Eugénio de Andrade nasceu no Fundão em 1923.Usava o pseudónimo José Fontinhas. Para além de se ter dedicado à poesia desde muito cedo, também organizou várias antologias e traduziu vários poetas estrangeiros, como por exemplo, Garcia Lorca.A obra de Eugénio de Andrade é vasta e "As Mãos e os Frutos" editado em 1948 e "Os Amantes sem Dinheiro" editado em 1950, colocaram-no merecidamente entre os maiores poetas portugueses, tendo assim acumulado várias provas de reconhecimento como, por exemplo, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, em 1989, o Prémio Jean Malrieu para o melhor livro de poesia estrangeira publicado em França, no mesmo ano, e a criação da Fundação Eugénio de Andrade, em 1990, no Porto.Foi também homenageado pelo Presidente da República em 1982, com o Grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada. AdeusJá gastámos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos. Era no tempo em que o teu corpo era um aquário. Era no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti Não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.Eugénio de AndradeNa voz de Luís Gaspar:
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Eugénio de Andrade nasceu no Fundão em 1923.Usava o pseudónimo José Fontinhas. Para além de se ter dedicado à poesia desde muito cedo, também organizou várias antologias e traduziu vários poetas estrangeiros, como por exemplo, Garcia Lorca.A obra de Eugénio de Andrade é vasta e "As Mãos e os Frutos" editado em 1948 e "Os Amantes sem Dinheiro" editado em 1950, colocaram-no merecidamente entre os maiores poetas portugueses, tendo assim acumulado várias provas de reconhecimento como, por exemplo, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, em 1989, o Prémio Jean Malrieu para o melhor livro de poesia estrangeira publicado em França, no mesmo ano, e a criação da Fundação Eugénio de Andrade, em 1990, no Porto.Foi também homenageado pelo Presidente da República em 1982, com o Grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada. AdeusJá gastámos as palavras pela rua, meu amor e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos. Era no tempo em que o teu corpo era um aquário. Era no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti Não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.Eugénio de AndradeNa voz de Luís Gaspar: