A TALHE DE FOICE
A Pedrada
P edro Santana Lopes zangou-se com o Big Show SIC da semana passada, convocando por isso uma conferência de Imprensa para anunciar que, pelo facto de uma rábula do programa do Baião a seu respeito ter «ultrapassado todos os limites», tinha decidido «abandonar a vida política nacional».
Há aqui uma evidência - Pedro Santana Lopes enveredou decididamente pela filosofia do «olho por olho, dente por dente».
Na hipótese do «olho», respondeu à ultrapassagem de «todos os limites» da SIC com a ultrapassagem de todos os seus próprios limites, pelo menos os até aqui conhecidos.
Na versão do «dente», ressarciu-se duma rábula mandando-lhe com outra.
É de homem. É de Pedro - e lá está: como avisa a Bíblia, «sobre esta pedra» anda a construir-se qualquer coisa.
Para já, ergueu-se um político que consegue fazer mais barulho a desactivar-se que a acelerar os motores. Melhor: que consegue tornar a desistência mais importante que a persistência.
Mas Pedro Santana Lopes é um profissional do risco, pelo que conhece a fundo o risco que os riscos têm.
Vai daí, perante o risco de o levarem a sério, tratou também de anunciar o seu provável regresso na mesma conferência de imprensa em que se despediu.
Fez bem, o Pedro. Apesar de o risco de o levarem a sério ser aparentemente remoto, às vezes em Portugal nunca se sabe. Basta ver o que aconteceu com a sua própria candidatura à Figueira da Foz: quando toda a gente presumia que aquilo não passava de mais uma brincadeira, ei-lo na presidência, empoleirado numa vitória arrasadora, e essa é que é essa.
Todavia, mesmo nas mais sombrias noites há chispas lembrando a luz. Se o país se viu assim, de repente, mergulhado na angústia da ausência de Pedro na vida política, na Figueira da Foz a continuação da sua presidência constituiu-se o farol desta tempestade nacional.
Após o resultado do referendo da regionalização, já houve quem escrevesse pelas ruas «Obrigado Portugal».
Urge que escrevam igualmente, e com não menor destaque, «Obrigado Figueira da Foz».
E que precisa de fazer a vida política nacional para conseguir o Pedro de volta? Nada de especial, como o próprio Pedro explicou: basta que a Assembleia da República legisle a favor do Pedro, que o Presidente da República ouça o Pedro, que o Provedor de Justiça intervenha a favor do Pedro ou, pelo menos, que a Alta Autoridade para a Comunicação Social se pronuncie a favor do Pedro.
Com tantas altas instâncias metidas ao barulho pelo próprio Pedro, afigura-se-nos inverosímil que a coisa não tenha um desenlace feliz.
É que mesmo que a solicitação do Pedro não leve nenhuma destas altas instâncias a pronunciar-se, todas elas ficaram pronunciadas a partir do momento em que Pedro as solicitou.
Pelo que Pedro, respaldado nesta razoável inferência criptojurídica, pode desde já regressar a qualquer momento afirmando simplesmente: «Ah, bom, então podem contar comigo...».
Resta-nos averiguar o que fez a rábula do Big Show SIC ao Pedro, para desencadear tão grave crise nacional.
Parece que ninguém sabe, a começar pelo próprio Pedro e continuando nos jornalistas que lhe registaram as queixas. Aliás, Pedro confessaria mesmo que não tinha visto nem o programa nem os «cerca de 10 minutos» que durou a rábula a seu respeito, o que não o impediu de considerar que desceu a um «nível repugnante» - tanto que se recusava «a reproduzir o que se passou» por «razões de decoro».
Ou seja: no meio disto tudo, Pedro Santana Lopes ofendeu-se com o que não viu nem ouviu e, portanto, ignora.
Lamentavelmente, temos de concordar que a coisa é grave.
Por razões de decoro, não dizemos porquê.
Limitamo-nos a expressar o desejo de rápidas melhoras. Henrique Custódio
«Avante!» Nº 1302 - 12.Novembro.1998
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A TALHE DE FOICE
A Pedrada
P edro Santana Lopes zangou-se com o Big Show SIC da semana passada, convocando por isso uma conferência de Imprensa para anunciar que, pelo facto de uma rábula do programa do Baião a seu respeito ter «ultrapassado todos os limites», tinha decidido «abandonar a vida política nacional».
Há aqui uma evidência - Pedro Santana Lopes enveredou decididamente pela filosofia do «olho por olho, dente por dente».
Na hipótese do «olho», respondeu à ultrapassagem de «todos os limites» da SIC com a ultrapassagem de todos os seus próprios limites, pelo menos os até aqui conhecidos.
Na versão do «dente», ressarciu-se duma rábula mandando-lhe com outra.
É de homem. É de Pedro - e lá está: como avisa a Bíblia, «sobre esta pedra» anda a construir-se qualquer coisa.
Para já, ergueu-se um político que consegue fazer mais barulho a desactivar-se que a acelerar os motores. Melhor: que consegue tornar a desistência mais importante que a persistência.
Mas Pedro Santana Lopes é um profissional do risco, pelo que conhece a fundo o risco que os riscos têm.
Vai daí, perante o risco de o levarem a sério, tratou também de anunciar o seu provável regresso na mesma conferência de imprensa em que se despediu.
Fez bem, o Pedro. Apesar de o risco de o levarem a sério ser aparentemente remoto, às vezes em Portugal nunca se sabe. Basta ver o que aconteceu com a sua própria candidatura à Figueira da Foz: quando toda a gente presumia que aquilo não passava de mais uma brincadeira, ei-lo na presidência, empoleirado numa vitória arrasadora, e essa é que é essa.
Todavia, mesmo nas mais sombrias noites há chispas lembrando a luz. Se o país se viu assim, de repente, mergulhado na angústia da ausência de Pedro na vida política, na Figueira da Foz a continuação da sua presidência constituiu-se o farol desta tempestade nacional.
Após o resultado do referendo da regionalização, já houve quem escrevesse pelas ruas «Obrigado Portugal».
Urge que escrevam igualmente, e com não menor destaque, «Obrigado Figueira da Foz».
E que precisa de fazer a vida política nacional para conseguir o Pedro de volta? Nada de especial, como o próprio Pedro explicou: basta que a Assembleia da República legisle a favor do Pedro, que o Presidente da República ouça o Pedro, que o Provedor de Justiça intervenha a favor do Pedro ou, pelo menos, que a Alta Autoridade para a Comunicação Social se pronuncie a favor do Pedro.
Com tantas altas instâncias metidas ao barulho pelo próprio Pedro, afigura-se-nos inverosímil que a coisa não tenha um desenlace feliz.
É que mesmo que a solicitação do Pedro não leve nenhuma destas altas instâncias a pronunciar-se, todas elas ficaram pronunciadas a partir do momento em que Pedro as solicitou.
Pelo que Pedro, respaldado nesta razoável inferência criptojurídica, pode desde já regressar a qualquer momento afirmando simplesmente: «Ah, bom, então podem contar comigo...».
Resta-nos averiguar o que fez a rábula do Big Show SIC ao Pedro, para desencadear tão grave crise nacional.
Parece que ninguém sabe, a começar pelo próprio Pedro e continuando nos jornalistas que lhe registaram as queixas. Aliás, Pedro confessaria mesmo que não tinha visto nem o programa nem os «cerca de 10 minutos» que durou a rábula a seu respeito, o que não o impediu de considerar que desceu a um «nível repugnante» - tanto que se recusava «a reproduzir o que se passou» por «razões de decoro».
Ou seja: no meio disto tudo, Pedro Santana Lopes ofendeu-se com o que não viu nem ouviu e, portanto, ignora.
Lamentavelmente, temos de concordar que a coisa é grave.
Por razões de decoro, não dizemos porquê.
Limitamo-nos a expressar o desejo de rápidas melhoras. Henrique Custódio
«Avante!» Nº 1302 - 12.Novembro.1998