«Avante!» Nº 1302

18-11-2000
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A TALHE DE FOICE

A Pedrada

P edro Santana Lopes zangou-se com o Big Show SIC da semana passada, convocando por isso uma conferência de Imprensa para anunciar que, pelo facto de uma rábula do programa do Baião a seu respeito ter «ultrapassado todos os limites», tinha decidido «abandonar a vida política nacional».

Há aqui uma evidência - Pedro Santana Lopes enveredou decididamente pela filosofia do «olho por olho, dente por dente».

Na hipótese do «olho», respondeu à ultrapassagem de «todos os limites» da SIC com a ultrapassagem de todos os seus próprios limites, pelo menos os até aqui conhecidos.

Na versão do «dente», ressarciu-se duma rábula mandando-lhe com outra.

É de homem. É de Pedro - e lá está: como avisa a Bíblia, «sobre esta pedra» anda a construir-se qualquer coisa.

Para já, ergueu-se um político que consegue fazer mais barulho a desactivar-se que a acelerar os motores. Melhor: que consegue tornar a desistência mais importante que a persistência.

Mas Pedro Santana Lopes é um profissional do risco, pelo que conhece a fundo o risco que os riscos têm.

Vai daí, perante o risco de o levarem a sério, tratou também de anunciar o seu provável regresso na mesma conferência de imprensa em que se despediu.

Fez bem, o Pedro. Apesar de o risco de o levarem a sério ser aparentemente remoto, às vezes em Portugal nunca se sabe. Basta ver o que aconteceu com a sua própria candidatura à Figueira da Foz: quando toda a gente presumia que aquilo não passava de mais uma brincadeira, ei-lo na presidência, empoleirado numa vitória arrasadora, e essa é que é essa.

Todavia, mesmo nas mais sombrias noites há chispas lembrando a luz. Se o país se viu assim, de repente, mergulhado na angústia da ausência de Pedro na vida política, na Figueira da Foz a continuação da sua presidência constituiu-se o farol desta tempestade nacional.

Após o resultado do referendo da regionalização, já houve quem escrevesse pelas ruas «Obrigado Portugal».

Urge que escrevam igualmente, e com não menor destaque, «Obrigado Figueira da Foz».

E que precisa de fazer a vida política nacional para conseguir o Pedro de volta? Nada de especial, como o próprio Pedro explicou: basta que a Assembleia da República legisle a favor do Pedro, que o Presidente da República ouça o Pedro, que o Provedor de Justiça intervenha a favor do Pedro ou, pelo menos, que a Alta Autoridade para a Comunicação Social se pronuncie a favor do Pedro.

Com tantas altas instâncias metidas ao barulho pelo próprio Pedro, afigura-se-nos inverosímil que a coisa não tenha um desenlace feliz.

É que mesmo que a solicitação do Pedro não leve nenhuma destas altas instâncias a pronunciar-se, todas elas ficaram pronunciadas a partir do momento em que Pedro as solicitou.

Pelo que Pedro, respaldado nesta razoável inferência criptojurídica, pode desde já regressar a qualquer momento afirmando simplesmente: «Ah, bom, então podem contar comigo...».

Resta-nos averiguar o que fez a rábula do Big Show SIC ao Pedro, para desencadear tão grave crise nacional.

Parece que ninguém sabe, a começar pelo próprio Pedro e continuando nos jornalistas que lhe registaram as queixas. Aliás, Pedro confessaria mesmo que não tinha visto nem o programa nem os «cerca de 10 minutos» que durou a rábula a seu respeito, o que não o impediu de considerar que desceu a um «nível repugnante» - tanto que se recusava «a reproduzir o que se passou» por «razões de decoro».

Ou seja: no meio disto tudo, Pedro Santana Lopes ofendeu-se com o que não viu nem ouviu e, portanto, ignora.

Lamentavelmente, temos de concordar que a coisa é grave.

Por razões de decoro, não dizemos porquê.

Limitamo-nos a expressar o desejo de rápidas melhoras. — Henrique Custódio

«Avante!» Nº 1302 - 12.Novembro.1998

A TALHE DE FOICE

A Pedrada

P edro Santana Lopes zangou-se com o Big Show SIC da semana passada, convocando por isso uma conferência de Imprensa para anunciar que, pelo facto de uma rábula do programa do Baião a seu respeito ter «ultrapassado todos os limites», tinha decidido «abandonar a vida política nacional».

Há aqui uma evidência - Pedro Santana Lopes enveredou decididamente pela filosofia do «olho por olho, dente por dente».

Na hipótese do «olho», respondeu à ultrapassagem de «todos os limites» da SIC com a ultrapassagem de todos os seus próprios limites, pelo menos os até aqui conhecidos.

Na versão do «dente», ressarciu-se duma rábula mandando-lhe com outra.

É de homem. É de Pedro - e lá está: como avisa a Bíblia, «sobre esta pedra» anda a construir-se qualquer coisa.

Para já, ergueu-se um político que consegue fazer mais barulho a desactivar-se que a acelerar os motores. Melhor: que consegue tornar a desistência mais importante que a persistência.

Mas Pedro Santana Lopes é um profissional do risco, pelo que conhece a fundo o risco que os riscos têm.

Vai daí, perante o risco de o levarem a sério, tratou também de anunciar o seu provável regresso na mesma conferência de imprensa em que se despediu.

Fez bem, o Pedro. Apesar de o risco de o levarem a sério ser aparentemente remoto, às vezes em Portugal nunca se sabe. Basta ver o que aconteceu com a sua própria candidatura à Figueira da Foz: quando toda a gente presumia que aquilo não passava de mais uma brincadeira, ei-lo na presidência, empoleirado numa vitória arrasadora, e essa é que é essa.

Todavia, mesmo nas mais sombrias noites há chispas lembrando a luz. Se o país se viu assim, de repente, mergulhado na angústia da ausência de Pedro na vida política, na Figueira da Foz a continuação da sua presidência constituiu-se o farol desta tempestade nacional.

Após o resultado do referendo da regionalização, já houve quem escrevesse pelas ruas «Obrigado Portugal».

Urge que escrevam igualmente, e com não menor destaque, «Obrigado Figueira da Foz».

E que precisa de fazer a vida política nacional para conseguir o Pedro de volta? Nada de especial, como o próprio Pedro explicou: basta que a Assembleia da República legisle a favor do Pedro, que o Presidente da República ouça o Pedro, que o Provedor de Justiça intervenha a favor do Pedro ou, pelo menos, que a Alta Autoridade para a Comunicação Social se pronuncie a favor do Pedro.

Com tantas altas instâncias metidas ao barulho pelo próprio Pedro, afigura-se-nos inverosímil que a coisa não tenha um desenlace feliz.

É que mesmo que a solicitação do Pedro não leve nenhuma destas altas instâncias a pronunciar-se, todas elas ficaram pronunciadas a partir do momento em que Pedro as solicitou.

Pelo que Pedro, respaldado nesta razoável inferência criptojurídica, pode desde já regressar a qualquer momento afirmando simplesmente: «Ah, bom, então podem contar comigo...».

Resta-nos averiguar o que fez a rábula do Big Show SIC ao Pedro, para desencadear tão grave crise nacional.

Parece que ninguém sabe, a começar pelo próprio Pedro e continuando nos jornalistas que lhe registaram as queixas. Aliás, Pedro confessaria mesmo que não tinha visto nem o programa nem os «cerca de 10 minutos» que durou a rábula a seu respeito, o que não o impediu de considerar que desceu a um «nível repugnante» - tanto que se recusava «a reproduzir o que se passou» por «razões de decoro».

Ou seja: no meio disto tudo, Pedro Santana Lopes ofendeu-se com o que não viu nem ouviu e, portanto, ignora.

Lamentavelmente, temos de concordar que a coisa é grave.

Por razões de decoro, não dizemos porquê.

Limitamo-nos a expressar o desejo de rápidas melhoras. — Henrique Custódio

«Avante!» Nº 1302 - 12.Novembro.1998

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