EXPRESSO: País

28-02-2002
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D. Policarpo entre os favoritos

Pela primeira vez dois portugueses foram elevados a cardeal em simultâneo. D. José Policarpo, um «homem do terreno», e D. José Saraiva Martins, um «bispo burocrata»

Alessandro Bianchi/EPA D. José Policarpo e D. José Saraiva Martins (em baixo), quando recebiam do Papa, na quarta-feira, o barrete cardinalício: os dois purpurados integram-se no bloco ibero-latino-americano, do qual poderá sair o sucessor de João Paulo II

O NOME de D. José Policarpo começa a ser citado nas listas dos cardeais favoritos à próxima eleição papal. Na quinta-feira, logo após a entrega do anel por João Paulo II aos 44 novos purpurados, a última das cerimónias do Consistório, um dos mais conceituados portais católicos a nível internacional -- colocava o cardeal-patriarca de Lisboa entre os «papabile», quando se votar o sucessor de João Paulo II.

Os cardeais ibero-americanos - 33, depois de o Papa, na quarta-feira, ter elevado ao cargo mais 11 bispos da América Latina, Espanha e Portugal - são agora encarados pelos diversos observadores católicos como um dos blocos do colégio cardinalício eleitor (135) mais influentes. Na semana passada o bem informado diário italiano «La Repubblica» e o espanhol «El Mundo» já anotavam que o próximo Papa pode falar espanhol ou português.

A importância deste bloco é ainda realçada pelo facto de alguns dos cardeais eleitores africanos (13) e europeus (65) se poderem juntar ao grupo ibero-americano. Os primeiros, por desejarem ver na «cadeira de Pedro» um cardeal originário de um país habituado a conviver com a realidade pastoral de comunidades evangelizadas.

Quanto à Europa (com 65 purpurados com menos de 80 anos, o maior número de cardeais eleitores), parece existir a vontade de não deixar pender de novo a balança para os italianos (a nacionalidade com mais cardeais eleitores: 24), uma tradição com 400 anos quebrada com a eleição do polaco Karol Wojtyla.

Canónica lusofonia

O próprio D. José Policarpo sublinhou em Roma a importância do continente latino-americano - «o maior de expressão religiosa católica», recordou -, anotando ainda o facto de agora «se começar a ouvir falar muito mais o português nos corredores da Santa Sé», em resultado da presença brasileira e portuguesa.

Foi precisamente em Roma, no jantar oferecido na quarta-feira pela embaixada portuguesa no Vaticano, que o patriarca de Lisboa sublinhou «o prestígio de Portugal junto da Santa Sé», como recordou ao EXPRESSO Marques Mendes, presidente da Comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros, um dos convidados. O deputado do PSD integrou com o ministro Guilherme Oliveira Martins e o embaixador de Portugal na Santa Sé, Pedro Ribeiro de Menezes, a comitiva oficial de Portugal à cerimónia da elevação a cardeal de D. José Policarpo e de D. José Saraiva Martins, prefeito (ministro) da Congregação para a Causa dos Santos.

Vatican Pool/EPA

A estes representantes do Estado português não passou despercebida a claque portuguesa na Praça de S. Pedro. Quando D. José Policarpo e D. José Martins receberam o barrete cardinalício, na quarta-feira, o meio milhar de conterrâneos dos dois purpurados romperam a solenidade da cerimónia com efusivos aplausos.

É a primeira vez que um Papa nomeia em simultâneo dois cardeais portugueses. Quanto ao Patriarca de Lisboa, tem sido tradição que o seu titular seja elevado a cardeal logo no primeiro Consistório após a sua entrada na diocese de Lisboa.

No caso de D. José Saraiva Martins, o facto de ser prefeito de uma Congregação (o equivalente a um Ministério) antes de ser nomeado cardeal é que configurava uma situação anómala. Mas a sua indigitação por João Paulo II para o cargo, quando era somente bispo, foi na ocasião olhada como uma atenção especial do Papa polaco para com Portugal.

Concordata discutida

D. José Policarpo, por seu turno, vai tornar-se brevemente num dos principais intervenientes na remodelação da Concordata, datada de Maio de 1940. Apesar de formalmente apenas competir aos dois Estados a revisão da Concordata, a Santa Sé não vai negociar qualquer alteração sem ouvir os bispos portugueses. E foi o que D. José Policarpo já fez, enquanto presidente da Conferência Episcopal. Entre 12 e 15 deste mês, reunido em Fátima com os seus pares, no âmbito de uma jornada de reflexão, D. José quis ouvir o que cada bispo pensava sobre as alterações à Concordata.

O EXPRESSO sabe que as questões mais focadas foram as ligadas ao ensino e ao património, dois sectores sensíveis para a Igreja. Das opiniões do episcopado, vai o cardeal-patriarca dar conta ao Núncio Apostólico, monsenhor Edoardo Rovida, a quem compete negociar com Portugal, em nome da Santa Sé.

D. Policarpo entre os favoritos

Pela primeira vez dois portugueses foram elevados a cardeal em simultâneo. D. José Policarpo, um «homem do terreno», e D. José Saraiva Martins, um «bispo burocrata»

Alessandro Bianchi/EPA D. José Policarpo e D. José Saraiva Martins (em baixo), quando recebiam do Papa, na quarta-feira, o barrete cardinalício: os dois purpurados integram-se no bloco ibero-latino-americano, do qual poderá sair o sucessor de João Paulo II

O NOME de D. José Policarpo começa a ser citado nas listas dos cardeais favoritos à próxima eleição papal. Na quinta-feira, logo após a entrega do anel por João Paulo II aos 44 novos purpurados, a última das cerimónias do Consistório, um dos mais conceituados portais católicos a nível internacional -- colocava o cardeal-patriarca de Lisboa entre os «papabile», quando se votar o sucessor de João Paulo II.

Os cardeais ibero-americanos - 33, depois de o Papa, na quarta-feira, ter elevado ao cargo mais 11 bispos da América Latina, Espanha e Portugal - são agora encarados pelos diversos observadores católicos como um dos blocos do colégio cardinalício eleitor (135) mais influentes. Na semana passada o bem informado diário italiano «La Repubblica» e o espanhol «El Mundo» já anotavam que o próximo Papa pode falar espanhol ou português.

A importância deste bloco é ainda realçada pelo facto de alguns dos cardeais eleitores africanos (13) e europeus (65) se poderem juntar ao grupo ibero-americano. Os primeiros, por desejarem ver na «cadeira de Pedro» um cardeal originário de um país habituado a conviver com a realidade pastoral de comunidades evangelizadas.

Quanto à Europa (com 65 purpurados com menos de 80 anos, o maior número de cardeais eleitores), parece existir a vontade de não deixar pender de novo a balança para os italianos (a nacionalidade com mais cardeais eleitores: 24), uma tradição com 400 anos quebrada com a eleição do polaco Karol Wojtyla.

Canónica lusofonia

O próprio D. José Policarpo sublinhou em Roma a importância do continente latino-americano - «o maior de expressão religiosa católica», recordou -, anotando ainda o facto de agora «se começar a ouvir falar muito mais o português nos corredores da Santa Sé», em resultado da presença brasileira e portuguesa.

Foi precisamente em Roma, no jantar oferecido na quarta-feira pela embaixada portuguesa no Vaticano, que o patriarca de Lisboa sublinhou «o prestígio de Portugal junto da Santa Sé», como recordou ao EXPRESSO Marques Mendes, presidente da Comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros, um dos convidados. O deputado do PSD integrou com o ministro Guilherme Oliveira Martins e o embaixador de Portugal na Santa Sé, Pedro Ribeiro de Menezes, a comitiva oficial de Portugal à cerimónia da elevação a cardeal de D. José Policarpo e de D. José Saraiva Martins, prefeito (ministro) da Congregação para a Causa dos Santos.

Vatican Pool/EPA

A estes representantes do Estado português não passou despercebida a claque portuguesa na Praça de S. Pedro. Quando D. José Policarpo e D. José Martins receberam o barrete cardinalício, na quarta-feira, o meio milhar de conterrâneos dos dois purpurados romperam a solenidade da cerimónia com efusivos aplausos.

É a primeira vez que um Papa nomeia em simultâneo dois cardeais portugueses. Quanto ao Patriarca de Lisboa, tem sido tradição que o seu titular seja elevado a cardeal logo no primeiro Consistório após a sua entrada na diocese de Lisboa.

No caso de D. José Saraiva Martins, o facto de ser prefeito de uma Congregação (o equivalente a um Ministério) antes de ser nomeado cardeal é que configurava uma situação anómala. Mas a sua indigitação por João Paulo II para o cargo, quando era somente bispo, foi na ocasião olhada como uma atenção especial do Papa polaco para com Portugal.

Concordata discutida

D. José Policarpo, por seu turno, vai tornar-se brevemente num dos principais intervenientes na remodelação da Concordata, datada de Maio de 1940. Apesar de formalmente apenas competir aos dois Estados a revisão da Concordata, a Santa Sé não vai negociar qualquer alteração sem ouvir os bispos portugueses. E foi o que D. José Policarpo já fez, enquanto presidente da Conferência Episcopal. Entre 12 e 15 deste mês, reunido em Fátima com os seus pares, no âmbito de uma jornada de reflexão, D. José quis ouvir o que cada bispo pensava sobre as alterações à Concordata.

O EXPRESSO sabe que as questões mais focadas foram as ligadas ao ensino e ao património, dois sectores sensíveis para a Igreja. Das opiniões do episcopado, vai o cardeal-patriarca dar conta ao Núncio Apostólico, monsenhor Edoardo Rovida, a quem compete negociar com Portugal, em nome da Santa Sé.

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