As lições cipriotas
Share on facebookShare on twitterShare on googleShare on printMore Sharing ServicesShare
1. A narrativa
Na narrativa oficial, é necessária um saque ao trabalho para garantir
a liquidez e a credibilidade da banca, pilar máximo da nossa sociedade a
partir da qual o futuro germinará. Daí que, em Portugal, ainda antes
dos trabalhadores portugueses possam depositar o rendimento do seu
trabalho este é-lhes confiscado em partes cada vez maiores. Na Europa os
depósitos até 100 mil euros estavam protegidos, mesmo em casa de
falência do banco. Em Chipre, essa segurança foi rasgada. Os rendimentos
amealhados pelas poupanças de quem trabalha foi o alvo. Ficou claro, a
austeridade não é um meio, é o próprio fim. A estabilidade lembram-se?
Não. É mesmo a transferência de riqueza do trabalho para o capital.
2. A Europa centrífuga
A medida cipriota não resistiu, mas mesmo que não seja aplicada tem
já alguns objetivos cumpridos. Sempre nos disseram que é importantíssima
a mensagem que um país dá aos mercados. Ela aí está e é poderosa: não é
seguro depositar dinheiro na periferia. Não é difícil perceber que esta
medida, mesmo que não seja concretizada, leva os grandes aforradores a
rumar a novos paraísos fiscais mas muitos a escolherem o centro da
Europa. É pois uma medida que fortalece e beneficia a banca alemã. Não é
por acaso que Merkel veio a público defendê-la.
3. Não é o melhor do mercado, é o condicionalismo
Outro ponto forte da narrativa dos troikistas é que o seu empréstimo é
o mais bonito do mundo. É ele que separa os povos da selvajaria. Não
fosse essa bonomia e os países estavam entregues à agiotagem do mercado.
Ora, não só a taxa de juro do BCE é de 0,75% para a banca e de 3,55%
para os países como o caso cipriota clarifica a situação. Perante a
eventualidade de negociações com Moscovo, Angela Merkel exigiu que o
Chipre negoceie apenas com a troika. Portanto, não interessa que o
empréstimo da troika seja necessário, que seja ou não o único
disponível, não interessa sequer que seja o melhor do mercado. O que
importa mesmo é que um país se subjugue ao condicionalismo económico da
troika. Não nos enganemos, a parte monetária do empréstimo é importante.
É essa parte que permite à banca, que especulou acima das suas
possibilidades com a dívida da periferia, livrar-se desse fardo.
Livra-se do risco que foi precisamente a justificação de uma tão
generosa remuneração. Fundamental é também o condicionalismo económico
associado. A troika retira o risco da banca do centro, reconhece as
dívidas privadas e ilegítima como boas e, através das imposições
políticas e económicas, passa esse risco e essa factura para os povos.
Exige o esmagamento social para garantir o resgate da banca do centro e
para que o 1% continue a sê-lo à custa dos 99%.
4. Afinal outro caminho é possível
A Comissão Europeia apressou-se a dizer que a ideia não fora sua, que
apenas a apoiou. A verdade é que o Parlamento Cipriota rejeitou a
proposta. Nem um único voto a favor. O discurso do "não há alternativa",
do "tem que ser isto se não somos votados ao isolamento" esbarra na
realidade. Bastou um povo se levantar para a TSU cair. Bastou um
Parlamento votar contra para travar o confisco dos pequenos aforradores.
No Parlamento a esquerda tem-se batido por uma alternativa. Os
troikistas continuam o ataque aos trabalhadores, aos pensionistas e aos
desempregados. Mantêm a fé na receita do desastre. Com um país que se
levanta, um povo que toma as ruas como suas, e um governo de esquerda
que esteja do seu lado, a História escreve-se por outras linhas. É esse o
nosso caminho.
Nelson Peralta
Categorias
Entidades
As lições cipriotas
Share on facebookShare on twitterShare on googleShare on printMore Sharing ServicesShare
1. A narrativa
Na narrativa oficial, é necessária um saque ao trabalho para garantir
a liquidez e a credibilidade da banca, pilar máximo da nossa sociedade a
partir da qual o futuro germinará. Daí que, em Portugal, ainda antes
dos trabalhadores portugueses possam depositar o rendimento do seu
trabalho este é-lhes confiscado em partes cada vez maiores. Na Europa os
depósitos até 100 mil euros estavam protegidos, mesmo em casa de
falência do banco. Em Chipre, essa segurança foi rasgada. Os rendimentos
amealhados pelas poupanças de quem trabalha foi o alvo. Ficou claro, a
austeridade não é um meio, é o próprio fim. A estabilidade lembram-se?
Não. É mesmo a transferência de riqueza do trabalho para o capital.
2. A Europa centrífuga
A medida cipriota não resistiu, mas mesmo que não seja aplicada tem
já alguns objetivos cumpridos. Sempre nos disseram que é importantíssima
a mensagem que um país dá aos mercados. Ela aí está e é poderosa: não é
seguro depositar dinheiro na periferia. Não é difícil perceber que esta
medida, mesmo que não seja concretizada, leva os grandes aforradores a
rumar a novos paraísos fiscais mas muitos a escolherem o centro da
Europa. É pois uma medida que fortalece e beneficia a banca alemã. Não é
por acaso que Merkel veio a público defendê-la.
3. Não é o melhor do mercado, é o condicionalismo
Outro ponto forte da narrativa dos troikistas é que o seu empréstimo é
o mais bonito do mundo. É ele que separa os povos da selvajaria. Não
fosse essa bonomia e os países estavam entregues à agiotagem do mercado.
Ora, não só a taxa de juro do BCE é de 0,75% para a banca e de 3,55%
para os países como o caso cipriota clarifica a situação. Perante a
eventualidade de negociações com Moscovo, Angela Merkel exigiu que o
Chipre negoceie apenas com a troika. Portanto, não interessa que o
empréstimo da troika seja necessário, que seja ou não o único
disponível, não interessa sequer que seja o melhor do mercado. O que
importa mesmo é que um país se subjugue ao condicionalismo económico da
troika. Não nos enganemos, a parte monetária do empréstimo é importante.
É essa parte que permite à banca, que especulou acima das suas
possibilidades com a dívida da periferia, livrar-se desse fardo.
Livra-se do risco que foi precisamente a justificação de uma tão
generosa remuneração. Fundamental é também o condicionalismo económico
associado. A troika retira o risco da banca do centro, reconhece as
dívidas privadas e ilegítima como boas e, através das imposições
políticas e económicas, passa esse risco e essa factura para os povos.
Exige o esmagamento social para garantir o resgate da banca do centro e
para que o 1% continue a sê-lo à custa dos 99%.
4. Afinal outro caminho é possível
A Comissão Europeia apressou-se a dizer que a ideia não fora sua, que
apenas a apoiou. A verdade é que o Parlamento Cipriota rejeitou a
proposta. Nem um único voto a favor. O discurso do "não há alternativa",
do "tem que ser isto se não somos votados ao isolamento" esbarra na
realidade. Bastou um povo se levantar para a TSU cair. Bastou um
Parlamento votar contra para travar o confisco dos pequenos aforradores.
No Parlamento a esquerda tem-se batido por uma alternativa. Os
troikistas continuam o ataque aos trabalhadores, aos pensionistas e aos
desempregados. Mantêm a fé na receita do desastre. Com um país que se
levanta, um povo que toma as ruas como suas, e um governo de esquerda
que esteja do seu lado, a História escreve-se por outras linhas. É esse o
nosso caminho.
Nelson Peralta