Luz e Cegueira

26-10-2000
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Por ÓSCAR LOPES*

Quando, em 1980, me pediram um artigo sobre "Levantado do Chão", mal pude conter a surpresa de encontrar um grande escritor no autor de poemas ou contos de gosto ironicamente neoclássico, ou francamente barroco, que a mesquinha intriga obrigara a deixar o jornalismo pela profissionalização literária.

É que esse romance de gente alentejana tão imaginativo na percepção de três gerações acossadas pela desgraça — e focadas, pode dizer-se, em três estilos diferentes, a uma luz variável de proximidade afectiva e física — era já uma obra para ler, reler e ficar, na escolha definitiva e, todavia, sempre variável de impressões a que apetece de vez em quando regressar, para descobrir novos ângulos de visão.

Depois veio "Memorial do Convento", que o lança para a grande escala de leitura e apreciação. Era, pode dizer-se, ainda o neo-realismo, em posição retrospectiva, a duzentos e tal anos de distância. E permeado de uma lição que revia uma época e a sua cultura para outra visão que permitia sentir as diversas linhas ideológicas em conflito, e desse modo actualizar a sua notação rigorosa e contemporânea — como se o mito da passarola do padre Bartolomeu de Gusmão e a inquisição se traduzissem para a época em que vivemos e vibrássemos por novos e então inconcebíveis ideais.

Depois, com "O Ano da Morte de Ricardo Reis" avulta simultaneamente o ano da revolta dos vasos de guerra e um problema incluso, que o transforma: em que sentido existiu Ricardo Reis? Em que sentido o imaginário pode comungar da nossa realidade, mais do que isso, pode transformá-la numa estocada certeira ao coração?

Estávamos perante um escritor que se refundia a partir da própria realidade desvendada no seu íntimo. Neste livro, Fernando Pessoa renasce no mais enigmático dos seus heterónimos, e obriga-nos a pensar a nossa própria época — e não já a de Pessoa.

A partir daí desenham-se as novas e imprevistas dimensões de um escritor.

Em "A Jangada de Pedra" é a Península Ibérica que se desagarra da visão comum, e se desloca, Atlântico fora, a impor a revisão histórica de toda a epopeia peninsular. Em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", a religião oficial serve de base a todo um libelo contra a dogmatização do poder político que nos faz ver a verdade sanguinolenta da luta de massas nas suas versões ocidentais de há vinte séculos daquela mentira em que a tragédia comum se carnavalizava.

É da maior importância não esquecer no Saramago romancista o Saramago dramaturgo de três admiráveis peças, de que apenas recordarei "In Moine Dei", texto de ópera pedida a Saramago para uma finalidade comemorativa e cujo mérito os portugueses não conhecem — porque nunca viram a ópera. Está aí uma das lições mais transparentes de um escritor que não se deixa cair na simples propaganda e aprende, para sempre, uma verdade que nos deslumbra de evidência, com o desmascaramento total de grande mentira e das mentiras menores que a luta por vezes impôs aos protagonistas da verdade.

E ficamos como o protagonista de "Ensaio sobre a Cegueira", com o calçado e a roupa todos sujos, impregnados do fedor dos subterrâneos onde, mal se sabe porquê, estivemos encerrados à espera, finalmente, de ver a luz.

Por ÓSCAR LOPES*

Quando, em 1980, me pediram um artigo sobre "Levantado do Chão", mal pude conter a surpresa de encontrar um grande escritor no autor de poemas ou contos de gosto ironicamente neoclássico, ou francamente barroco, que a mesquinha intriga obrigara a deixar o jornalismo pela profissionalização literária.

É que esse romance de gente alentejana tão imaginativo na percepção de três gerações acossadas pela desgraça — e focadas, pode dizer-se, em três estilos diferentes, a uma luz variável de proximidade afectiva e física — era já uma obra para ler, reler e ficar, na escolha definitiva e, todavia, sempre variável de impressões a que apetece de vez em quando regressar, para descobrir novos ângulos de visão.

Depois veio "Memorial do Convento", que o lança para a grande escala de leitura e apreciação. Era, pode dizer-se, ainda o neo-realismo, em posição retrospectiva, a duzentos e tal anos de distância. E permeado de uma lição que revia uma época e a sua cultura para outra visão que permitia sentir as diversas linhas ideológicas em conflito, e desse modo actualizar a sua notação rigorosa e contemporânea — como se o mito da passarola do padre Bartolomeu de Gusmão e a inquisição se traduzissem para a época em que vivemos e vibrássemos por novos e então inconcebíveis ideais.

Depois, com "O Ano da Morte de Ricardo Reis" avulta simultaneamente o ano da revolta dos vasos de guerra e um problema incluso, que o transforma: em que sentido existiu Ricardo Reis? Em que sentido o imaginário pode comungar da nossa realidade, mais do que isso, pode transformá-la numa estocada certeira ao coração?

Estávamos perante um escritor que se refundia a partir da própria realidade desvendada no seu íntimo. Neste livro, Fernando Pessoa renasce no mais enigmático dos seus heterónimos, e obriga-nos a pensar a nossa própria época — e não já a de Pessoa.

A partir daí desenham-se as novas e imprevistas dimensões de um escritor.

Em "A Jangada de Pedra" é a Península Ibérica que se desagarra da visão comum, e se desloca, Atlântico fora, a impor a revisão histórica de toda a epopeia peninsular. Em "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", a religião oficial serve de base a todo um libelo contra a dogmatização do poder político que nos faz ver a verdade sanguinolenta da luta de massas nas suas versões ocidentais de há vinte séculos daquela mentira em que a tragédia comum se carnavalizava.

É da maior importância não esquecer no Saramago romancista o Saramago dramaturgo de três admiráveis peças, de que apenas recordarei "In Moine Dei", texto de ópera pedida a Saramago para uma finalidade comemorativa e cujo mérito os portugueses não conhecem — porque nunca viram a ópera. Está aí uma das lições mais transparentes de um escritor que não se deixa cair na simples propaganda e aprende, para sempre, uma verdade que nos deslumbra de evidência, com o desmascaramento total de grande mentira e das mentiras menores que a luta por vezes impôs aos protagonistas da verdade.

E ficamos como o protagonista de "Ensaio sobre a Cegueira", com o calçado e a roupa todos sujos, impregnados do fedor dos subterrâneos onde, mal se sabe porquê, estivemos encerrados à espera, finalmente, de ver a luz.

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