Suplemento Mil Folhas

20-08-2001
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Dicionário de Compositores Portugueses

CRISTO, D. Pedro de

Sábado, 28 de Julho de 2001

(m. Coimbra, 1618)

D. Pedro de Cristo foi um dos mais importantes compositores portugueses do período renascentista e um dos mais ilustres representantes da brilhante escola de polifonia sacra que se desenvolveu no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra nos séculos XVI e XVII. À semelhança do que acontece com a maioria dos compositores desta época, os seus dados biográficos são escassos. De acordo com um documento que se guarda na Torre do Tombo, sabe-se que tomou o hábito dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho em 1571, adoptando o nome de Pedro - antes chamava-se Frei Domingos - e que foi mestre de capela nos dos principais conventos da Ordem: Santa Cruz de Coimbra e São Vicente de Fora, em Lisboa. O escrivão que lavrou o assento de óbito refere-se a ele como "grande compositor, tangedor de tecla e de baixão, harpa e frauta" e diz-nos que "deixou muita música composta", mencionando ainda o seu dom especial para a composição de "chansonetas e música alegre". Morreu em consequência de uma queda, "que deu na claustra do silêncio de fronte da portaria". O cronista do Mosteiro, D. Marcos da Cruz fornece-nos uma informação semelhante nas duas linhas que lhe dedicou na sua extensa "Crónica" e que seriam provavelmente baseadas na fonte de informação anterior.

A produção polifónica de D. Pedro de Cristo, que sobrevive em pelo menos seis dos Códices Musicais da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, atinge mais de duas centenas e meia de obras, mas poucas delas estão disponíveis em edição moderna ou gravadas. Encontra-se, todavia, prevista para breve a sua publicação integral na colecção Portgaliae Musica da Fundação Gubenkian, com transcrição de Ernesto Pinho. Para além dos tradicionais géneros musicais da polifonia sacra em latim (missas, motetes, hinos, responsórios, salmos, antífonas, lamentações), D. Pedro de Cristo legou-nos ainda vários vilancicos em língua vernácula.

Excelente mestre na arte do contraponto, manteve-se geralmente fiel à textura tradicional a quatro vozes, utilizando contudo uma extensa paleta de efeitos e processos de escrita. Na sua "História da Música Portuguesa" (Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991), Rui Vieira Nery enumera os principais: homorritmia em estilo declamatório, imitação cerrada entre as várias vozes, utilização rítmica de figuras agitadas que ligam pontos de apoio estruturais de natureza estável e consonante, emprego de valores longos em que a resolução de uma dissonância numa voz se sobrepõe ao aparecimento de uma nova dissonância, elaboração contrapontística em torno de um "cantus firmus" no tenor e imitação entre pares de vozes à maneira de Josquin Desprez.

Cristina Fernandes

Dicionário de Compositores Portugueses

CRISTO, D. Pedro de

Sábado, 28 de Julho de 2001

(m. Coimbra, 1618)

D. Pedro de Cristo foi um dos mais importantes compositores portugueses do período renascentista e um dos mais ilustres representantes da brilhante escola de polifonia sacra que se desenvolveu no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra nos séculos XVI e XVII. À semelhança do que acontece com a maioria dos compositores desta época, os seus dados biográficos são escassos. De acordo com um documento que se guarda na Torre do Tombo, sabe-se que tomou o hábito dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho em 1571, adoptando o nome de Pedro - antes chamava-se Frei Domingos - e que foi mestre de capela nos dos principais conventos da Ordem: Santa Cruz de Coimbra e São Vicente de Fora, em Lisboa. O escrivão que lavrou o assento de óbito refere-se a ele como "grande compositor, tangedor de tecla e de baixão, harpa e frauta" e diz-nos que "deixou muita música composta", mencionando ainda o seu dom especial para a composição de "chansonetas e música alegre". Morreu em consequência de uma queda, "que deu na claustra do silêncio de fronte da portaria". O cronista do Mosteiro, D. Marcos da Cruz fornece-nos uma informação semelhante nas duas linhas que lhe dedicou na sua extensa "Crónica" e que seriam provavelmente baseadas na fonte de informação anterior.

A produção polifónica de D. Pedro de Cristo, que sobrevive em pelo menos seis dos Códices Musicais da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, atinge mais de duas centenas e meia de obras, mas poucas delas estão disponíveis em edição moderna ou gravadas. Encontra-se, todavia, prevista para breve a sua publicação integral na colecção Portgaliae Musica da Fundação Gubenkian, com transcrição de Ernesto Pinho. Para além dos tradicionais géneros musicais da polifonia sacra em latim (missas, motetes, hinos, responsórios, salmos, antífonas, lamentações), D. Pedro de Cristo legou-nos ainda vários vilancicos em língua vernácula.

Excelente mestre na arte do contraponto, manteve-se geralmente fiel à textura tradicional a quatro vozes, utilizando contudo uma extensa paleta de efeitos e processos de escrita. Na sua "História da Música Portuguesa" (Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991), Rui Vieira Nery enumera os principais: homorritmia em estilo declamatório, imitação cerrada entre as várias vozes, utilização rítmica de figuras agitadas que ligam pontos de apoio estruturais de natureza estável e consonante, emprego de valores longos em que a resolução de uma dissonância numa voz se sobrepõe ao aparecimento de uma nova dissonância, elaboração contrapontística em torno de um "cantus firmus" no tenor e imitação entre pares de vozes à maneira de Josquin Desprez.

Cristina Fernandes

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