EXPRESSO: Cartaz

06-10-2001
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LIVROS A medida grande Um novo, e também o melhor, romance de Miguel Miranda A MALDIÇÃO DO LOUVA-A-DEUS de Miguel Miranda (Campo das Letras, 2001, 255 págs., 2940$00, 14,66 euros) Fernando Venâncio

SÉRGIO GRANADEIRO Da arte do conto à maturidade do romance Ainda há romances em que acontecem coisas. Há decénios que se escrevem, se publicam, e se premeiam, romances em que nada se passa. Aparecem uns fantasmas, ecoam uns vozeios, e há muita «aventura da escrita». Se com o anunciado fim do romance se visa esta indigência, estamos de parabéns. Mas seria um soberbo mal-entendido. Um romance em que ocorrem coisas, e muitas, é A Maldição do Louva-a-Deus, de Miguel Miranda (Porto, 1956). Para mais, é o livro onde começa a revelar-se um romancista desenvolto. Ainda há romances em que acontecem coisas. Há decénios que se escrevem, se publicam, e se premeiam, romances em que nada se passa. Aparecem uns fantasmas, ecoam uns vozeios, e há muita «aventura da escrita». Se com o anunciado fim do romance se visa esta indigência, estamos de parabéns. Mas seria um soberbo mal-entendido. Um romance em que ocorrem coisas, e muitas, é, de Miguel Miranda (Porto, 1956). Para mais, é o livro onde começa a revelar-se um romancista desenvolto. O seu tirocínio foi o conto. Poderia ser o tirocínio de muitos mais, não fosse a ânsia de se produzirem lombadas convincentes. Em dois volumes de narrativas curtas, Contos à Moda do Porto (comentado no «Cartaz» de 6-7-1996) e A Mulher que Trazia o Gato Enrolado ao Pescoço («Cartaz» de 29-7-2000), ambos da Afrontamento, Miguel Miranda construiu de pedra e cal um mundo reconhecivelmente dele: o da marginalidade da burla e do pequeno tráfico da droga, o de grotescas e insólitas, mas tão coloridas, vidas paralelas, as de gente que julgávamos, e tenderemos a julgar, vulgares, unidimensionais. Uma outra feliz incursão, fê-la o autor pela novela policial, com O Estranho Caso do Cadáver Sorridente (Caminho, 1996), recomendável para quem gostar do género. E agora, depois de três romances insuficientes, vem a sua revelação como dominador, também, da medida grande. É que a larga respiração do romance é fôlego rigoroso, pouco compatível com a convicção de autores, e editores, de ter-se no romance a forma consagradora em ficção. Daí tanta precipitação, tanto dispêndio, tantas frustrações. E a verdade é que alguns comentadores só desajudam, declarando «romancistas» a certos miúdos espertitos, a quem logo também negam o pão de uma palavra mais rija. Miguel Miranda ilustra que é a partir da discreta medida do conto que mais seguramente o romancista cresce. A Maldição do Louva-a-Deus comete o pasmoso feito de jogar desabridamente com dois protagonistas. Um, o escritor, é reservado para as tarefas do burlesco, as mais previsíveis, mais tranquilizadoras do leitor. O outro, o embusteiro, garante a surpresa, desenvolvendo-se de figura inócua em uma encarnação do mal, revoltante e divertida a um tempo. Ao menoríssimo escritor salvam-no quer a impotência que o acomete, a do bloqueio, do «momento branco» da escrita, quer as laboriosas, e nada parvas, medidas que vai tomando para superá-lo, roubadas à realidade do mundo literário, ou do que se crê sê-lo. Ao burlão, irão condená-lo as várias potências de que se descobre dotado: a fraudulenta, que produz em catadupa as mais estupendas trapacices, e a sexual, inesgotável capacidade que, longe de saciar, cada dia mais o vai cegando para os altos riscos da burla. A unir um e outro protagonista há só um elo: uma esposa ciumenta, e com que razão, da literatura, que vai desgraçar-se, arrastando essa formidável rival, ao pôr as economias dela e dele nas mãos promissoras do vigarista. Mas a justiça final será feita por outras mulheres, também elas burladas, e executada com uma eficácia que arrepia os machos, e espera-se que muitas fêmeas. O livro é, no conjunto, uma amena galeria de monstros, um gabinete de impensáveis raridades. comete o pasmoso feito de jogar desabridamente com dois protagonistas. Um, o escritor, é reservado para as tarefas do burlesco, as mais previsíveis, mais tranquilizadoras do leitor. O outro, o embusteiro, garante a surpresa, desenvolvendo-se de figura inócua em uma encarnação do mal, revoltante e divertida a um tempo. Ao menoríssimo escritor salvam-no quer a impotência que o acomete, a do bloqueio, do «momento branco» da escrita, quer as laboriosas, e nada parvas, medidas que vai tomando para superá-lo, roubadas à realidade do mundo literário, ou do que se crê sê-lo. Ao burlão, irão condená-lo as várias potências de que se descobre dotado: a fraudulenta, que produz em catadupa as mais estupendas trapacices, e a sexual, inesgotável capacidade que, longe de saciar, cada dia mais o vai cegando para os altos riscos da burla. A unir um e outro protagonista há só um elo: uma esposa ciumenta, e com que razão, da literatura, que vai desgraçar-se, arrastando essa formidável rival, ao pôr as economias dela e dele nas mãos promissoras do vigarista. Mas a justiça final será feita por outras mulheres, também elas burladas, e executada com uma eficácia que arrepia os machos, e espera-se que muitas fêmeas. O livro é, no conjunto, uma amena galeria de monstros, um gabinete de impensáveis raridades. Uma dessas raridades, não diremos logo um desses monstros, é a tal vida literária, a da escrita, da edição e da crítica. Houve, vê-se, o intuito de caricaturar, com pouca piedade, um mundo já de si vulnerável, e não é essa a graça mais conseguida. E não que Miguel Miranda não se esforce, já que todos os registos do órgão se vêem aí puxados, incluindo o da compra afanosa de exemplares nas livrarias que vão fornecer os «tops», ou a cena dos telefonemas, impressionadores do público circundante, com celebridades da literatura pátria e da sua promoção. E, todavia, semelhante esbracejo não logra metade da emoção que as andanças dos ratoneiros nos garantem. É aqui, na narração de uma marginalidade descarada, que este condutor de tramas é um assombro. Miguel Miranda mostra-se não só um exímio efabulador, como se prova também - mas isso já não era novo - um primoroso estilista. A sua expressão tem nervuras e solidez, proporção e inventiva. Aqui está um narrador, um artista, que faziam bem em ler quantos almejam vingar no exigente, e concedamos que bizarro, mundo das letras. 6

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LIVROS A medida grande Um novo, e também o melhor, romance de Miguel Miranda A MALDIÇÃO DO LOUVA-A-DEUS de Miguel Miranda (Campo das Letras, 2001, 255 págs., 2940$00, 14,66 euros) Fernando Venâncio

SÉRGIO GRANADEIRO Da arte do conto à maturidade do romance Ainda há romances em que acontecem coisas. Há decénios que se escrevem, se publicam, e se premeiam, romances em que nada se passa. Aparecem uns fantasmas, ecoam uns vozeios, e há muita «aventura da escrita». Se com o anunciado fim do romance se visa esta indigência, estamos de parabéns. Mas seria um soberbo mal-entendido. Um romance em que ocorrem coisas, e muitas, é A Maldição do Louva-a-Deus, de Miguel Miranda (Porto, 1956). Para mais, é o livro onde começa a revelar-se um romancista desenvolto. Ainda há romances em que acontecem coisas. Há decénios que se escrevem, se publicam, e se premeiam, romances em que nada se passa. Aparecem uns fantasmas, ecoam uns vozeios, e há muita «aventura da escrita». Se com o anunciado fim do romance se visa esta indigência, estamos de parabéns. Mas seria um soberbo mal-entendido. Um romance em que ocorrem coisas, e muitas, é, de Miguel Miranda (Porto, 1956). Para mais, é o livro onde começa a revelar-se um romancista desenvolto. O seu tirocínio foi o conto. Poderia ser o tirocínio de muitos mais, não fosse a ânsia de se produzirem lombadas convincentes. Em dois volumes de narrativas curtas, Contos à Moda do Porto (comentado no «Cartaz» de 6-7-1996) e A Mulher que Trazia o Gato Enrolado ao Pescoço («Cartaz» de 29-7-2000), ambos da Afrontamento, Miguel Miranda construiu de pedra e cal um mundo reconhecivelmente dele: o da marginalidade da burla e do pequeno tráfico da droga, o de grotescas e insólitas, mas tão coloridas, vidas paralelas, as de gente que julgávamos, e tenderemos a julgar, vulgares, unidimensionais. Uma outra feliz incursão, fê-la o autor pela novela policial, com O Estranho Caso do Cadáver Sorridente (Caminho, 1996), recomendável para quem gostar do género. E agora, depois de três romances insuficientes, vem a sua revelação como dominador, também, da medida grande. É que a larga respiração do romance é fôlego rigoroso, pouco compatível com a convicção de autores, e editores, de ter-se no romance a forma consagradora em ficção. Daí tanta precipitação, tanto dispêndio, tantas frustrações. E a verdade é que alguns comentadores só desajudam, declarando «romancistas» a certos miúdos espertitos, a quem logo também negam o pão de uma palavra mais rija. Miguel Miranda ilustra que é a partir da discreta medida do conto que mais seguramente o romancista cresce. A Maldição do Louva-a-Deus comete o pasmoso feito de jogar desabridamente com dois protagonistas. Um, o escritor, é reservado para as tarefas do burlesco, as mais previsíveis, mais tranquilizadoras do leitor. O outro, o embusteiro, garante a surpresa, desenvolvendo-se de figura inócua em uma encarnação do mal, revoltante e divertida a um tempo. Ao menoríssimo escritor salvam-no quer a impotência que o acomete, a do bloqueio, do «momento branco» da escrita, quer as laboriosas, e nada parvas, medidas que vai tomando para superá-lo, roubadas à realidade do mundo literário, ou do que se crê sê-lo. Ao burlão, irão condená-lo as várias potências de que se descobre dotado: a fraudulenta, que produz em catadupa as mais estupendas trapacices, e a sexual, inesgotável capacidade que, longe de saciar, cada dia mais o vai cegando para os altos riscos da burla. A unir um e outro protagonista há só um elo: uma esposa ciumenta, e com que razão, da literatura, que vai desgraçar-se, arrastando essa formidável rival, ao pôr as economias dela e dele nas mãos promissoras do vigarista. Mas a justiça final será feita por outras mulheres, também elas burladas, e executada com uma eficácia que arrepia os machos, e espera-se que muitas fêmeas. O livro é, no conjunto, uma amena galeria de monstros, um gabinete de impensáveis raridades. comete o pasmoso feito de jogar desabridamente com dois protagonistas. Um, o escritor, é reservado para as tarefas do burlesco, as mais previsíveis, mais tranquilizadoras do leitor. O outro, o embusteiro, garante a surpresa, desenvolvendo-se de figura inócua em uma encarnação do mal, revoltante e divertida a um tempo. Ao menoríssimo escritor salvam-no quer a impotência que o acomete, a do bloqueio, do «momento branco» da escrita, quer as laboriosas, e nada parvas, medidas que vai tomando para superá-lo, roubadas à realidade do mundo literário, ou do que se crê sê-lo. Ao burlão, irão condená-lo as várias potências de que se descobre dotado: a fraudulenta, que produz em catadupa as mais estupendas trapacices, e a sexual, inesgotável capacidade que, longe de saciar, cada dia mais o vai cegando para os altos riscos da burla. A unir um e outro protagonista há só um elo: uma esposa ciumenta, e com que razão, da literatura, que vai desgraçar-se, arrastando essa formidável rival, ao pôr as economias dela e dele nas mãos promissoras do vigarista. Mas a justiça final será feita por outras mulheres, também elas burladas, e executada com uma eficácia que arrepia os machos, e espera-se que muitas fêmeas. O livro é, no conjunto, uma amena galeria de monstros, um gabinete de impensáveis raridades. Uma dessas raridades, não diremos logo um desses monstros, é a tal vida literária, a da escrita, da edição e da crítica. Houve, vê-se, o intuito de caricaturar, com pouca piedade, um mundo já de si vulnerável, e não é essa a graça mais conseguida. E não que Miguel Miranda não se esforce, já que todos os registos do órgão se vêem aí puxados, incluindo o da compra afanosa de exemplares nas livrarias que vão fornecer os «tops», ou a cena dos telefonemas, impressionadores do público circundante, com celebridades da literatura pátria e da sua promoção. E, todavia, semelhante esbracejo não logra metade da emoção que as andanças dos ratoneiros nos garantem. É aqui, na narração de uma marginalidade descarada, que este condutor de tramas é um assombro. Miguel Miranda mostra-se não só um exímio efabulador, como se prova também - mas isso já não era novo - um primoroso estilista. A sua expressão tem nervuras e solidez, proporção e inventiva. Aqui está um narrador, um artista, que faziam bem em ler quantos almejam vingar no exigente, e concedamos que bizarro, mundo das letras. 6

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