e colegas, consegue fugir ao escrutínio da morte e só é encontrado dois dias depois?

Que haja velhos que morrem e só são encontrados  semanas, meses, ou anos depois  impressiona-me, custa-me a aceitar, mas compreendo, porque  os velhos têm tendência a isolar-se progressivamente, principalmente quando não têm família chegada por perto.  Agora, quando isso acontece com uma pessoa de sucesso,  na flor da idade, popular , “ com muitos amigos”  causa-me muita impressão e perplexidade.

Só a solidão pode explicar que uma pessoa sociável, com um círculo vasto de “amigos”,  seja encontrada em sua casa, cadáver, apenas dois dias após a sua morte. Isso assusta-me, mas é a realidade deste mundo individualista onde se cultivam as aparências.
La solitude, ça n'existe pas? As aparências iludem, mon cher Gilbert Bécaud!

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