As Pontes Abstractas do Poema

09-03-2001
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As Pontes Abstractas do Poema

Por RITA TABORDA DUARTE

Sábado, 27 de Janeiro de 2001

Nuno Júdice reúne os seus poemas completos num volume que marca um percurso feito de continuidade e diferença. São ao todo dezoito livros de uma poesia marcada pela busca incessante de uma "noção de poema".

A editora Dom Quixote tem, no último ano, publicado vários volumes das poesias completas de alguns poetas da literatura portuguesa. Natália Correia, Gastão Cruz, Manuel Alegre ou Fernando Pinto do Amaral foram alguns dos nomes contemporâneos editados na sequência desta linha editorial. Agora vem a lume a "Poesia Reunida" de Nuno Júdice. Neste caso, como nos restantes, o resultado é uma edição belíssima, muito cuidada na sua simplicidade.

Reunindo a obra poética do autor desde o seu primeiro livro, " A Noção de Poema"(1972), o volume inclui dois textos anteriores a essa data; um deles, "Introspecção", é um poema de juventude, publicado aos dezoito anos, no "Diário de Lisboa Juvenil". A completar a edição está ainda um livro inédito, "Rimas e Contas", e um prefácio de Teresa Almeida, que, de um modo crítico e rigoroso, segue os trilhos do já longo percurso literário de Nuno Júdice.

Com esta obra compacta, o leitor encontra-se perante uma vida poética, desde o seu início. E, assim, o carácter individual que cada livro teria em si esbate-se, quando se procura ler a obra na sua unidade, como um livro único, com necessários momentos de diferença e continuidade. Teresa Almeida, no texto introdutório, lembra que nem sempre são evidentes as relações entre os livros de um escritor, referindo que, por vezes, "o conceito de autor se reduz apenas a um nome que nunca poderá abranger o conjunto de todos os seus livros." Poderíamos acrescentar que tudo isto se torna ainda mais difícil, quando se trata de livros de poesia, com um manifesto carácter fragmentário, que o leitor tenta organizar dentro de um quadro uniforme de sentido. No entanto, continua a ensaísta, "no caso da obra de Nuno Júdice, a diferença detectada prende-se mais com uma diferença de estilos - a retórica barroca de "Noção de Poema" contrasta violentamente com a contenção clássica de "Rimas e Contas" -, do que com o seu universo simbólico que se manteve coerente ao longo de trinta anos de trabalho poético".

O discursivismo quase argumentativo que descobrimos nos primeiros livros vai dando lugar a uma depuração formal, com poemas cada vez mais breves, mais contidos, mais precisos na procura do específico modo de dizer, com uma relação cada vez mais indistinta entre poesia e ser, poesia e experiência. Por sua vez, o decadentismo melancólico, presente em livros como "Nos Braços da Exígua Luz", "A Partilha dos Mitos" ou "Lira de Líquen" (note-se as ressonâncias simbolistas deste último título), transforma-se numa simulada abstracção teórica, com a linearidade de uma linguagem mais límpida, em que o poema e a poesia constituem o limite para o qual o texto sempre aponta. Mas o interessante é que este autotelismo poético, um dos vectores essenciais da poesia/poética de Júdice, não se concretiza por uma negação da subjectividade de um sujeito. Pelo contrário, constrói-se por intermédio dela, pela mediação lírica de um "eu", passando por temáticas tão caras à tradição poética ocidental como o amor ou a morte, tendo em conta que os próprios sentimentos e a sua expressão são constituintes de uma realidade autónoma em que "o poema é o espelho do poema".

Tudo acaba por ser parte do enigmático universo da linguagem, como tão bem se exprime nesta "Arte poética com melancolia": "Preocupa-me ainda as coisas do passado. Escrevo/ como se o poema fosse uma realidade ou dele nascessem/ as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita/primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro/ palavras de dentro do que penso e do que faço, como/ se elas pudessem viver aí, peixes verbais no aquário do ser."

Por vezes, retoma-se um outro motivo poético, aparentemente em conflito com aquele: a consciência do indizível, a noção de que o poema estará sempre aquém da riqueza das experiências e vivências. O breve poema de "Meditação Sobre Ruínas", intitulado "O Amor" será um belíssimo exemplo disto mesmo : "Um poema, dizes, em que/ o amor se exprima, tudo/ resumindo em palavras.// Mas o que fica nas palavras daquilo que se viveu?// Um pó de sílabas/ o ritmo pobre da / gramática, rimas sem nexo."

Em Nuno Júdice, persiste a obsessão, que implica a procura de uma "noção de poema". No entanto, essa busca que é sempre a mesma percorre, de livro para livro, caminhos diversos. Será por isso que reconhecemos na sequência da obra do autor uma espécie de unidade fragmentada. Em "Linhas de Água", um breve livro datado do ano passado, sobressai, por exemplo, um processo que nunca fora estranho a Nuno Júdice, mas que aqui deixa de ser circunstancial para se tornar essencial: uma comunhão entre poesia, linguagem, processo de escrita e natureza; um mundo natural em estreita relação com um observar atento do sujeito e a certeza de que "cada poema tem uma sombra" que "recua e avança de acordo com a hora do dia" e que "com a tarde as palavras mudam de cor".

"Rimas e Contas", a última obra, até hoje inédita, revela-se um livro um pouco diferente, que, não chegando a marcar uma inflexão temática na escrita de Júdice, pensa o processo poético de uma outra forma: como um jogo de exercícios formais, em que o rigor estilístico do soneto ou das quadras isométricas impera, e em que a intertextualidade (apesar de sempre ter estado presente na poesia de Júdice) se torna ludicamente ostensiva. É aliás Teresa Almeida quem salienta que "" Rimas e Contas" testa as virtualidades das formas fixas - o soneto camoniano, com laivos simbolistas - mantendo um diálogo com a poesia tradicional portuguesa, como se de um jogo se tratasse".

Numa só obra, surge a possibilidade de ler cerca de dezoito livros de uma poesia densa, que vai construindo subtilmente o seu próprio conceito poético, lançando as "pontes abstractas do poema".

As Pontes Abstractas do Poema

Por RITA TABORDA DUARTE

Sábado, 27 de Janeiro de 2001

Nuno Júdice reúne os seus poemas completos num volume que marca um percurso feito de continuidade e diferença. São ao todo dezoito livros de uma poesia marcada pela busca incessante de uma "noção de poema".

A editora Dom Quixote tem, no último ano, publicado vários volumes das poesias completas de alguns poetas da literatura portuguesa. Natália Correia, Gastão Cruz, Manuel Alegre ou Fernando Pinto do Amaral foram alguns dos nomes contemporâneos editados na sequência desta linha editorial. Agora vem a lume a "Poesia Reunida" de Nuno Júdice. Neste caso, como nos restantes, o resultado é uma edição belíssima, muito cuidada na sua simplicidade.

Reunindo a obra poética do autor desde o seu primeiro livro, " A Noção de Poema"(1972), o volume inclui dois textos anteriores a essa data; um deles, "Introspecção", é um poema de juventude, publicado aos dezoito anos, no "Diário de Lisboa Juvenil". A completar a edição está ainda um livro inédito, "Rimas e Contas", e um prefácio de Teresa Almeida, que, de um modo crítico e rigoroso, segue os trilhos do já longo percurso literário de Nuno Júdice.

Com esta obra compacta, o leitor encontra-se perante uma vida poética, desde o seu início. E, assim, o carácter individual que cada livro teria em si esbate-se, quando se procura ler a obra na sua unidade, como um livro único, com necessários momentos de diferença e continuidade. Teresa Almeida, no texto introdutório, lembra que nem sempre são evidentes as relações entre os livros de um escritor, referindo que, por vezes, "o conceito de autor se reduz apenas a um nome que nunca poderá abranger o conjunto de todos os seus livros." Poderíamos acrescentar que tudo isto se torna ainda mais difícil, quando se trata de livros de poesia, com um manifesto carácter fragmentário, que o leitor tenta organizar dentro de um quadro uniforme de sentido. No entanto, continua a ensaísta, "no caso da obra de Nuno Júdice, a diferença detectada prende-se mais com uma diferença de estilos - a retórica barroca de "Noção de Poema" contrasta violentamente com a contenção clássica de "Rimas e Contas" -, do que com o seu universo simbólico que se manteve coerente ao longo de trinta anos de trabalho poético".

O discursivismo quase argumentativo que descobrimos nos primeiros livros vai dando lugar a uma depuração formal, com poemas cada vez mais breves, mais contidos, mais precisos na procura do específico modo de dizer, com uma relação cada vez mais indistinta entre poesia e ser, poesia e experiência. Por sua vez, o decadentismo melancólico, presente em livros como "Nos Braços da Exígua Luz", "A Partilha dos Mitos" ou "Lira de Líquen" (note-se as ressonâncias simbolistas deste último título), transforma-se numa simulada abstracção teórica, com a linearidade de uma linguagem mais límpida, em que o poema e a poesia constituem o limite para o qual o texto sempre aponta. Mas o interessante é que este autotelismo poético, um dos vectores essenciais da poesia/poética de Júdice, não se concretiza por uma negação da subjectividade de um sujeito. Pelo contrário, constrói-se por intermédio dela, pela mediação lírica de um "eu", passando por temáticas tão caras à tradição poética ocidental como o amor ou a morte, tendo em conta que os próprios sentimentos e a sua expressão são constituintes de uma realidade autónoma em que "o poema é o espelho do poema".

Tudo acaba por ser parte do enigmático universo da linguagem, como tão bem se exprime nesta "Arte poética com melancolia": "Preocupa-me ainda as coisas do passado. Escrevo/ como se o poema fosse uma realidade ou dele nascessem/ as folhas da vida, com o verde esplêndido de uma súbita/primavera. Sobreponho ao mundo a linguagem; tiro/ palavras de dentro do que penso e do que faço, como/ se elas pudessem viver aí, peixes verbais no aquário do ser."

Por vezes, retoma-se um outro motivo poético, aparentemente em conflito com aquele: a consciência do indizível, a noção de que o poema estará sempre aquém da riqueza das experiências e vivências. O breve poema de "Meditação Sobre Ruínas", intitulado "O Amor" será um belíssimo exemplo disto mesmo : "Um poema, dizes, em que/ o amor se exprima, tudo/ resumindo em palavras.// Mas o que fica nas palavras daquilo que se viveu?// Um pó de sílabas/ o ritmo pobre da / gramática, rimas sem nexo."

Em Nuno Júdice, persiste a obsessão, que implica a procura de uma "noção de poema". No entanto, essa busca que é sempre a mesma percorre, de livro para livro, caminhos diversos. Será por isso que reconhecemos na sequência da obra do autor uma espécie de unidade fragmentada. Em "Linhas de Água", um breve livro datado do ano passado, sobressai, por exemplo, um processo que nunca fora estranho a Nuno Júdice, mas que aqui deixa de ser circunstancial para se tornar essencial: uma comunhão entre poesia, linguagem, processo de escrita e natureza; um mundo natural em estreita relação com um observar atento do sujeito e a certeza de que "cada poema tem uma sombra" que "recua e avança de acordo com a hora do dia" e que "com a tarde as palavras mudam de cor".

"Rimas e Contas", a última obra, até hoje inédita, revela-se um livro um pouco diferente, que, não chegando a marcar uma inflexão temática na escrita de Júdice, pensa o processo poético de uma outra forma: como um jogo de exercícios formais, em que o rigor estilístico do soneto ou das quadras isométricas impera, e em que a intertextualidade (apesar de sempre ter estado presente na poesia de Júdice) se torna ludicamente ostensiva. É aliás Teresa Almeida quem salienta que "" Rimas e Contas" testa as virtualidades das formas fixas - o soneto camoniano, com laivos simbolistas - mantendo um diálogo com a poesia tradicional portuguesa, como se de um jogo se tratasse".

Numa só obra, surge a possibilidade de ler cerca de dezoito livros de uma poesia densa, que vai construindo subtilmente o seu próprio conceito poético, lançando as "pontes abstractas do poema".

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