5/12/2001
OPINIÃO
O Segundo Mandamento Clara Ferreira Alves
«Como em 1998, quando o Papa João Paulo II fora a Havana e abraçara Fidel, ei-lo agora abraçando o sheik e o bispo ortodoxo. Para um homem que lutou durante toda a sua existência polaca contra o comunismo, juntar a sua voz à do último comunista sobre a terra, para criticar os excessos do neoliberalismo, não é uma condução vã ou uma atitude política. É uma crença no aperfeiçoamento da humanidade. E, quando em toda a terra dita santa se mata todos os dias perante a indiferença do mundo, apertar a mão de alguém que está do outro lado do muro e do arame farpado, pisar o mosaico do templo alheio, não é um acto ditado pela prudência ou pelo conforto e sim pela consciência.» O consolo mais barato da humanidade é a religião. Deus não exige cheques com data, consultas pagas, cartão de crédito ou os impostos em dia. O ser humano ascende à ideia de Deus como quiser, onde quiser, pela meditação, pela fé, pela oração, pela revelação, por um qualquer acto espiritual. No silêncio de um mosteiro tibetano ou no recolhimento de uma capela de aldeia, podemos acreditar que somos mais do que poeira e terra e que alguma coisa em nós resiste depois de à poeira e terra termos regressado. Quando se ouvem ao longe os passos da morte que caminha ao nosso encontro, e é sempre ao nosso encontro que ela caminha, o consolo da religião faz infinitamente mais sentido do que a crença na extinção pura e simples, e ajuda a amaciar o sofrimento. Os que dizem que prescindem da ideia de Deus têm a fortaleza de ânimo necessária para acreditar na solidão existencial e a ela sobreviver mas, a maioria das pessoas não é feita desta maneira. Na hora da nossa morte, como se diz no pai-nosso, é para Deus que se voltam e é Ele que lhes permite não morrer tão sós, ou ver morrer tão sós. Matar Deus é um luxo que poucos podem ter. Um mundo sem Deus é um mundo com menos molduras morais, com menos referentes espirituais. Se as religiões, os seus fundamentalismos e desvarios, os seus dogmas e gaiolas, os seus preceitos e proibições, têm contribuído para a miséria humana, a ideia de que um homem terá vindo à terra para redimir uma humanidade é, na sua génese, uma ideia mais generosa do que egoísta. E, se quiséssemos ser prosaicos, uma bela criação do espírito. A matriz da cultura ocidental é cristã, ou judaico-cristã, e os pilares em que assenta o cristianismo, reduzidos à sua essência ética, possuem a solidez dos princípios que raros ousariam negar: o amor ao próximo, o respeito de si mesmo, e cobrindo tudo isto como um véu protector, o amor a Deus. Nada de mal nos poderia acontecer se tivéssemos ficado por aqui, mas a construção da Igreja de Deus por homens imperfeitos conduziu muitas vezes a Igreja ao ódio e à perseguição e lançou anátemas sobre os inocentes e os dissidentes. As três grandes religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, disputando-se nos seus deuses e demónios, nos seus templos e sacerdotes, nas arrogâncias e nos cultos, transformaram Jerusalém num lugar de guerra e de morte, numa questão territorial jamais resolvida. Enganam-se os que pensam que bastaria o triunfo do materialismo e do bom-senso, uma equitativa distribuição da riqueza ou o triunfo da sociedade democrática e de bem-estar para promover a justiça e dotar a humanidade de um património moral. Pelo contrário, o triunfo do neoliberalismo, ou do capitalismo, tem arrastado consigo o exagero consumista, o egocentrismo desnorteado e a decadência sentimental. Neste aspecto, Nova Iorque, a Roma do império americano, apresenta alguns traços decadentistas da Roma do império romano, o luxo supremo do desperdício e o vazio sentimental que o acompanha (curiosamente, o filme «American Psycho», de Mary Harron, em exibição em Lisboa, retirado do romance de Bret Easton Ellis, é a caricatura desta situação). Quando nada existe para conquistar lá fora, começa por dentro a autodestruição. O triunfo da economia e da democracia não nos protege de nós mesmos e dos nossos terrores, e este Papa, que se encontra no fim da vida, assim tem entendido, nos últimos tempos, o magistério da Igreja que governa. Esta viagem por dentro das religiões rivais, esta viagem por dentro de uma mesquita muçulmana, de uma igreja ortodoxa, é de um ecumenismo que se transcende. Um não-católico sentir-se-á em dificuldades para negar o significado do gesto, a sua magnitude. É a viagem de um homem cansado, arrastando os pés e as mãos e as palavras para abraçar o seu inimigo. Como em 1998, quando o Papa João Paulo II fora a Havana e abraçara Fidel, ei-lo agora abraçando o sheik e o bispo ortodoxo. Para um homem que lutou durante toda a sua existência polaca contra o comunismo, juntar a sua voz à do último comunista sobre a terra, para criticar os excessos do neoliberalismo, não é uma condução vã ou uma atitude política. É uma crença no aperfeiçoamento da humanidade. E, quando em toda a terra dita santa se mata todos os dias perante a indiferença do mundo, apertar a mão de alguém que está do outro lado do muro e do arame farpado, pisar o mosaico do templo alheio, não é um acto ditado pela prudência ou pelo conforto e sim pela consciência. Poder-se-á responder de volta que são gestos simbólicos, e que o simbolismo não tem custos ou consequências, mas como negar o sacrifício físico com que o Papa empreendeu estas viagens? Como negar a extrema punição de um corpo velho e doente tentando rezar numa igreja destruída pela guerra? Como negar o respeito que inspira a sua figura curvada e o seu cabelo branco, a sua voz trémula do esforço de enunciar e respirar ao mesmo tempo? Sendo um vigilante do dogma e tendo sido muitas vezes um defensor da proibição, este Papa tem dado, nas peregrinações pelo planeta, um sinal de bondade e grandeza que vai além da preocupação ecuménica ou da recuperação de fiéis. O Papa anda inquieto com o que vê sobre a terra, habitada por tantos Pôncios Pilatos, e mais inquieto anda quando se prepara para a abandonar. O seu legado é, justamente, um gesto simbólico, mas que amarra o sucessor de João Paulo II a uma ética a uma estética: a da valorização do Outro. Ama o próximo como a ti mesmo, como no Segundo Mandamento. Até um não-religioso sabe o valor que isto tem.
COMENTÁRIOS AO ARTIGO
22 comentários 1 a 10
22 Maio 2001 às 1:05
Dúvida não sei quantos ( o artigo está regular,mas... )
Matar a Deus é um luxo que poucos podem ter?Um luxo?Não será a Clara uma arrependida do materialismo dialéctico?
17 Maio 2001 às 22:55
Se Deus está em toda a parte não sei!
O que sei é que é cada vez mais usado em benificio do poder dos ricos sobre os pobres...
17 Maio 2001 às 14:26
Ao "o meu comentario foi-se"
Nisso que tu dizes, Deus parece-se com o bacalhau. Tambem era comida de pobre. Os escravos das Caraibas eram alimentados quase exclusivamente a bacalhau. Hoje e comida de ricos. A diferenca e que o bacalhau esta em vias de extincao, enquanto que Deus cada vez esta mais em toda a parte.
16 Maio 2001 às 0:01
O meu comentário foi-se
São coisas que estão a acontecer com demasiada frequência no Expresso.
.
Dantes, falar de Deus era coisa de pobre, de pescador e não trazia nada de bom para quem o fizesse.
.
Hoje falar de Deus é coisa de rico, é chique, dá direito a muitas prebendas, o êxito social está garantido...
15 Maio 2001 às 12:29
A OPUS FEZ UM TAKE-OVER AO EXPRESSO????
15 Maio 2001 às 3:23
Filipe V. Castro ( lmv1814@labs.tamu.edu )
Ó Clara,
Você que é uma rapariga tão inteligente não devia escrever estas asneiras. Acha mesmo que há necessidade de haver religião para haver ética?!
No seu retrato do triunfo do materialismo e do bom-senso, fala de uma distribuição da riqueza equitativa, do triunfo da sociedade democrática e de bem-estar, e da justiça. Mas esqueceu-se da componente mais importante: a educação!
Acha mesmo que é melhor uma pessoa não roubar porque teme a um deus qualquer, ou porque tem ideiais, e consciência, e amor próprio?
O seu artigo faz a apologia da ignorância e da superstição. Acha mesmo que só super-homens é que podem viver sem religião? Só seres iluminados é que se podem permitir duvidar que o inferno estava cheio de budistas, ateus, judeus e muçulmanos até quinta-feira passada, e agora está tudo bem? Que o sol se fartou de abanar em Fátima, mas não mexeu um milímetro em Paris? Que há uma contradição fundamental entre a intenção expressa da Nossa Senhora desviar as balas do Papa, mas que mesmo assim ele se desloca dentro de um cubo de vidro à prova de balas?
Filipe Vieira de Castro
Texas, USA
14 Maio 2001 às 23:24
Fiel e Verdadeiro
Jesus é o Messias - Ungido, Cristo
Ex 30, 22
2 Sm 7, 1
Sl 20, 7
Lc 2, 26
O segredo messiânico, pode ler-se em Mt 26, 64; Mc 1, 34.
Após a partida de Cristo, é o Espírito que o substitui junto dos fiéis. Ele é o Paráclito, advogado que intercede junto do Pai (1 Jo 2, 1), que pleiteia diante dos tribunais humanos (Lc 12, 11-12; Mt 10, 19-20); ele é o Espírito de verdade...
"Essas coisas vos tenho dito
estando entre vós.
Mas o Paráclito, o Espirito Santo
que o Pai enviará em meu nome,
vos ensinará tudo
e vos recordará tudo o que eu vos disse."
Jo 14, 25-26
14 Maio 2001 às 18:22
Isabel Coutinho (B.I.0177102)
Bravo, Clara Ferreira Alves.
Obrigada pelo seu artigo.
Que muitos o possam ler e meditar.
14 Maio 2001 às 16:48
Mariza Cabral ( cabral@gkss.de )
Caro Jorge Listopad,
Nao publicou o seu endereco de e-mail... pelo que lhe escrevo aqui. Quero dar-lhe tambem uma recomendacao de leitura: "This Hebrew Lord" escrito pelo bispo John Shelby Spong. Nao sei se esta traduzido em Portugues. Se quizer ate lhe empresto (via correio) a minha copia em Ingles. Neste livro, Spong examina a questao de como Jesus Cristo se tera visto a si proprio. Outro livro de Spong que vale mesmo a pena ler eh "Rescuing the Bible from Fundamentalism".
14 Maio 2001 às 14:46
João ( jrrbc@hotmail.com )
Rui Pereira * Periodista portugués
Los traficantes del silencio
Qué sería, hoy día, de la memoria de Dreyfus sin "J''accuse" de Zola? Inquietante, esta cuestión se encuentra cuidadosamente apartada del catecismo intelectual contemporáneo. Y, por supuesto, puede ser decisiva para miles de hombres y mujeres que llenan la galería de los grandes injusticiados de nuestro tiempo. Entre los cuales están, sin ninguna duda, los independentistas vascos.
El conflicto hispano-vasco es, quizás, uno de los más tristemente representativos y vergonzosos momentos del trayecto intelectual contemporáneo. Una resignación basada, a mi modo de ver, en el principio de Michel Bounan según el cual toda actividad social (y de la misma manera la actitud intelectual) se encuentra, hoy día, sometida a un sistema de relaciones que reproduce el mecanismo de las leyes económicas. En el intelectual de izquierda, o que al menos y aunque poco justificadamente preserva de sí mismo una auto imagen de izquierda, resulta difícil encontrar fuera de tal sistema de relaciones la explicación para su conducta alineada con el poder. ¿Cómo entender que una auténtica columna intelectual oriunda de todo el mundo dicho occidental se marche en neurótica apoteosis propagandística para Chiapas, cuando buena parte de sus integrantes se encuentra, como se constata por su práctica, perfectamente disponible para ocultar las atrocidades cometidas bien cerca de su entorno? ¿Matan más las balas de ETA que las de Marcos?
La gran diferencia que existe para el intelectual europeo entre condenar el gobierno indonesio o mexicano y condenar la «hiperdemocracia» occidental es que él no se encuentra sometido al sistema de punición y recompensa del primero, pero su socializa- ción y promoción profesionales sí dependen (y en muy larga medida) de cuanto, en similitud con la lógica de los mecanismos mercantiles, sea capaz de afiliarse en el dispositivo remunerativo de poder que rige la producción intelectual en Occidente.
No cabe imaginar que desconozcan, esos mismos intelectuales, las conclusiones del CPT, 1997: por su credibilidad, «la tentación de considerarse tales alegaciones [de tortura presentadas por los presos vascos] como parte de una estrategia [para minar la reputación de las fuerzas policiales] ha de ser combatida». Ninguna propaganda puede obliterar esto. Ni aun siendo verdad que la proporción de la intoxicación propagandística sobre la cuestión vasca sólo podrá compararse, en el último siglo, por su dimensión, medios y duración, a la orquestación desarrollada por Hollywood contra los indios norteamericanos. Con la sustantiva diferencia de que, en lo que se refiere a los vascos, no se trata de ficción cinematográfica, sino de todo un extraordinario esfuerzo de alteración de las categorías de percepción, esfuerzo basado en los medios de comunicación y... en la legitimación intelectual. Algo como si la fuerza de la verdad residiera en su capacidad de penetrar en el mercado de las ideas.
Pero al intelectual le es exigible, por una elemental cuestión de método, una mirada penetrante sobre el mundo que le rodea. Nadie podría imaginarse hacer el análisis del imperio romano simplemente desde el discurso oficial de Marco Aurelio, o, para no recular tanto, del imperio soviético apenas a partir del discurso oficial de Breznev. ¿Por qué razón no extender, pues, una mirada crítica, indagadora, en relación al que es el sofisma español sobre el conflicto vasco?
Básicamente, el debate en las sociedades de democracia formal se caracteriza por la infinita polémica alderredor de los temas blandos, de la cuidadosa ocultación de los temas duros. En el contexto vasco, la repetición hasta la más histérica exhaustividad del drama violento provocado por los atentados de ETA es lo que permite escapar a la dureza del debate sobre el núcleo del problema: la violación por el Estado español de un principio universal del que es parte firmante, cual es el derecho de los pueblos a la autodeterminación. Es más: de esta manera se disloca el debate, por cuanto lleva, sobre todo en el exterior, a una aceptación unánime de que condenar las acciones del Estado español en el País Vasco significa tornarse un enemigo de la democracia española. O, descomponiendo, un enemigo de España y un enemigo de la democracia.
Por mi parte, como periodista extranjero que se limitó a ser testigo de lo que vio, guardo las palabras de un compañero de oficio del entonces "Egin": «Aquí, ser objetivo ya es favorecernos». Al intentar ser riguroso, siento, naturalmente, no haber traicionado mi profesión, pero más aún: no me siento como un enemigo de España o de la democracia. Porque, sencillamente, nadie en España o afuera, logró explicarme con claridad en qué, exactamente, una democracia en guerra contra un pueblo es diferente de una dictadura en guerra contra un pueblo. Es más, el caso español me parece demasiado paradigmático de tal indistinción.
Por cierto, poco podré decir sobre la tortura al lector de estas líneas. A no ser que la tortura representa un tema tan duro que evitarlo se torna imprescindible a quienes vendieron su consciencia por un simple plato de lentejas, o por todo un Premio Nobel. Liquida, además, toda la frágil retórica de la propaganda en cuyos intersticios se mueven los intelectuales orgánicos de una democracia que tanto carece de «malos» para parecer «buena». Pero los intelectuales que persisten en negar lo obvio, esa tan dura especie de «tortura colectiva», en palabras de Eva Forest, incurren en la inmensa penalidad histórica de saber que tras cada una de sus prebendas se perfilan los gritos mudos de miles de personas expiando en las salas de interrogatorio la única y elemental culpa de la que un intelectual puede estar orgulloso: la culpa de querer ser enteramente libre. *
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5/12/2001
OPINIÃO
O Segundo Mandamento Clara Ferreira Alves
«Como em 1998, quando o Papa João Paulo II fora a Havana e abraçara Fidel, ei-lo agora abraçando o sheik e o bispo ortodoxo. Para um homem que lutou durante toda a sua existência polaca contra o comunismo, juntar a sua voz à do último comunista sobre a terra, para criticar os excessos do neoliberalismo, não é uma condução vã ou uma atitude política. É uma crença no aperfeiçoamento da humanidade. E, quando em toda a terra dita santa se mata todos os dias perante a indiferença do mundo, apertar a mão de alguém que está do outro lado do muro e do arame farpado, pisar o mosaico do templo alheio, não é um acto ditado pela prudência ou pelo conforto e sim pela consciência.» O consolo mais barato da humanidade é a religião. Deus não exige cheques com data, consultas pagas, cartão de crédito ou os impostos em dia. O ser humano ascende à ideia de Deus como quiser, onde quiser, pela meditação, pela fé, pela oração, pela revelação, por um qualquer acto espiritual. No silêncio de um mosteiro tibetano ou no recolhimento de uma capela de aldeia, podemos acreditar que somos mais do que poeira e terra e que alguma coisa em nós resiste depois de à poeira e terra termos regressado. Quando se ouvem ao longe os passos da morte que caminha ao nosso encontro, e é sempre ao nosso encontro que ela caminha, o consolo da religião faz infinitamente mais sentido do que a crença na extinção pura e simples, e ajuda a amaciar o sofrimento. Os que dizem que prescindem da ideia de Deus têm a fortaleza de ânimo necessária para acreditar na solidão existencial e a ela sobreviver mas, a maioria das pessoas não é feita desta maneira. Na hora da nossa morte, como se diz no pai-nosso, é para Deus que se voltam e é Ele que lhes permite não morrer tão sós, ou ver morrer tão sós. Matar Deus é um luxo que poucos podem ter. Um mundo sem Deus é um mundo com menos molduras morais, com menos referentes espirituais. Se as religiões, os seus fundamentalismos e desvarios, os seus dogmas e gaiolas, os seus preceitos e proibições, têm contribuído para a miséria humana, a ideia de que um homem terá vindo à terra para redimir uma humanidade é, na sua génese, uma ideia mais generosa do que egoísta. E, se quiséssemos ser prosaicos, uma bela criação do espírito. A matriz da cultura ocidental é cristã, ou judaico-cristã, e os pilares em que assenta o cristianismo, reduzidos à sua essência ética, possuem a solidez dos princípios que raros ousariam negar: o amor ao próximo, o respeito de si mesmo, e cobrindo tudo isto como um véu protector, o amor a Deus. Nada de mal nos poderia acontecer se tivéssemos ficado por aqui, mas a construção da Igreja de Deus por homens imperfeitos conduziu muitas vezes a Igreja ao ódio e à perseguição e lançou anátemas sobre os inocentes e os dissidentes. As três grandes religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, disputando-se nos seus deuses e demónios, nos seus templos e sacerdotes, nas arrogâncias e nos cultos, transformaram Jerusalém num lugar de guerra e de morte, numa questão territorial jamais resolvida. Enganam-se os que pensam que bastaria o triunfo do materialismo e do bom-senso, uma equitativa distribuição da riqueza ou o triunfo da sociedade democrática e de bem-estar para promover a justiça e dotar a humanidade de um património moral. Pelo contrário, o triunfo do neoliberalismo, ou do capitalismo, tem arrastado consigo o exagero consumista, o egocentrismo desnorteado e a decadência sentimental. Neste aspecto, Nova Iorque, a Roma do império americano, apresenta alguns traços decadentistas da Roma do império romano, o luxo supremo do desperdício e o vazio sentimental que o acompanha (curiosamente, o filme «American Psycho», de Mary Harron, em exibição em Lisboa, retirado do romance de Bret Easton Ellis, é a caricatura desta situação). Quando nada existe para conquistar lá fora, começa por dentro a autodestruição. O triunfo da economia e da democracia não nos protege de nós mesmos e dos nossos terrores, e este Papa, que se encontra no fim da vida, assim tem entendido, nos últimos tempos, o magistério da Igreja que governa. Esta viagem por dentro das religiões rivais, esta viagem por dentro de uma mesquita muçulmana, de uma igreja ortodoxa, é de um ecumenismo que se transcende. Um não-católico sentir-se-á em dificuldades para negar o significado do gesto, a sua magnitude. É a viagem de um homem cansado, arrastando os pés e as mãos e as palavras para abraçar o seu inimigo. Como em 1998, quando o Papa João Paulo II fora a Havana e abraçara Fidel, ei-lo agora abraçando o sheik e o bispo ortodoxo. Para um homem que lutou durante toda a sua existência polaca contra o comunismo, juntar a sua voz à do último comunista sobre a terra, para criticar os excessos do neoliberalismo, não é uma condução vã ou uma atitude política. É uma crença no aperfeiçoamento da humanidade. E, quando em toda a terra dita santa se mata todos os dias perante a indiferença do mundo, apertar a mão de alguém que está do outro lado do muro e do arame farpado, pisar o mosaico do templo alheio, não é um acto ditado pela prudência ou pelo conforto e sim pela consciência. Poder-se-á responder de volta que são gestos simbólicos, e que o simbolismo não tem custos ou consequências, mas como negar o sacrifício físico com que o Papa empreendeu estas viagens? Como negar a extrema punição de um corpo velho e doente tentando rezar numa igreja destruída pela guerra? Como negar o respeito que inspira a sua figura curvada e o seu cabelo branco, a sua voz trémula do esforço de enunciar e respirar ao mesmo tempo? Sendo um vigilante do dogma e tendo sido muitas vezes um defensor da proibição, este Papa tem dado, nas peregrinações pelo planeta, um sinal de bondade e grandeza que vai além da preocupação ecuménica ou da recuperação de fiéis. O Papa anda inquieto com o que vê sobre a terra, habitada por tantos Pôncios Pilatos, e mais inquieto anda quando se prepara para a abandonar. O seu legado é, justamente, um gesto simbólico, mas que amarra o sucessor de João Paulo II a uma ética a uma estética: a da valorização do Outro. Ama o próximo como a ti mesmo, como no Segundo Mandamento. Até um não-religioso sabe o valor que isto tem.
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22 comentários 1 a 10
22 Maio 2001 às 1:05
Dúvida não sei quantos ( o artigo está regular,mas... )
Matar a Deus é um luxo que poucos podem ter?Um luxo?Não será a Clara uma arrependida do materialismo dialéctico?
17 Maio 2001 às 22:55
Se Deus está em toda a parte não sei!
O que sei é que é cada vez mais usado em benificio do poder dos ricos sobre os pobres...
17 Maio 2001 às 14:26
Ao "o meu comentario foi-se"
Nisso que tu dizes, Deus parece-se com o bacalhau. Tambem era comida de pobre. Os escravos das Caraibas eram alimentados quase exclusivamente a bacalhau. Hoje e comida de ricos. A diferenca e que o bacalhau esta em vias de extincao, enquanto que Deus cada vez esta mais em toda a parte.
16 Maio 2001 às 0:01
O meu comentário foi-se
São coisas que estão a acontecer com demasiada frequência no Expresso.
.
Dantes, falar de Deus era coisa de pobre, de pescador e não trazia nada de bom para quem o fizesse.
.
Hoje falar de Deus é coisa de rico, é chique, dá direito a muitas prebendas, o êxito social está garantido...
15 Maio 2001 às 12:29
A OPUS FEZ UM TAKE-OVER AO EXPRESSO????
15 Maio 2001 às 3:23
Filipe V. Castro ( lmv1814@labs.tamu.edu )
Ó Clara,
Você que é uma rapariga tão inteligente não devia escrever estas asneiras. Acha mesmo que há necessidade de haver religião para haver ética?!
No seu retrato do triunfo do materialismo e do bom-senso, fala de uma distribuição da riqueza equitativa, do triunfo da sociedade democrática e de bem-estar, e da justiça. Mas esqueceu-se da componente mais importante: a educação!
Acha mesmo que é melhor uma pessoa não roubar porque teme a um deus qualquer, ou porque tem ideiais, e consciência, e amor próprio?
O seu artigo faz a apologia da ignorância e da superstição. Acha mesmo que só super-homens é que podem viver sem religião? Só seres iluminados é que se podem permitir duvidar que o inferno estava cheio de budistas, ateus, judeus e muçulmanos até quinta-feira passada, e agora está tudo bem? Que o sol se fartou de abanar em Fátima, mas não mexeu um milímetro em Paris? Que há uma contradição fundamental entre a intenção expressa da Nossa Senhora desviar as balas do Papa, mas que mesmo assim ele se desloca dentro de um cubo de vidro à prova de balas?
Filipe Vieira de Castro
Texas, USA
14 Maio 2001 às 23:24
Fiel e Verdadeiro
Jesus é o Messias - Ungido, Cristo
Ex 30, 22
2 Sm 7, 1
Sl 20, 7
Lc 2, 26
O segredo messiânico, pode ler-se em Mt 26, 64; Mc 1, 34.
Após a partida de Cristo, é o Espírito que o substitui junto dos fiéis. Ele é o Paráclito, advogado que intercede junto do Pai (1 Jo 2, 1), que pleiteia diante dos tribunais humanos (Lc 12, 11-12; Mt 10, 19-20); ele é o Espírito de verdade...
"Essas coisas vos tenho dito
estando entre vós.
Mas o Paráclito, o Espirito Santo
que o Pai enviará em meu nome,
vos ensinará tudo
e vos recordará tudo o que eu vos disse."
Jo 14, 25-26
14 Maio 2001 às 18:22
Isabel Coutinho (B.I.0177102)
Bravo, Clara Ferreira Alves.
Obrigada pelo seu artigo.
Que muitos o possam ler e meditar.
14 Maio 2001 às 16:48
Mariza Cabral ( cabral@gkss.de )
Caro Jorge Listopad,
Nao publicou o seu endereco de e-mail... pelo que lhe escrevo aqui. Quero dar-lhe tambem uma recomendacao de leitura: "This Hebrew Lord" escrito pelo bispo John Shelby Spong. Nao sei se esta traduzido em Portugues. Se quizer ate lhe empresto (via correio) a minha copia em Ingles. Neste livro, Spong examina a questao de como Jesus Cristo se tera visto a si proprio. Outro livro de Spong que vale mesmo a pena ler eh "Rescuing the Bible from Fundamentalism".
14 Maio 2001 às 14:46
João ( jrrbc@hotmail.com )
Rui Pereira * Periodista portugués
Los traficantes del silencio
Qué sería, hoy día, de la memoria de Dreyfus sin "J''accuse" de Zola? Inquietante, esta cuestión se encuentra cuidadosamente apartada del catecismo intelectual contemporáneo. Y, por supuesto, puede ser decisiva para miles de hombres y mujeres que llenan la galería de los grandes injusticiados de nuestro tiempo. Entre los cuales están, sin ninguna duda, los independentistas vascos.
El conflicto hispano-vasco es, quizás, uno de los más tristemente representativos y vergonzosos momentos del trayecto intelectual contemporáneo. Una resignación basada, a mi modo de ver, en el principio de Michel Bounan según el cual toda actividad social (y de la misma manera la actitud intelectual) se encuentra, hoy día, sometida a un sistema de relaciones que reproduce el mecanismo de las leyes económicas. En el intelectual de izquierda, o que al menos y aunque poco justificadamente preserva de sí mismo una auto imagen de izquierda, resulta difícil encontrar fuera de tal sistema de relaciones la explicación para su conducta alineada con el poder. ¿Cómo entender que una auténtica columna intelectual oriunda de todo el mundo dicho occidental se marche en neurótica apoteosis propagandística para Chiapas, cuando buena parte de sus integrantes se encuentra, como se constata por su práctica, perfectamente disponible para ocultar las atrocidades cometidas bien cerca de su entorno? ¿Matan más las balas de ETA que las de Marcos?
La gran diferencia que existe para el intelectual europeo entre condenar el gobierno indonesio o mexicano y condenar la «hiperdemocracia» occidental es que él no se encuentra sometido al sistema de punición y recompensa del primero, pero su socializa- ción y promoción profesionales sí dependen (y en muy larga medida) de cuanto, en similitud con la lógica de los mecanismos mercantiles, sea capaz de afiliarse en el dispositivo remunerativo de poder que rige la producción intelectual en Occidente.
No cabe imaginar que desconozcan, esos mismos intelectuales, las conclusiones del CPT, 1997: por su credibilidad, «la tentación de considerarse tales alegaciones [de tortura presentadas por los presos vascos] como parte de una estrategia [para minar la reputación de las fuerzas policiales] ha de ser combatida». Ninguna propaganda puede obliterar esto. Ni aun siendo verdad que la proporción de la intoxicación propagandística sobre la cuestión vasca sólo podrá compararse, en el último siglo, por su dimensión, medios y duración, a la orquestación desarrollada por Hollywood contra los indios norteamericanos. Con la sustantiva diferencia de que, en lo que se refiere a los vascos, no se trata de ficción cinematográfica, sino de todo un extraordinario esfuerzo de alteración de las categorías de percepción, esfuerzo basado en los medios de comunicación y... en la legitimación intelectual. Algo como si la fuerza de la verdad residiera en su capacidad de penetrar en el mercado de las ideas.
Pero al intelectual le es exigible, por una elemental cuestión de método, una mirada penetrante sobre el mundo que le rodea. Nadie podría imaginarse hacer el análisis del imperio romano simplemente desde el discurso oficial de Marco Aurelio, o, para no recular tanto, del imperio soviético apenas a partir del discurso oficial de Breznev. ¿Por qué razón no extender, pues, una mirada crítica, indagadora, en relación al que es el sofisma español sobre el conflicto vasco?
Básicamente, el debate en las sociedades de democracia formal se caracteriza por la infinita polémica alderredor de los temas blandos, de la cuidadosa ocultación de los temas duros. En el contexto vasco, la repetición hasta la más histérica exhaustividad del drama violento provocado por los atentados de ETA es lo que permite escapar a la dureza del debate sobre el núcleo del problema: la violación por el Estado español de un principio universal del que es parte firmante, cual es el derecho de los pueblos a la autodeterminación. Es más: de esta manera se disloca el debate, por cuanto lleva, sobre todo en el exterior, a una aceptación unánime de que condenar las acciones del Estado español en el País Vasco significa tornarse un enemigo de la democracia española. O, descomponiendo, un enemigo de España y un enemigo de la democracia.
Por mi parte, como periodista extranjero que se limitó a ser testigo de lo que vio, guardo las palabras de un compañero de oficio del entonces "Egin": «Aquí, ser objetivo ya es favorecernos». Al intentar ser riguroso, siento, naturalmente, no haber traicionado mi profesión, pero más aún: no me siento como un enemigo de España o de la democracia. Porque, sencillamente, nadie en España o afuera, logró explicarme con claridad en qué, exactamente, una democracia en guerra contra un pueblo es diferente de una dictadura en guerra contra un pueblo. Es más, el caso español me parece demasiado paradigmático de tal indistinción.
Por cierto, poco podré decir sobre la tortura al lector de estas líneas. A no ser que la tortura representa un tema tan duro que evitarlo se torna imprescindible a quienes vendieron su consciencia por un simple plato de lentejas, o por todo un Premio Nobel. Liquida, además, toda la frágil retórica de la propaganda en cuyos intersticios se mueven los intelectuales orgánicos de una democracia que tanto carece de «malos» para parecer «buena». Pero los intelectuales que persisten en negar lo obvio, esa tan dura especie de «tortura colectiva», en palabras de Eva Forest, incurren en la inmensa penalidad histórica de saber que tras cada una de sus prebendas se perfilan los gritos mudos de miles de personas expiando en las salas de interrogatorio la única y elemental culpa de la que un intelectual puede estar orgulloso: la culpa de querer ser enteramente libre. *
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