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18-09-2001
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Os perigos escondidos dos Picos da Europa

Os Picos da Europa são pouco mais altos que a serra da Estrela mas potencialmente mais perigosos que os Pirenéus ou os Alpes. A natureza geológica desta cordilheira da Cantábria, que a faz parecer um queijo suíço, e também as bruscas mudanças climatéricas podem tornar-se uma ratoeira mortal para os turistas mais desprevenidos, como acaba de acontecer a dois portugueses.

Reportagem de José Alves e Jorge Simão (fotografias) O refúgio de Vega de Ario, de onde partiu Maria João Pinto. Em menos de uma hora o sol mais radioso pode dar lugar ao mais espesso nevoeiro, não permitindo ver um abrigo a menos de 10 metros Quando se atinge os lagos de Enol e Ercina, a 1106 metros de altitude, depois de subir em automóvel 12 quilómetros de uma estreita e serpenteante estrada de montanha, com inclinações de 18 graus desde os 260 metros de Covadonga, qualquer visitante fica impressionado pela beleza da zona e só muito dificilmente poderá imaginar que os Picos da Europa, cujo altitude máxima não ultrapassa os 2648 metros (Torre de Cerredo), são potencialmente mais perigosos que os Pirenéus ou os Alpes. Além dos verdes e bucólicos prados que se estendem à volta dos dois lagos de Covadonga, cuja origem remonta ao final da última glaciação, há cerca de dez mil anos, esconde-se a outra realidade da Cordilheira Cantábrica: uma impressionante muralha natural de 250 quilómetros de extensão, formada por montanhas calcárias de 570 milhões de anos, que estiveram submersas até há 25 milhões de anos, tendo sofrido desde então uma profunda e espectacular erosão, pelas águas da chuva e subterrâneas. Quando se atinge os lagos de Enol e Ercina, a 1106 metros de altitude, depois de subir em automóvel 12 quilómetros de uma estreita e serpenteante estrada de montanha, com inclinações de 18 graus desde os 260 metros de Covadonga, qualquer visitante fica impressionado pela beleza da zona e só muito dificilmente poderá imaginar que os Picos da Europa, cujo altitude máxima não ultrapassa os 2648 metros (Torre de Cerredo), são potencialmente mais perigosos que os Pirenéus ou os Alpes. Além dos verdes e bucólicos prados que se estendem à volta dos dois lagos de Covadonga, cuja origem remonta ao final da última glaciação, há cerca de dez mil anos, esconde-se a outra realidade da Cordilheira Cantábrica: uma impressionante muralha natural de 250 quilómetros de extensão, formada por montanhas calcárias de 570 milhões de anos, que estiveram submersas até há 25 milhões de anos, tendo sofrido desde então uma profunda e espectacular erosão, pelas águas da chuva e subterrâneas. Daí, pois, o seu perigo mortal: pela natureza geológica do terreno - que se parece com uma autêntica ratoeira e com um queijo «gruyère», com profundas e estreitas gargantas em forma de V e paredes verticais de 500 metros de altura - e também pelas condições climáticas da região, que podem mudar radicalmente em menos de uma hora, para desespero dos turistas transformados em montanhistas e alpinistas nestes Picos da Europa, que acabam de arrebatar a vida a dois portugueses. A Directora do Parque Nacional dos Picos da Europa, Vitória Delgado, explicou ao Expresso que os acidentes mortais como aqueles que custaram a vida ao alpinista Luís Rodrigues, de 31 anos, que caiu de de uma altura de 200 metros quando escalava o impressionante Naranjo de Bulnes (13 de Agosto) e, mais recentemente, a professora de Braga, Maria João Pinto, de 49 anos, que foi encontrada morta sete dias depois de se ter despenhado num barranco da zona de Vega de Ario, «devem ser assumidos com naturalidade». Lago de La Ercina, um dos pontos mais turísticos dos Picos da Europa, situado a 1106 metros de altitude, um pouco acima de Covadonga. A partir daqui, é preciso respeitar as regras do montanhismo «Infelizmente, este género de acidentes mortais são inerentes aos perigos potenciais que representa qualquer visita aos Picos da Europa», avisa a directora do parque. Jurista de formação, nomeada em Julho de 2000, Vitória Delgado só dispõe de 30 guardas para cobrir uma zona de 60 hectares, que se estende por três regiões (Astúrias, Cantábria, Castela-Leão) e recebe anualmente perto de dois milhões de visitantes, «mais de 90% dos quais são simples turistas, sem experiência da montanha». «Infelizmente, este género de acidentes mortais são inerentes aos perigos potenciais que representa qualquer visita aos Picos da Europa», avisa a directora do parque. Jurista de formação, nomeada em Julho de 2000, Vitória Delgado só dispõe de 30 guardas para cobrir uma zona de 60 hectares, que se estende por três regiões (Astúrias, Cantábria, Castela-Leão) e recebe anualmente perto de dois milhões de visitantes, «mais de 90% dos quais são simples turistas, sem experiência da montanha». Esse não era certamente o caso de Luís Rodrigues, que tinha já uma boa experiência do alpinismo, nem de Maria João, que já conhecia os Picos da Europa. Para o tenente Vitorino Delgado, de 44 anos, que dirige em Cangas de Onis a unidade da brigada de montanha da Guarda Civil, constituída em 1981, é possível que Luís Rodrigues tenha cometido «algum erro técnico» e que Maria João tenha perdido a calma e entrado em pânico. Mas estariam ainda vivos se não tivessem sido surpreendidos pela brusca mudança do tempo. Concretamente, o jovem alpinista da Amadora e três outros companheiros ( o também português Filipe Carvalho, de 30 anos, que ficou apenas ferido, e dois espanhóis, um dos quais também faleceu, vítima de hipotermia) haviam iniciado a escalada do impressionante Naranjo com um tempo esplêndido. Tal como Maria João, quando decidiu, a meio da tarde, dar um pequeno passeio à volta do refúgio onde estava instalada. Num caso como no outro, foram surpreendidos por violentas tempestades de Verão. Maciço Central, próximo de uma das escarpas mais conhecidas, a de Naranjo. Na fotografia, Pedro Angel, o guarda que encontrou o corpo da portuguesa, a cerca de hora e meia do refúgio No caso de Luís Rodrigues, encontrava-se já a uma altura de 200 metros quando foi arrojado para o vazio por uma avalancha de pedregulhos provocada por uma súbita tempestade de granizo. Quanto à professora de Braga, teve a infelicidade de se perder, depois de também ter sido surpreendida por uma fortíssima trovoada, até que se despenhou numa ladeira de 80 metros de altura, de onde resvalou mais uma centena de metros, ficando a pouca distância de outra ravina. No caso de Luís Rodrigues, encontrava-se já a uma altura de 200 metros quando foi arrojado para o vazio por uma avalancha de pedregulhos provocada por uma súbita tempestade de granizo. Quanto à professora de Braga, teve a infelicidade de se perder, depois de também ter sido surpreendida por uma fortíssima trovoada, até que se despenhou numa ladeira de 80 metros de altura, de onde resvalou mais uma centena de metros, ficando a pouca distância de outra ravina. Pedro Angel, de 40 anos, foi um dos quatro guardas do Parque Nacional dos Picos da Europa que encontrou o corpo sem vida de Maria João, já no sétimo dia da operação de resgate. No caminho para a zona do acidente, a partir da zona dos lagos de Covadonga - uma marcha de quase três horas, bastante penosa -, explicou-nos: «Se Maria João tivesse seguido a 'regra de ouro' da montanha, que é de não dar voltas às cegas no meio de uma tempestade, ainda estaria hoje viva.» Já na zona do refúgio, Pedro Angel fez questão de nos conduzir até ao Canal de Trea - uma das vias de acesso ao interior do maciço Ocidental dos Picos da Europa, a mais praticada pelos turistas. «Como podem ver, a entrada é relativamente fácil, sem grandes complicações. Simplesmente, quando se levanta o nevoeiro ou uma tempestade, a situação muda radicalmente. Se continuamos a descida sem visibilidade - o que nunca se deve fazer - corre-se o risco de cair num barranco ou numa furna sem fundo.» Vista a partir do refúgio onde pernoitaram os portugueses do grupo de Maria João Pinto Com os seus 13 anos de experiência como guarda do parque, Pedro Angel avisa que praticamente toda a zona alta dos maciços ocidental e central constituem autênticas ratoeiras mortais, mesmo com bom tempo, sobretudo para os turistas sem experiência da montanha. «Vêem este círculo vermelho pintado no rochedo? Significa que estão em cima de um poço profundo, provocado por milhões de anos de erosão da rocha calcária. Alguns ultrapassam os 1600 metros de profundidade e a maioria não está indicada.» Com os seus 13 anos de experiência como guarda do parque, Pedro Angel avisa que praticamente toda a zona alta dos maciços ocidental e central constituem autênticas ratoeiras mortais, mesmo com bom tempo, sobretudo para os turistas sem experiência da montanha. «Vêem este círculo vermelho pintado no rochedo? Significa que estão em cima de um poço profundo, provocado por milhões de anos de erosão da rocha calcária. Alguns ultrapassam os 1600 metros de profundidade e a maioria não está indicada.» A directora do parque confirmou, sem quaisquer complexos de culpabilidade. «A sinalização de todos os pontos perigosos dos Picos da Europa é impossível. Neste momento, procedemos à sinalização dos pontos perigosos, mas unicamente nas zonas mais frequentadas pelos turistas, também com a preocupação de cobrir a responsabilidade da Administração. É possível, aliás, que a medida tenha efeitos negativos, porque muitos turistas sentem-se particularmente atraídos pelo perigo.» Na mesma ordem de ideias, o tenente Vitorino Delgado considera que o maior risco de acidentes mortais nos Picos da Europa vem precisamente da «massificação» das visitas turísticas. «Até há poucos anos, os turistas sem experiência de montanha limitavam-se praticamente a subir em automóvel ou autocarro até aos lagos de Covadonga, deixando aos especialistas os percursos a pé mais difíceis, até ao interior da cordilheira. Agora a situação é diferente e torna-se incontrolável.» Vista aérea, à saída de Oviedo, do início da cordilheira dos Picos da Europa Referindo-se aos turistas portugueses, que vêm principalmente das regiões do Minho, Douro e Trás-os-Montes, a directora do parque e o tenente da Guarda Civil referiram que eles são cada vez mais numerosos. «Contrariamente aos britânicos, franceses e italianos, por exemplo, que foram os primeiros a 'descobrir' os Picos da Europa, a esmagadora maioria dos portugueses são excursionistas, geralmente pessoas idosas e famílias inteiras, que não têm a mínima noção dos perigos da montanha.» Referindo-se aos turistas portugueses, que vêm principalmente das regiões do Minho, Douro e Trás-os-Montes, a directora do parque e o tenente da Guarda Civil referiram que eles são cada vez mais numerosos. «Contrariamente aos britânicos, franceses e italianos, por exemplo, que foram os primeiros a 'descobrir' os Picos da Europa, a esmagadora maioria dos portugueses são excursionistas, geralmente pessoas idosas e famílias inteiras, que não têm a mínima noção dos perigos da montanha.» «Por vezes, deparamos com senhoras com sapatos de salto alto! Muitas vezes, só dão meia dúzia de passos até torcerem o tornozelo e pedirem ajuda à Guarda Civil», queixou-se Vitorino Delgado. A directora do parque formulou a mesma queixa e confessou que não pode resolver a situação. «Limitar o acesso dos Picos da Europa unicamente a montanhistas com experiência e a turistas bem equipados para a montanha é impossível, porque não se pode pôr portas ao campo.» Ou seja, para a directora do parque como para o tenente da Guarda Civil, a crescente massificação turística é inevitável e só poderá provocar um maior número de acidentes mortais. Referindo-se unicamente às quatro zonas dos Picos da Europa cobertas pela sua brigada de montanha, Vitorino Delgado indicou-nos que em 1999 e em 2000 efectuaram perto de 80 operações de resgate, contra uma média anual de 15 nos anos anteriores. «Só em 2000 retirámos 24 pessoas mortas, 57 feridos e 164 ilesos.» José Pedro Carrio, presidente do clube de montanhismo Pena Santa Como máximo responsável da operação de resgate montada após o desaparecimento de Maria João, Vitorino Delgado confessa que não apreciou as «fortes e inúteis pressões» dos portugueses e muito menos ainda a atitude de alguns meios de comunicação social, «cujos enviados especiais criticaram a sua actuação sem se darem sequer ao trabalho de fazer a pé o percurso até ao local do acidente, para poderem compreender as enormes dificuldades da operação». Como máximo responsável da operação de resgate montada após o desaparecimento de Maria João, Vitorino Delgado confessa que não apreciou as «fortes e inúteis pressões» dos portugueses e muito menos ainda a atitude de alguns meios de comunicação social, «cujos enviados especiais criticaram a sua actuação sem se darem sequer ao trabalho de fazer a pé o percurso até ao local do acidente, para poderem compreender as enormes dificuldades da operação». O tenente recordou que, desde o primeiro momento, a sua unidade de montanha mobilizou 60 a 70 homens especialmente treinados e preparados para este género de operações. «Passámos a pente fino toda a zona à volta do refúgio, até uma distância de vários quilómetros, sabendo que a portuguesa desaparecida podia ter caído em qualquer barranco inacessível das profundas e estreitas gargantas do rio Cares ou num dos numerosos poços de Vega de Ario.» Ao quarto dia chegaram os reforços portugueses e foi decidido reduzir os esforços da sua unidade a partir do sétimo dia da operação de resgate. «Chega um momento em que devemos tomar a terrível decisão de adequar o esforço exigido às possibilidades de encontrar os desaparecidos ainda com vida, tendo em conta naturalmente os riscos impostos à minha unidade, que já sofreu muitas baixas inúteis nas operações de resgate.» O guia Alan Rivas O tenente referia-se aos acidentes sofridos por dois helicópteros nos Picos da Europa, que fizeram respectivamente cinco e três mortos, no âmbito de operações de resgate dos restos mortais de uma criança desaparecida desde 1987 na zona dos lagos de Covadonga e de um militar perdido desde 1998. «Geralmente, as próprias famílias dos desaparecidos acabam por assumir a triste realidade da inutilidade do prolongamento dos riscos impostos às equipas de resgate», observou. O tenente referia-se aos acidentes sofridos por dois helicópteros nos Picos da Europa, que fizeram respectivamente cinco e três mortos, no âmbito de operações de resgate dos restos mortais de uma criança desaparecida desde 1987 na zona dos lagos de Covadonga e de um militar perdido desde 1998. «Geralmente, as próprias famílias dos desaparecidos acabam por assumir a triste realidade da inutilidade do prolongamento dos riscos impostos às equipas de resgate», observou. Segundo o presidente do clube de montanhistas Pena Santa, em Cangas de Onis, José Pedro Carrio, 90% dos visitantes dos Picos da Europa ignoram completamente que nos percursos a pé até ao interior dos maciços do Cornion (Ocidental), de Uirreles (Central) e de Andara (Oriental) correm o risco de encontrar maiores perigos que nos Alpes ou nos Pirenéus: «Pensam num passeio agradável e relativamente fácil até que deparam, por vezes demasiado tarde, com as dificuldades da alta montanha.» Os níveis de risco dos Picos da Europa surpreendem mesmo os montanhistas franceses, italianos e britânicos com experiência nos Alpes e nos Pirenéus. «Perder-se nestas montanhas é a coisa mais fácil do mundo, com todos os riscos que isso implica. Foi o que me sucedeu a mim, há já alguns anos. De repente encontrei-me sem nenhuma visibilidade, no nevoeiro mais intenso, e como não tive o sangue-frio suficiente para parar, estive a pontos de me despenhar num barranco», lembrou Pedro Carrio. O tenente Vitorino Delgado, responsável da unidade de resgate da Guarda Civil (à esquerda) Contou-nos ainda que, quando se sentiu perdido, começou a gritar por socorro, até obter uma resposta, de um pastor. «Sabia que estávamos perto um do outro, mas com o eco e sem nenhuma visibilidade, ainda demorei umas boas duas horas até me reunir com o pastor», confessou o presidente de Pena Santa, acrescentando: «Quando me senti perdido, entrei em pânico, quando percebi que estava numa zona perigosa, ouvindo o barulho da água, ao fundo da garganta do Cares.» Contou-nos ainda que, quando se sentiu perdido, começou a gritar por socorro, até obter uma resposta, de um pastor. «Sabia que estávamos perto um do outro, mas com o eco e sem nenhuma visibilidade, ainda demorei umas boas duas horas até me reunir com o pastor», confessou o presidente de Pena Santa, acrescentando: «Quando me senti perdido, entrei em pânico, quando percebi que estava numa zona perigosa, ouvindo o barulho da água, ao fundo da garganta do Cares.» Alan Rivas, um guia profissional que foi guarda no parque durante quatro anos, também passou recentemente pela mesma experiência. «Durante um passeio, num dia de sol, entrei numa cabana para conversar e tomar um copo com um pastor. Uma hora depois, quando saí da cabana, vi que o nevoeiro se tinha levantado. Não via nada, mas como me sentia seguro de mim, decidi avançar, dando voltas e mais voltas, até que me encontrei outra vez, por acaso, na cabana do mesmo pastor!» José Pedro Carrio sublinhou, por seu lado, que, com nevoeiro cerrado, tipo «puré de batata», é fácil para uma pessoa perdida passar a menos de dez metros de um refúgio ou da cabana de um pastor sem dar por isso. Nos Picos da Europa, que se encontram a apenas 30 quilómetros do Mar Cantábrico em linha recta, as borrascas entram bruscamente pelo noroeste e ficam geralmente estancadas entre os 1300 e os 1800 metros, que se tornam assim as zonas mais perigosas. «Nos meses do Verão, depois de um dia de sol e calor, com o céu completamente limpo, cai bruscamente o nevoeiro ou uma trovoada, apanhando de surpresas os turistas, que perdem rapidamente a noção do tempo e do espaço e entram em pânico», avisou Alan Rivas. Daí que Vitória Delgado e os guardas dos Picos da Europa, bem como Vitorino Delgado e outros especialistas da região, como Alan Rivas ou Pedro Carrio, insistam tanto nas medidas de protecção e de segurança recomendadas aos turistas. «Só devidamente equipados, com botas de montanha e com roupas térmicas, e levando também na mochila barras energéticas e o material elementar dos primeiros socorros, é que deveriam iniciar qualquer percurso da montanha a pé.» Alan Rivas recomenda ainda, mesmo tratando-se de montanhistas com experiência, que levem sempre com eles os mapas dos percursos, uma bússola e um altímetro. «É a única maneira séria de enfrentar os Picos da Europa, mesmo tratando-se dos percursos a pé aparentemente mais fáceis, como a rota de Poncebos a Bulnes, que tem uns 10 quilómetros, é uma das mais bonitas e que, em condições normais, se faz em menos de duas horas.» Alan Rivas recomenda também aos visitantes que «nunca se lancem sozinhos à aventura». Esse é também o aviso feito por Vitorino Delgado. Recordando o dramático exemplo de Maria João Pinto, que teria facilitado a operação de resgate se não tivesse deixado o refúgio para um passeio solitário, sem ter dito nada a alguém sobre as suas intenções, o tenente da Guarda Civil acrescentou: «Os Picos da Europa merecem pelo menos o mesmo respeito que a altas montanhas dos Pirenéus e dos Alpes. Para o compreenderem, o visitante devia começar por fazer o percurso até ao refúgio situado mesmo em frente do Naranjo, com a sua impressionante parede vertical de 500 metros de altura.» Porem, tanto o responsável da unidade da montanha da Guarda Civil como a directora do Parque Nacional Picos da Europa olham para o futuro sem grande optimismo... «Não nos cansaremos de recomendar aos turistas, com ou sem experiência de montanha, que devem tomar todas as precauções antes de iniciar qualquer percurso a pé, mesmo os mais fáceis. Infelizmente, sabemos de antemão que não poderemos evitar os acidentes inerentes a este tipo de actividade e às características geológicas e climáticas dos Picos da Europa.» 27

COMENTÁRIOS AO ARTIGO

4 comentários 1 a 4

17 Setembro 2001 às 11:52

FGOMES ( WWW@ )

Saudo os valentes, os que partiram deixam saudade, mas os heróis não morrem...

17 Setembro 2001 às 8:55

Pedro Jerónimo ( lisboa98@terra.es )

So uma nota a este ultimo comentario: estas mal informado, Luis terinava todos os dias y estava em contacto com a rocha todos os fins-de-semana. NAo o substimes nem o compares com esses "amigos" do coronel tapioca, ele nao merece tal comparaçao...Espero que te informem melhor sobre es mundo que se chama escalada...

Saludos

Pedro Jerónimo

Nuno e Vasco, nao vos esquecerei...

16 Setembro 2001 às 13:23

Albert Barr ( mpbarr@mail.com )

Quando cheguei pela primeira vez a a Arenas de Cabrales há um tempo que de tanto a estrada não tinha alcatrão, o vinho era muito bom, o queijo até era lá feito e a escola de escalada treinava na parede de pedra da recepção do parque de campismo, passávamos as noites a ver videos de escaladas em vias difíceis e a trocar impressões. As melhores vias no Naranjo, as voltas das pistas. As ascensões e onde os pastores ainda deixam o vinho.

O ano passado entro no parque de campismo por uma estrada bem alcatroada e dou de caras com 270 portugueses.

Que não viam os videos, não treinavam na parede, vestidos no Coronel Tapioca, grandes amizades no tasco ao lado... O queijo já não é das cabras da Vega, o vinho é de marca, tem hotel de 4 estrelas e em Bulnes há três estalagens. O refúgios tem turistas, de vez em quando uns russos que escalam o Pico Uriello de Inverno. E não aprendi nada sobre o que quer que fosse.

O Luís foi um bom escalador por aquilo que me dizem. Já não treinava há meio ano e estava numa situação nova, não se cordou devidamente e perdeu a vida.

Não foi a primeira que Uriello reclamou, nem será a última.

Por isso, de tudo o que sei daquelas paragens, por favor tirem um curso de orientação e não se esqueçam que todos os dias pelas 5 da tarde chove, graniza, nevoeira e até neva. Mesmo no pino do verão.

E vejam aqueles videos no parque de campismo em Arenas...

15 Setembro 2001 às 9:06

Pedro Jeronimo ( lisboa98@terra.es )

Luis Rodrigues era um dos meus melhores amigo. Ele iniciou-se n mundo do montanhismo apela minha mao, e foi um duro golpe para mim o sucedido. Nao queia deixar passar esta oprtunidade para uma vez mais recordar a lealdade y valentia que tinha este meu grande amigo, a parte da força de vontade deste para superar todos os momentos dificeis que passamos juntos. Estou seguro que nao foi por falta de experiencia que este accidente aconteceu, mas sim devido a um conjunto de infortunios impossiveis de vencer... So me resta o consolo de poder espremir aqui a minha tristeza. Uma nota mais, Luis tinha 21 anos e nao 31 como apontam na reportagem.

Obrigado por tudo.

Pedro Jerónimo

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Os perigos escondidos dos Picos da Europa

Os Picos da Europa são pouco mais altos que a serra da Estrela mas potencialmente mais perigosos que os Pirenéus ou os Alpes. A natureza geológica desta cordilheira da Cantábria, que a faz parecer um queijo suíço, e também as bruscas mudanças climatéricas podem tornar-se uma ratoeira mortal para os turistas mais desprevenidos, como acaba de acontecer a dois portugueses.

Reportagem de José Alves e Jorge Simão (fotografias) O refúgio de Vega de Ario, de onde partiu Maria João Pinto. Em menos de uma hora o sol mais radioso pode dar lugar ao mais espesso nevoeiro, não permitindo ver um abrigo a menos de 10 metros Quando se atinge os lagos de Enol e Ercina, a 1106 metros de altitude, depois de subir em automóvel 12 quilómetros de uma estreita e serpenteante estrada de montanha, com inclinações de 18 graus desde os 260 metros de Covadonga, qualquer visitante fica impressionado pela beleza da zona e só muito dificilmente poderá imaginar que os Picos da Europa, cujo altitude máxima não ultrapassa os 2648 metros (Torre de Cerredo), são potencialmente mais perigosos que os Pirenéus ou os Alpes. Além dos verdes e bucólicos prados que se estendem à volta dos dois lagos de Covadonga, cuja origem remonta ao final da última glaciação, há cerca de dez mil anos, esconde-se a outra realidade da Cordilheira Cantábrica: uma impressionante muralha natural de 250 quilómetros de extensão, formada por montanhas calcárias de 570 milhões de anos, que estiveram submersas até há 25 milhões de anos, tendo sofrido desde então uma profunda e espectacular erosão, pelas águas da chuva e subterrâneas. Quando se atinge os lagos de Enol e Ercina, a 1106 metros de altitude, depois de subir em automóvel 12 quilómetros de uma estreita e serpenteante estrada de montanha, com inclinações de 18 graus desde os 260 metros de Covadonga, qualquer visitante fica impressionado pela beleza da zona e só muito dificilmente poderá imaginar que os Picos da Europa, cujo altitude máxima não ultrapassa os 2648 metros (Torre de Cerredo), são potencialmente mais perigosos que os Pirenéus ou os Alpes. Além dos verdes e bucólicos prados que se estendem à volta dos dois lagos de Covadonga, cuja origem remonta ao final da última glaciação, há cerca de dez mil anos, esconde-se a outra realidade da Cordilheira Cantábrica: uma impressionante muralha natural de 250 quilómetros de extensão, formada por montanhas calcárias de 570 milhões de anos, que estiveram submersas até há 25 milhões de anos, tendo sofrido desde então uma profunda e espectacular erosão, pelas águas da chuva e subterrâneas. Daí, pois, o seu perigo mortal: pela natureza geológica do terreno - que se parece com uma autêntica ratoeira e com um queijo «gruyère», com profundas e estreitas gargantas em forma de V e paredes verticais de 500 metros de altura - e também pelas condições climáticas da região, que podem mudar radicalmente em menos de uma hora, para desespero dos turistas transformados em montanhistas e alpinistas nestes Picos da Europa, que acabam de arrebatar a vida a dois portugueses. A Directora do Parque Nacional dos Picos da Europa, Vitória Delgado, explicou ao Expresso que os acidentes mortais como aqueles que custaram a vida ao alpinista Luís Rodrigues, de 31 anos, que caiu de de uma altura de 200 metros quando escalava o impressionante Naranjo de Bulnes (13 de Agosto) e, mais recentemente, a professora de Braga, Maria João Pinto, de 49 anos, que foi encontrada morta sete dias depois de se ter despenhado num barranco da zona de Vega de Ario, «devem ser assumidos com naturalidade». Lago de La Ercina, um dos pontos mais turísticos dos Picos da Europa, situado a 1106 metros de altitude, um pouco acima de Covadonga. A partir daqui, é preciso respeitar as regras do montanhismo «Infelizmente, este género de acidentes mortais são inerentes aos perigos potenciais que representa qualquer visita aos Picos da Europa», avisa a directora do parque. Jurista de formação, nomeada em Julho de 2000, Vitória Delgado só dispõe de 30 guardas para cobrir uma zona de 60 hectares, que se estende por três regiões (Astúrias, Cantábria, Castela-Leão) e recebe anualmente perto de dois milhões de visitantes, «mais de 90% dos quais são simples turistas, sem experiência da montanha». «Infelizmente, este género de acidentes mortais são inerentes aos perigos potenciais que representa qualquer visita aos Picos da Europa», avisa a directora do parque. Jurista de formação, nomeada em Julho de 2000, Vitória Delgado só dispõe de 30 guardas para cobrir uma zona de 60 hectares, que se estende por três regiões (Astúrias, Cantábria, Castela-Leão) e recebe anualmente perto de dois milhões de visitantes, «mais de 90% dos quais são simples turistas, sem experiência da montanha». Esse não era certamente o caso de Luís Rodrigues, que tinha já uma boa experiência do alpinismo, nem de Maria João, que já conhecia os Picos da Europa. Para o tenente Vitorino Delgado, de 44 anos, que dirige em Cangas de Onis a unidade da brigada de montanha da Guarda Civil, constituída em 1981, é possível que Luís Rodrigues tenha cometido «algum erro técnico» e que Maria João tenha perdido a calma e entrado em pânico. Mas estariam ainda vivos se não tivessem sido surpreendidos pela brusca mudança do tempo. Concretamente, o jovem alpinista da Amadora e três outros companheiros ( o também português Filipe Carvalho, de 30 anos, que ficou apenas ferido, e dois espanhóis, um dos quais também faleceu, vítima de hipotermia) haviam iniciado a escalada do impressionante Naranjo com um tempo esplêndido. Tal como Maria João, quando decidiu, a meio da tarde, dar um pequeno passeio à volta do refúgio onde estava instalada. Num caso como no outro, foram surpreendidos por violentas tempestades de Verão. Maciço Central, próximo de uma das escarpas mais conhecidas, a de Naranjo. Na fotografia, Pedro Angel, o guarda que encontrou o corpo da portuguesa, a cerca de hora e meia do refúgio No caso de Luís Rodrigues, encontrava-se já a uma altura de 200 metros quando foi arrojado para o vazio por uma avalancha de pedregulhos provocada por uma súbita tempestade de granizo. Quanto à professora de Braga, teve a infelicidade de se perder, depois de também ter sido surpreendida por uma fortíssima trovoada, até que se despenhou numa ladeira de 80 metros de altura, de onde resvalou mais uma centena de metros, ficando a pouca distância de outra ravina. No caso de Luís Rodrigues, encontrava-se já a uma altura de 200 metros quando foi arrojado para o vazio por uma avalancha de pedregulhos provocada por uma súbita tempestade de granizo. Quanto à professora de Braga, teve a infelicidade de se perder, depois de também ter sido surpreendida por uma fortíssima trovoada, até que se despenhou numa ladeira de 80 metros de altura, de onde resvalou mais uma centena de metros, ficando a pouca distância de outra ravina. Pedro Angel, de 40 anos, foi um dos quatro guardas do Parque Nacional dos Picos da Europa que encontrou o corpo sem vida de Maria João, já no sétimo dia da operação de resgate. No caminho para a zona do acidente, a partir da zona dos lagos de Covadonga - uma marcha de quase três horas, bastante penosa -, explicou-nos: «Se Maria João tivesse seguido a 'regra de ouro' da montanha, que é de não dar voltas às cegas no meio de uma tempestade, ainda estaria hoje viva.» Já na zona do refúgio, Pedro Angel fez questão de nos conduzir até ao Canal de Trea - uma das vias de acesso ao interior do maciço Ocidental dos Picos da Europa, a mais praticada pelos turistas. «Como podem ver, a entrada é relativamente fácil, sem grandes complicações. Simplesmente, quando se levanta o nevoeiro ou uma tempestade, a situação muda radicalmente. Se continuamos a descida sem visibilidade - o que nunca se deve fazer - corre-se o risco de cair num barranco ou numa furna sem fundo.» Vista a partir do refúgio onde pernoitaram os portugueses do grupo de Maria João Pinto Com os seus 13 anos de experiência como guarda do parque, Pedro Angel avisa que praticamente toda a zona alta dos maciços ocidental e central constituem autênticas ratoeiras mortais, mesmo com bom tempo, sobretudo para os turistas sem experiência da montanha. «Vêem este círculo vermelho pintado no rochedo? Significa que estão em cima de um poço profundo, provocado por milhões de anos de erosão da rocha calcária. Alguns ultrapassam os 1600 metros de profundidade e a maioria não está indicada.» Com os seus 13 anos de experiência como guarda do parque, Pedro Angel avisa que praticamente toda a zona alta dos maciços ocidental e central constituem autênticas ratoeiras mortais, mesmo com bom tempo, sobretudo para os turistas sem experiência da montanha. «Vêem este círculo vermelho pintado no rochedo? Significa que estão em cima de um poço profundo, provocado por milhões de anos de erosão da rocha calcária. Alguns ultrapassam os 1600 metros de profundidade e a maioria não está indicada.» A directora do parque confirmou, sem quaisquer complexos de culpabilidade. «A sinalização de todos os pontos perigosos dos Picos da Europa é impossível. Neste momento, procedemos à sinalização dos pontos perigosos, mas unicamente nas zonas mais frequentadas pelos turistas, também com a preocupação de cobrir a responsabilidade da Administração. É possível, aliás, que a medida tenha efeitos negativos, porque muitos turistas sentem-se particularmente atraídos pelo perigo.» Na mesma ordem de ideias, o tenente Vitorino Delgado considera que o maior risco de acidentes mortais nos Picos da Europa vem precisamente da «massificação» das visitas turísticas. «Até há poucos anos, os turistas sem experiência de montanha limitavam-se praticamente a subir em automóvel ou autocarro até aos lagos de Covadonga, deixando aos especialistas os percursos a pé mais difíceis, até ao interior da cordilheira. Agora a situação é diferente e torna-se incontrolável.» Vista aérea, à saída de Oviedo, do início da cordilheira dos Picos da Europa Referindo-se aos turistas portugueses, que vêm principalmente das regiões do Minho, Douro e Trás-os-Montes, a directora do parque e o tenente da Guarda Civil referiram que eles são cada vez mais numerosos. «Contrariamente aos britânicos, franceses e italianos, por exemplo, que foram os primeiros a 'descobrir' os Picos da Europa, a esmagadora maioria dos portugueses são excursionistas, geralmente pessoas idosas e famílias inteiras, que não têm a mínima noção dos perigos da montanha.» Referindo-se aos turistas portugueses, que vêm principalmente das regiões do Minho, Douro e Trás-os-Montes, a directora do parque e o tenente da Guarda Civil referiram que eles são cada vez mais numerosos. «Contrariamente aos britânicos, franceses e italianos, por exemplo, que foram os primeiros a 'descobrir' os Picos da Europa, a esmagadora maioria dos portugueses são excursionistas, geralmente pessoas idosas e famílias inteiras, que não têm a mínima noção dos perigos da montanha.» «Por vezes, deparamos com senhoras com sapatos de salto alto! Muitas vezes, só dão meia dúzia de passos até torcerem o tornozelo e pedirem ajuda à Guarda Civil», queixou-se Vitorino Delgado. A directora do parque formulou a mesma queixa e confessou que não pode resolver a situação. «Limitar o acesso dos Picos da Europa unicamente a montanhistas com experiência e a turistas bem equipados para a montanha é impossível, porque não se pode pôr portas ao campo.» Ou seja, para a directora do parque como para o tenente da Guarda Civil, a crescente massificação turística é inevitável e só poderá provocar um maior número de acidentes mortais. Referindo-se unicamente às quatro zonas dos Picos da Europa cobertas pela sua brigada de montanha, Vitorino Delgado indicou-nos que em 1999 e em 2000 efectuaram perto de 80 operações de resgate, contra uma média anual de 15 nos anos anteriores. «Só em 2000 retirámos 24 pessoas mortas, 57 feridos e 164 ilesos.» José Pedro Carrio, presidente do clube de montanhismo Pena Santa Como máximo responsável da operação de resgate montada após o desaparecimento de Maria João, Vitorino Delgado confessa que não apreciou as «fortes e inúteis pressões» dos portugueses e muito menos ainda a atitude de alguns meios de comunicação social, «cujos enviados especiais criticaram a sua actuação sem se darem sequer ao trabalho de fazer a pé o percurso até ao local do acidente, para poderem compreender as enormes dificuldades da operação». Como máximo responsável da operação de resgate montada após o desaparecimento de Maria João, Vitorino Delgado confessa que não apreciou as «fortes e inúteis pressões» dos portugueses e muito menos ainda a atitude de alguns meios de comunicação social, «cujos enviados especiais criticaram a sua actuação sem se darem sequer ao trabalho de fazer a pé o percurso até ao local do acidente, para poderem compreender as enormes dificuldades da operação». O tenente recordou que, desde o primeiro momento, a sua unidade de montanha mobilizou 60 a 70 homens especialmente treinados e preparados para este género de operações. «Passámos a pente fino toda a zona à volta do refúgio, até uma distância de vários quilómetros, sabendo que a portuguesa desaparecida podia ter caído em qualquer barranco inacessível das profundas e estreitas gargantas do rio Cares ou num dos numerosos poços de Vega de Ario.» Ao quarto dia chegaram os reforços portugueses e foi decidido reduzir os esforços da sua unidade a partir do sétimo dia da operação de resgate. «Chega um momento em que devemos tomar a terrível decisão de adequar o esforço exigido às possibilidades de encontrar os desaparecidos ainda com vida, tendo em conta naturalmente os riscos impostos à minha unidade, que já sofreu muitas baixas inúteis nas operações de resgate.» O guia Alan Rivas O tenente referia-se aos acidentes sofridos por dois helicópteros nos Picos da Europa, que fizeram respectivamente cinco e três mortos, no âmbito de operações de resgate dos restos mortais de uma criança desaparecida desde 1987 na zona dos lagos de Covadonga e de um militar perdido desde 1998. «Geralmente, as próprias famílias dos desaparecidos acabam por assumir a triste realidade da inutilidade do prolongamento dos riscos impostos às equipas de resgate», observou. O tenente referia-se aos acidentes sofridos por dois helicópteros nos Picos da Europa, que fizeram respectivamente cinco e três mortos, no âmbito de operações de resgate dos restos mortais de uma criança desaparecida desde 1987 na zona dos lagos de Covadonga e de um militar perdido desde 1998. «Geralmente, as próprias famílias dos desaparecidos acabam por assumir a triste realidade da inutilidade do prolongamento dos riscos impostos às equipas de resgate», observou. Segundo o presidente do clube de montanhistas Pena Santa, em Cangas de Onis, José Pedro Carrio, 90% dos visitantes dos Picos da Europa ignoram completamente que nos percursos a pé até ao interior dos maciços do Cornion (Ocidental), de Uirreles (Central) e de Andara (Oriental) correm o risco de encontrar maiores perigos que nos Alpes ou nos Pirenéus: «Pensam num passeio agradável e relativamente fácil até que deparam, por vezes demasiado tarde, com as dificuldades da alta montanha.» Os níveis de risco dos Picos da Europa surpreendem mesmo os montanhistas franceses, italianos e britânicos com experiência nos Alpes e nos Pirenéus. «Perder-se nestas montanhas é a coisa mais fácil do mundo, com todos os riscos que isso implica. Foi o que me sucedeu a mim, há já alguns anos. De repente encontrei-me sem nenhuma visibilidade, no nevoeiro mais intenso, e como não tive o sangue-frio suficiente para parar, estive a pontos de me despenhar num barranco», lembrou Pedro Carrio. O tenente Vitorino Delgado, responsável da unidade de resgate da Guarda Civil (à esquerda) Contou-nos ainda que, quando se sentiu perdido, começou a gritar por socorro, até obter uma resposta, de um pastor. «Sabia que estávamos perto um do outro, mas com o eco e sem nenhuma visibilidade, ainda demorei umas boas duas horas até me reunir com o pastor», confessou o presidente de Pena Santa, acrescentando: «Quando me senti perdido, entrei em pânico, quando percebi que estava numa zona perigosa, ouvindo o barulho da água, ao fundo da garganta do Cares.» Contou-nos ainda que, quando se sentiu perdido, começou a gritar por socorro, até obter uma resposta, de um pastor. «Sabia que estávamos perto um do outro, mas com o eco e sem nenhuma visibilidade, ainda demorei umas boas duas horas até me reunir com o pastor», confessou o presidente de Pena Santa, acrescentando: «Quando me senti perdido, entrei em pânico, quando percebi que estava numa zona perigosa, ouvindo o barulho da água, ao fundo da garganta do Cares.» Alan Rivas, um guia profissional que foi guarda no parque durante quatro anos, também passou recentemente pela mesma experiência. «Durante um passeio, num dia de sol, entrei numa cabana para conversar e tomar um copo com um pastor. Uma hora depois, quando saí da cabana, vi que o nevoeiro se tinha levantado. Não via nada, mas como me sentia seguro de mim, decidi avançar, dando voltas e mais voltas, até que me encontrei outra vez, por acaso, na cabana do mesmo pastor!» José Pedro Carrio sublinhou, por seu lado, que, com nevoeiro cerrado, tipo «puré de batata», é fácil para uma pessoa perdida passar a menos de dez metros de um refúgio ou da cabana de um pastor sem dar por isso. Nos Picos da Europa, que se encontram a apenas 30 quilómetros do Mar Cantábrico em linha recta, as borrascas entram bruscamente pelo noroeste e ficam geralmente estancadas entre os 1300 e os 1800 metros, que se tornam assim as zonas mais perigosas. «Nos meses do Verão, depois de um dia de sol e calor, com o céu completamente limpo, cai bruscamente o nevoeiro ou uma trovoada, apanhando de surpresas os turistas, que perdem rapidamente a noção do tempo e do espaço e entram em pânico», avisou Alan Rivas. Daí que Vitória Delgado e os guardas dos Picos da Europa, bem como Vitorino Delgado e outros especialistas da região, como Alan Rivas ou Pedro Carrio, insistam tanto nas medidas de protecção e de segurança recomendadas aos turistas. «Só devidamente equipados, com botas de montanha e com roupas térmicas, e levando também na mochila barras energéticas e o material elementar dos primeiros socorros, é que deveriam iniciar qualquer percurso da montanha a pé.» Alan Rivas recomenda ainda, mesmo tratando-se de montanhistas com experiência, que levem sempre com eles os mapas dos percursos, uma bússola e um altímetro. «É a única maneira séria de enfrentar os Picos da Europa, mesmo tratando-se dos percursos a pé aparentemente mais fáceis, como a rota de Poncebos a Bulnes, que tem uns 10 quilómetros, é uma das mais bonitas e que, em condições normais, se faz em menos de duas horas.» Alan Rivas recomenda também aos visitantes que «nunca se lancem sozinhos à aventura». Esse é também o aviso feito por Vitorino Delgado. Recordando o dramático exemplo de Maria João Pinto, que teria facilitado a operação de resgate se não tivesse deixado o refúgio para um passeio solitário, sem ter dito nada a alguém sobre as suas intenções, o tenente da Guarda Civil acrescentou: «Os Picos da Europa merecem pelo menos o mesmo respeito que a altas montanhas dos Pirenéus e dos Alpes. Para o compreenderem, o visitante devia começar por fazer o percurso até ao refúgio situado mesmo em frente do Naranjo, com a sua impressionante parede vertical de 500 metros de altura.» Porem, tanto o responsável da unidade da montanha da Guarda Civil como a directora do Parque Nacional Picos da Europa olham para o futuro sem grande optimismo... «Não nos cansaremos de recomendar aos turistas, com ou sem experiência de montanha, que devem tomar todas as precauções antes de iniciar qualquer percurso a pé, mesmo os mais fáceis. Infelizmente, sabemos de antemão que não poderemos evitar os acidentes inerentes a este tipo de actividade e às características geológicas e climáticas dos Picos da Europa.» 27

COMENTÁRIOS AO ARTIGO

4 comentários 1 a 4

17 Setembro 2001 às 11:52

FGOMES ( WWW@ )

Saudo os valentes, os que partiram deixam saudade, mas os heróis não morrem...

17 Setembro 2001 às 8:55

Pedro Jerónimo ( lisboa98@terra.es )

So uma nota a este ultimo comentario: estas mal informado, Luis terinava todos os dias y estava em contacto com a rocha todos os fins-de-semana. NAo o substimes nem o compares com esses "amigos" do coronel tapioca, ele nao merece tal comparaçao...Espero que te informem melhor sobre es mundo que se chama escalada...

Saludos

Pedro Jerónimo

Nuno e Vasco, nao vos esquecerei...

16 Setembro 2001 às 13:23

Albert Barr ( mpbarr@mail.com )

Quando cheguei pela primeira vez a a Arenas de Cabrales há um tempo que de tanto a estrada não tinha alcatrão, o vinho era muito bom, o queijo até era lá feito e a escola de escalada treinava na parede de pedra da recepção do parque de campismo, passávamos as noites a ver videos de escaladas em vias difíceis e a trocar impressões. As melhores vias no Naranjo, as voltas das pistas. As ascensões e onde os pastores ainda deixam o vinho.

O ano passado entro no parque de campismo por uma estrada bem alcatroada e dou de caras com 270 portugueses.

Que não viam os videos, não treinavam na parede, vestidos no Coronel Tapioca, grandes amizades no tasco ao lado... O queijo já não é das cabras da Vega, o vinho é de marca, tem hotel de 4 estrelas e em Bulnes há três estalagens. O refúgios tem turistas, de vez em quando uns russos que escalam o Pico Uriello de Inverno. E não aprendi nada sobre o que quer que fosse.

O Luís foi um bom escalador por aquilo que me dizem. Já não treinava há meio ano e estava numa situação nova, não se cordou devidamente e perdeu a vida.

Não foi a primeira que Uriello reclamou, nem será a última.

Por isso, de tudo o que sei daquelas paragens, por favor tirem um curso de orientação e não se esqueçam que todos os dias pelas 5 da tarde chove, graniza, nevoeira e até neva. Mesmo no pino do verão.

E vejam aqueles videos no parque de campismo em Arenas...

15 Setembro 2001 às 9:06

Pedro Jeronimo ( lisboa98@terra.es )

Luis Rodrigues era um dos meus melhores amigo. Ele iniciou-se n mundo do montanhismo apela minha mao, e foi um duro golpe para mim o sucedido. Nao queia deixar passar esta oprtunidade para uma vez mais recordar a lealdade y valentia que tinha este meu grande amigo, a parte da força de vontade deste para superar todos os momentos dificeis que passamos juntos. Estou seguro que nao foi por falta de experiencia que este accidente aconteceu, mas sim devido a um conjunto de infortunios impossiveis de vencer... So me resta o consolo de poder espremir aqui a minha tristeza. Uma nota mais, Luis tinha 21 anos e nao 31 como apontam na reportagem.

Obrigado por tudo.

Pedro Jerónimo

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