16/07/95
Um dia após a pacífica aprovação das listas de deputados
PS vence Campo Pequeno
A aposta do Campo Pequeno era de alto risco, havia alguma tensão no ar, mas, ao princípio da noite, os dirigentes socialistas suspiraram de alívio. Com as bancadas cheias, o PS estreou o seu mais recente símbolo de campanha - o coração multiplicado em "t-shirts" - coloriu a praça. Os candidatos já escolhidos na véspera, numa das mais calmas reuniões do partido, foram apresentados à multidão.
O PS ganhou a aposta do Campo Pequeno. Quando Guterres entrou na praça, às 21h20, a agitação das bancadas com as bandeiras em movimento, constituiu-se numa onda emocionante para um partido arredado do poder há dez anos, tantos quantos o PS não arriscava num palco com as dimensões da praça de touros de Lisboa. O Campo Pequeno não encheu "até cima" mas as bancadas estavam repletas de apoiantes. O suficiente para o "aparelho" socialista suspirar de alívio: às oito da noite, hora marcada para a abertura do comício, meia praça vazia não augurava nada de bom.
Mas não foi só o eleitorado do Sul que fez a festa: cerca de 90 autocarros desaguaram em Lisboa, transportando as bases socialistas de vários pontos do país, que, aliás, trouxeram cartazes de apresentação - "Uma nova Tondela, uma nova maioria", "PS Nelas com a nova maioria" e o mais personalizado de todos: "Francisco Assis - Amarante", o nome do presidente da Câmara que é candidato pelo círculo do Porto.
O palco, ao contrário do habitual em espaços deste género, foi montado na arena - uma ideia que o PS foi beber ao pouco irmão Partido Popular, de José Maria Aznar. O esquema do comício fez intercalar a apresentação de candidatos com a actuação de ranchos folclóricos: os primeiros candidatos, dos Açores e da Madeira, tiveram uma recepção praticamente gelada. Depois, houve um "treino" às massas para que não se deixassem petrificar.
E os últimos candidatos - Aveiro e Castelo Branco - já tiveram uma recepção bem mais entusiástica, com destaque para a entrada em campo de Guterres, que coincidiu com o anúncio da sua candidatura como cabeça-de-lista por Castelo Branco. No círculo de Lisboa, ficou testada a popularidade de Edite Estrela e de Helena Roseta. O povo vibrou com o anúncio dos seus nomes e aplaudiu o presidente do partido, Almeida Santos, que encabeça o círculo da capital.
Os candidatos, a quem estava reservada uma bancada, apresentaram-se em estilo desportivo quanto baste. Jaime Gama e Alberto Costa eram um exemplo claro; alguns menos mediáticos ostentavam mesmo as "t-shirts" do coração que o PS lançou ontem. Uma bancada de militantes da JS, que foi estrategicamente colocada atrás do palanque onde Guterres viria a discursar mais tarde, estava por inteiro vestida do coração - um excelente cenário, produzido à medida das transmissões televisivas.
Lena de Água e Adelaide Ferreira suceder-se-iam à actuação dos ranchos folclóricos. A intervenção de Guterres estava prevista para as 23 horas, já para além do fecho desta edição.
"Recorde mundial"
Na véspera, os dirigentes nacionais escolheram os candidatos a deputados numa reunião da Comissão Política, onde aconteceu um pouco de tudo, menos o que é tradicional nas maratonas socialistas para aprovar as listas, em que os ânimos se exaltam, os protestos são veementes e a gritaria faz-se ouvir pelos corredores.
Reunida num hotel de Lisboa, os espíritos chegaram distendidos à entrada, cerca das 21h30. António Guterres desdramatizava a situação afirmando que em causa apenas estavam "coisas pequenas". Seis horas depois, o líder socialista abandonava o hotel com um sorriso de vitória por tudo ter acontecido praticamente conforme o previsto. Visivelmente satisfeito, não resistiu a, numa frase, sintetizar o que se tinha vivido durante aquelas horas: "um recorde mundial absoluto" de calmaria.
Contas feitas, tudo se saldou por uma renovação das listas, pelo significativo acréscimo do número de mulheres, pela inclusão de jovens em lugares elegíveis e pela abertura incontestada a independentes. E o facto de tanta mudança praticamente não ter provocado críticas significativas fica a dever-se, por um lado, à expectativa de crescimento do PS e, por outro, à hipótese de o partido poder vir a formar governo - duas metas que os socialistas acreditam poder alcançar, daí resultando que os candidatos colocados mais para o fim das listas possam vir a ter a sua cadeira em S. Bento: o grupo parlamentar crescerá em número de deputados e muitos dos que agora ocupam os primeiros lugares poderão "saltar" para um executivo liderado por Guterres. Ou seja, a expectativa de fartura torna menos escassos os lugares no Parlamento e, por isso mesmo, menos disputadas as posições nas listas.
A lista do Porto foi a que maior discussão provocou. A polémica girou em torno de dois nomes: Julieta Sampaio e Fernando de Sousa. A primeira estava, à partida, excluída. O segundo fora colocado na retaguarda do pelotão. Julieta Sampaio não entrou mas, em contrapartida, não houve mulher que com ela não se solidarizasse. Todas à uma, gabaram-lhe as qualidades, enalteceram-lhe o papel desempenhado na Assembleia, consideraram uma "injustiça" a sua exclusão. Helena Torres Marques distinguiu-se na defesa da sua colega pela diversidade dos argumentos: "Nós agarramo-nos tanto aos lugares de deputada, como é que há esta injustiça de nos retirarem?" A assembleia não interpretou mal as palavras, mas houve sorrisos maldosos. Julieta chorou e, comovida, garantiu que pela sua parte não havia problemas.
O caso de Fernando de Sousa foi mais sério. Guterres foi claro na discordância da posição atribuída ao director do "Acção Socialista" e seu apoiante desde a primeira hora. Narciso Miranda esgrimiu apenas um argumento: a lista fora aprovada por unanimidade pela Federação do Porto. Fernando de Sousa afirmava que já não se importava com o lugar; Narciso, em gesto magnânimo que não convenceu ninguém, propunha-se trocar de posição, dando-lhe o segundo posto logo a seguir Gomes. Fernando de Sousa foi mantido onde estava, mas Narciso comprometeu-se a tentar encontrar outra solução. No fim, chegou a unanimidade dos votos, com apenas três abstenções.
Em Lisboa, a confusão teve Pereira Marques por pretexto, outro dos remetidos lá para o fim de todos os nomes. Em sua defesa levantaram-se inúmeras vozes, como, aliás, já acontecera nessa tarde, durante a reunião do secretariado. Para o homem das questões da cultura do PS em S. Bento, chegaram elogios de todo o lado, o que lhe valeu a subida para um lugar elegível. Lopes Cardoso era outros dos excluídos, mas como tinha já afirmado que não aceitaria ser repescado, "por uma questão de dignidade", todos acharam ser a hora para sentidas frases de reconhecimento por 20 anos na trincheira do PS no Parlamento. Lopes Cardoso cortou ao seu jeito a sessão: "Não gosto de lágrimas de crocodilo nem de elogios fúnebres. Não passei à fase de ex-combatente" - e ponto final. Jorge Goes, ex-dirigente da Juventude Centrista, foi o nome avançado pelos ex-CDS colaborantes com o PS. Como não tem o peso político de Vítor Sá Machado, que todos queriam ver como candidato, não lhe deram o terceiro lugar que estava reservado para um independente democrata-cristão, mas tão só 19º. Nos votos, a unanimidade de novo, com apenas duas abstenções.
O caso de Faro foi resolvido "em directo". Luís Filipe Madeira resistia a encabeçar a lista. Guterres chamou-lhe o "rosto do Algarve", José Apolinário, líder da Federação, esgotou os encómios possíveis em língua portuguesa. Luís Filipe aceitou e a sala aplaudiu. Em Portalegre, era ou Miranda Calha ou Francisco Camilo à frente da lista. Antes da votação os dirigentes federativos foram "convidados" a entenderem-se. É óbvio que se entenderam e Calha vai à frente. Por fim, em Setúbal, o caso girava em torno de Ana Maria Bettencourt: o seu nome ascendeu ao nono lugar da lista e passou à frente da outra candidata. Apesar de ter entrada assegurada na Assembleia, a deputada recusou em carta a Guterres, afirmando "não aceitar um lugar a todo o custo".
Mas o que, na madrugada de sábado, os socialistas arriscaram foi a composição do seu próximo grupo parlamentar, em que muitas caras novas irão aparecer, principalmente se o PS ganhar as eleições de Outubro. "Um encontro com o destino", sublinhava um dos dirigentes, recordando que, depois da ênfase dada pelo partido ao discurso da renovação, era inevitável que se apostasse na mudança do pessoal político.
O risco que o PS corre - e que alguns dirigentes não negam - é o de ficar com a sua bancada parlamentar desguarnecida se vierem a constituir governo, a qual terá particulares responsabilidades se se tratar de um executivo minoritário que estará no Parlamento debaixo do fogo cerrado de todos os partidos, particularmente do PSD, que ali terá muitos dos seus ex-ministros. Outros dirigentes minimizam esta preocupação, afirmando terem assegurada a "cobertura de todas as áreas" com os candidatos que agora chegam. Com o tempo se verá.
Ana Sá Lopes e Jerónimo Pimentel
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16/07/95
Um dia após a pacífica aprovação das listas de deputados
PS vence Campo Pequeno
A aposta do Campo Pequeno era de alto risco, havia alguma tensão no ar, mas, ao princípio da noite, os dirigentes socialistas suspiraram de alívio. Com as bancadas cheias, o PS estreou o seu mais recente símbolo de campanha - o coração multiplicado em "t-shirts" - coloriu a praça. Os candidatos já escolhidos na véspera, numa das mais calmas reuniões do partido, foram apresentados à multidão.
O PS ganhou a aposta do Campo Pequeno. Quando Guterres entrou na praça, às 21h20, a agitação das bancadas com as bandeiras em movimento, constituiu-se numa onda emocionante para um partido arredado do poder há dez anos, tantos quantos o PS não arriscava num palco com as dimensões da praça de touros de Lisboa. O Campo Pequeno não encheu "até cima" mas as bancadas estavam repletas de apoiantes. O suficiente para o "aparelho" socialista suspirar de alívio: às oito da noite, hora marcada para a abertura do comício, meia praça vazia não augurava nada de bom.
Mas não foi só o eleitorado do Sul que fez a festa: cerca de 90 autocarros desaguaram em Lisboa, transportando as bases socialistas de vários pontos do país, que, aliás, trouxeram cartazes de apresentação - "Uma nova Tondela, uma nova maioria", "PS Nelas com a nova maioria" e o mais personalizado de todos: "Francisco Assis - Amarante", o nome do presidente da Câmara que é candidato pelo círculo do Porto.
O palco, ao contrário do habitual em espaços deste género, foi montado na arena - uma ideia que o PS foi beber ao pouco irmão Partido Popular, de José Maria Aznar. O esquema do comício fez intercalar a apresentação de candidatos com a actuação de ranchos folclóricos: os primeiros candidatos, dos Açores e da Madeira, tiveram uma recepção praticamente gelada. Depois, houve um "treino" às massas para que não se deixassem petrificar.
E os últimos candidatos - Aveiro e Castelo Branco - já tiveram uma recepção bem mais entusiástica, com destaque para a entrada em campo de Guterres, que coincidiu com o anúncio da sua candidatura como cabeça-de-lista por Castelo Branco. No círculo de Lisboa, ficou testada a popularidade de Edite Estrela e de Helena Roseta. O povo vibrou com o anúncio dos seus nomes e aplaudiu o presidente do partido, Almeida Santos, que encabeça o círculo da capital.
Os candidatos, a quem estava reservada uma bancada, apresentaram-se em estilo desportivo quanto baste. Jaime Gama e Alberto Costa eram um exemplo claro; alguns menos mediáticos ostentavam mesmo as "t-shirts" do coração que o PS lançou ontem. Uma bancada de militantes da JS, que foi estrategicamente colocada atrás do palanque onde Guterres viria a discursar mais tarde, estava por inteiro vestida do coração - um excelente cenário, produzido à medida das transmissões televisivas.
Lena de Água e Adelaide Ferreira suceder-se-iam à actuação dos ranchos folclóricos. A intervenção de Guterres estava prevista para as 23 horas, já para além do fecho desta edição.
"Recorde mundial"
Na véspera, os dirigentes nacionais escolheram os candidatos a deputados numa reunião da Comissão Política, onde aconteceu um pouco de tudo, menos o que é tradicional nas maratonas socialistas para aprovar as listas, em que os ânimos se exaltam, os protestos são veementes e a gritaria faz-se ouvir pelos corredores.
Reunida num hotel de Lisboa, os espíritos chegaram distendidos à entrada, cerca das 21h30. António Guterres desdramatizava a situação afirmando que em causa apenas estavam "coisas pequenas". Seis horas depois, o líder socialista abandonava o hotel com um sorriso de vitória por tudo ter acontecido praticamente conforme o previsto. Visivelmente satisfeito, não resistiu a, numa frase, sintetizar o que se tinha vivido durante aquelas horas: "um recorde mundial absoluto" de calmaria.
Contas feitas, tudo se saldou por uma renovação das listas, pelo significativo acréscimo do número de mulheres, pela inclusão de jovens em lugares elegíveis e pela abertura incontestada a independentes. E o facto de tanta mudança praticamente não ter provocado críticas significativas fica a dever-se, por um lado, à expectativa de crescimento do PS e, por outro, à hipótese de o partido poder vir a formar governo - duas metas que os socialistas acreditam poder alcançar, daí resultando que os candidatos colocados mais para o fim das listas possam vir a ter a sua cadeira em S. Bento: o grupo parlamentar crescerá em número de deputados e muitos dos que agora ocupam os primeiros lugares poderão "saltar" para um executivo liderado por Guterres. Ou seja, a expectativa de fartura torna menos escassos os lugares no Parlamento e, por isso mesmo, menos disputadas as posições nas listas.
A lista do Porto foi a que maior discussão provocou. A polémica girou em torno de dois nomes: Julieta Sampaio e Fernando de Sousa. A primeira estava, à partida, excluída. O segundo fora colocado na retaguarda do pelotão. Julieta Sampaio não entrou mas, em contrapartida, não houve mulher que com ela não se solidarizasse. Todas à uma, gabaram-lhe as qualidades, enalteceram-lhe o papel desempenhado na Assembleia, consideraram uma "injustiça" a sua exclusão. Helena Torres Marques distinguiu-se na defesa da sua colega pela diversidade dos argumentos: "Nós agarramo-nos tanto aos lugares de deputada, como é que há esta injustiça de nos retirarem?" A assembleia não interpretou mal as palavras, mas houve sorrisos maldosos. Julieta chorou e, comovida, garantiu que pela sua parte não havia problemas.
O caso de Fernando de Sousa foi mais sério. Guterres foi claro na discordância da posição atribuída ao director do "Acção Socialista" e seu apoiante desde a primeira hora. Narciso Miranda esgrimiu apenas um argumento: a lista fora aprovada por unanimidade pela Federação do Porto. Fernando de Sousa afirmava que já não se importava com o lugar; Narciso, em gesto magnânimo que não convenceu ninguém, propunha-se trocar de posição, dando-lhe o segundo posto logo a seguir Gomes. Fernando de Sousa foi mantido onde estava, mas Narciso comprometeu-se a tentar encontrar outra solução. No fim, chegou a unanimidade dos votos, com apenas três abstenções.
Em Lisboa, a confusão teve Pereira Marques por pretexto, outro dos remetidos lá para o fim de todos os nomes. Em sua defesa levantaram-se inúmeras vozes, como, aliás, já acontecera nessa tarde, durante a reunião do secretariado. Para o homem das questões da cultura do PS em S. Bento, chegaram elogios de todo o lado, o que lhe valeu a subida para um lugar elegível. Lopes Cardoso era outros dos excluídos, mas como tinha já afirmado que não aceitaria ser repescado, "por uma questão de dignidade", todos acharam ser a hora para sentidas frases de reconhecimento por 20 anos na trincheira do PS no Parlamento. Lopes Cardoso cortou ao seu jeito a sessão: "Não gosto de lágrimas de crocodilo nem de elogios fúnebres. Não passei à fase de ex-combatente" - e ponto final. Jorge Goes, ex-dirigente da Juventude Centrista, foi o nome avançado pelos ex-CDS colaborantes com o PS. Como não tem o peso político de Vítor Sá Machado, que todos queriam ver como candidato, não lhe deram o terceiro lugar que estava reservado para um independente democrata-cristão, mas tão só 19º. Nos votos, a unanimidade de novo, com apenas duas abstenções.
O caso de Faro foi resolvido "em directo". Luís Filipe Madeira resistia a encabeçar a lista. Guterres chamou-lhe o "rosto do Algarve", José Apolinário, líder da Federação, esgotou os encómios possíveis em língua portuguesa. Luís Filipe aceitou e a sala aplaudiu. Em Portalegre, era ou Miranda Calha ou Francisco Camilo à frente da lista. Antes da votação os dirigentes federativos foram "convidados" a entenderem-se. É óbvio que se entenderam e Calha vai à frente. Por fim, em Setúbal, o caso girava em torno de Ana Maria Bettencourt: o seu nome ascendeu ao nono lugar da lista e passou à frente da outra candidata. Apesar de ter entrada assegurada na Assembleia, a deputada recusou em carta a Guterres, afirmando "não aceitar um lugar a todo o custo".
Mas o que, na madrugada de sábado, os socialistas arriscaram foi a composição do seu próximo grupo parlamentar, em que muitas caras novas irão aparecer, principalmente se o PS ganhar as eleições de Outubro. "Um encontro com o destino", sublinhava um dos dirigentes, recordando que, depois da ênfase dada pelo partido ao discurso da renovação, era inevitável que se apostasse na mudança do pessoal político.
O risco que o PS corre - e que alguns dirigentes não negam - é o de ficar com a sua bancada parlamentar desguarnecida se vierem a constituir governo, a qual terá particulares responsabilidades se se tratar de um executivo minoritário que estará no Parlamento debaixo do fogo cerrado de todos os partidos, particularmente do PSD, que ali terá muitos dos seus ex-ministros. Outros dirigentes minimizam esta preocupação, afirmando terem assegurada a "cobertura de todas as áreas" com os candidatos que agora chegam. Com o tempo se verá.
Ana Sá Lopes e Jerónimo Pimentel