Crises no Brasil e EUA relançam discussão mundial sobre a energia

15-06-2001
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Crises no Brasil e EUA Relançam Discussão Mundial Sobre a Energia

Por LURDES FERREIRA E RICARDO GARCIA

Sexta-feira, 1 de Junho de 2001 O racionamento de electricidade no Brasil, a crise na Califórnia e o plano energético dos EUA recolocam o nuclear e as fontes renováveis na ordem do dia. A partir de hoje, a população brasileira vai ser obrigada a tomar banhos mais curtos, a manter muitas luzes apagadas e a moderar o uso de electrodomésticos. É uma poupança forçada de energia, com efeitos negativos numa das maiores economias do mundo. O seu objectivo é evitar o que tem acontecido, embora num outro contexto, na Califórnia, ou seja, interrupções frequentes no fornecimento de electricidade. O debate suscitado pelas duas situações tem acentuado o que pode acontecer a dois mercados eléctricos em estados de maturação e de infra-estruturação muito diferentes, mas ambos afectados por processos de liberalização mal conduzidos. A Califórnia ressente-se de anos sucessivos de atraso do alargamento do seu parque produtor, por falta de um planeamento eficiente, e de uma lei que impediu as distribuidoras de repercutir nas tarifas aos clientes os aumentos de preço que suportavam do lado da produção. Os estrangulamentos financeiros e a falência tornaram-se inevitáveis e próprio estado da Califórnia interveio para minorar os prejuízos. Os custos estão avaliados entre 40 mil a 50 mil milhões de dólares (entre nove mil e 12 mil milhões de contos) . "A energia não é uma mercadoria qualquer, demora cinco a dez anos entre planear até explorar e mais 15 a 20 para o total retorno do investimento", frisou o presidente da Rede Eléctrica Nacional portuguesa, José Penedos. O Brasil é, para os analistas, um caso mais complexo, pela conjugação de muitos factores. Durante perto de quatro décadas, até meados dos anos 80, o Estado brasileiro investiu sobretudo na produção hidroeléctrica, da qual hoje depende em mais de 90 por cento o seu sector da electricidade. A crise económica de há duas décadas levou à ruptura do modelo de financiamento estatal, mas foi preciso quase mais uma década para que a lei brasileira permitisse a entrada de privados no sector, o que só aconteceu depois de 1995. O grande fôlego de investimento estrangeiro, determinante para este problema, está, no entanto, à espera que Brasília resolva um problema de fundo: o capital estrangeiro não está interessado em investir em dólares e ter o retorno em reais. A falta de chuva fez o resto. Pesam também sobre os dois casos uma atitude "pouco sensata" dos respectivos reguladores, afirma Nuno Ribeiro da Silva, antigo secretário de Estado da Energia de Portugal, que esteve ligado nos últimos tempos, como conselheiro, à discussão de política energética no Brasil. "O regulador é um árbitro, não um defensor do povo, tem de perceber o que é justo que as empresas repercutam nas tarifas e o que não é." O momento é oportuno para dois sectores distintos: para os discursos antiliberalização que explorem as consequências de processos de liberalização mal geridos e para os fabricantes de equipamentos de centrais eléctricas, sem mãos a medir face à procura de turbinas no mundo inteiro. A situação do Brasil e dos Estados Unidos teve o condão de relançar a recorrente discussão mundial sobre a energia. Desta vez, outro factor contribuiu para agitar as águas: a divulgação, há duas semanas, do plano energético dos Estados Unidos, que inclui apostas firmes no carvão e no nuclear, fontes que até então estavam fadadas a um gradativo ocaso nos países desenvolvidos. Qualquer política de energia, hoje, procura obter segurança no abastecimento e poluir o menos possível. A redução do consumo é o terceiro aspecto, mas esta diminuição não tem sido absoluta. Entre 1973 e 1998, o consumo de energia primária no mundo aumentou 57 por cento. Mas a intensidade energética - ou seja, a quantidade de energia necessária para produzir uma unidade de riqueza - está a diminuir. Cerca de 80 por cento das necessidades mundiais de energia ainda são supridas pelos combustíveis fósseis - carvão, petróleo e gás natural - cujas reservas um dia acabarão. Entre as alternativas restantes, o nuclear foi a única que teve uma evolução francamente positiva neste quarto de século. O cenário mundial reflecte-se na União Europeia. O livro branco sobre a segurança no abastecimento de energia na UE, divulgado no final do ano passado, reconhece que o consumo de energia está a subir, assim como o recurso a fontes convencionais e à importação. E, pelo andar da carruagem, as energias renováveis não deverão alterar estas tendências no curto prazo.. Nos próximos dez anos, a União Europeia quer duplicar a participação das renováveis, de seis por cento para 12 por cento do balanço energético. Portugal, de acordo com uma proposta de directiva comunitária, deverá manter em 39 por cento a produção de electricidade pela via renovável. Esta quota é hoje assegurada pela produção hidroeléctrica, mas, até 2010, outros participantes terão de entrar nesta conta. A Associação Portuguesa de Produtores Independentes de Energia Eléctrica de Fontes Renováveis (Apren), num plano estratégico apresentado em Abril, propõe-se a instalar mais 2000 megawatts (MW) de potência com parques eólicos, 350 MW com mini-hídricas, 60 MW com biomassa e 40MW com outras tecnologias. Vai ser preciso um bom empurrão, pois até agora, o país tem caminhado lentamente na direcção das renováveis. Do potencial de 1000 MW em mini-hídricas que se identificou na década de 1980, só 200 MW foram instalados. Os parques eólicos têm crescido a uma taxa de 25 MW por ano, enquanto em Espanha o ritmo é 28 vezes maior. E os painéis solares para aquecimento só crescem cinco mil metros quadrados anualmente, quando na Grécia a taxa é de 170 mil metros quadrados por ano. "Até 2010, podemos instalar dois milhões de metros quadrados [de solar térmico]", assegurou o investigador Collares Pereira, do Instituto Superior Técnico. As renováveis embatem contra dois entraves complicados. Um deles é o do preço, pois a liberalização do mercado da electricidade tornou os pequenos produtores menos competitivos. O segundo é o atrito que às vezes ocorre com outros valores ambientais, que é mais patente na instalação de mini-hídricas em determinados cursos de água e de parques eólicos em áreas protegidas. É um conflito paradoxal, que leva António Sá da Cunha, dirigente da Apren, a produzir uma frase intrigante: "Em Portugal, os principais inimigos da energia eólica têm sido as pessoas ligadas ao ambiente." 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Sexta-feira, 1 de Junho de 2001 O racionamento de electricidade no Brasil, a crise na Califórnia e o plano energético dos EUA recolocam o nuclear e as fontes renováveis na ordem do dia. A partir de hoje, a população brasileira vai ser obrigada a tomar banhos mais curtos, a manter muitas luzes apagadas e a moderar o uso de electrodomésticos. É uma poupança forçada de energia, com efeitos negativos numa das maiores economias do mundo. O seu objectivo é evitar o que tem acontecido, embora num outro contexto, na Califórnia, ou seja, interrupções frequentes no fornecimento de electricidade. O debate suscitado pelas duas situações tem acentuado o que pode acontecer a dois mercados eléctricos em estados de maturação e de infra-estruturação muito diferentes, mas ambos afectados por processos de liberalização mal conduzidos. A Califórnia ressente-se de anos sucessivos de atraso do alargamento do seu parque produtor, por falta de um planeamento eficiente, e de uma lei que impediu as distribuidoras de repercutir nas tarifas aos clientes os aumentos de preço que suportavam do lado da produção. Os estrangulamentos financeiros e a falência tornaram-se inevitáveis e próprio estado da Califórnia interveio para minorar os prejuízos. Os custos estão avaliados entre 40 mil a 50 mil milhões de dólares (entre nove mil e 12 mil milhões de contos) . "A energia não é uma mercadoria qualquer, demora cinco a dez anos entre planear até explorar e mais 15 a 20 para o total retorno do investimento", frisou o presidente da Rede Eléctrica Nacional portuguesa, José Penedos. O Brasil é, para os analistas, um caso mais complexo, pela conjugação de muitos factores. Durante perto de quatro décadas, até meados dos anos 80, o Estado brasileiro investiu sobretudo na produção hidroeléctrica, da qual hoje depende em mais de 90 por cento o seu sector da electricidade. A crise económica de há duas décadas levou à ruptura do modelo de financiamento estatal, mas foi preciso quase mais uma década para que a lei brasileira permitisse a entrada de privados no sector, o que só aconteceu depois de 1995. O grande fôlego de investimento estrangeiro, determinante para este problema, está, no entanto, à espera que Brasília resolva um problema de fundo: o capital estrangeiro não está interessado em investir em dólares e ter o retorno em reais. A falta de chuva fez o resto. Pesam também sobre os dois casos uma atitude "pouco sensata" dos respectivos reguladores, afirma Nuno Ribeiro da Silva, antigo secretário de Estado da Energia de Portugal, que esteve ligado nos últimos tempos, como conselheiro, à discussão de política energética no Brasil. "O regulador é um árbitro, não um defensor do povo, tem de perceber o que é justo que as empresas repercutam nas tarifas e o que não é." O momento é oportuno para dois sectores distintos: para os discursos antiliberalização que explorem as consequências de processos de liberalização mal geridos e para os fabricantes de equipamentos de centrais eléctricas, sem mãos a medir face à procura de turbinas no mundo inteiro. A situação do Brasil e dos Estados Unidos teve o condão de relançar a recorrente discussão mundial sobre a energia. Desta vez, outro factor contribuiu para agitar as águas: a divulgação, há duas semanas, do plano energético dos Estados Unidos, que inclui apostas firmes no carvão e no nuclear, fontes que até então estavam fadadas a um gradativo ocaso nos países desenvolvidos. Qualquer política de energia, hoje, procura obter segurança no abastecimento e poluir o menos possível. A redução do consumo é o terceiro aspecto, mas esta diminuição não tem sido absoluta. Entre 1973 e 1998, o consumo de energia primária no mundo aumentou 57 por cento. Mas a intensidade energética - ou seja, a quantidade de energia necessária para produzir uma unidade de riqueza - está a diminuir. Cerca de 80 por cento das necessidades mundiais de energia ainda são supridas pelos combustíveis fósseis - carvão, petróleo e gás natural - cujas reservas um dia acabarão. Entre as alternativas restantes, o nuclear foi a única que teve uma evolução francamente positiva neste quarto de século. O cenário mundial reflecte-se na União Europeia. O livro branco sobre a segurança no abastecimento de energia na UE, divulgado no final do ano passado, reconhece que o consumo de energia está a subir, assim como o recurso a fontes convencionais e à importação. E, pelo andar da carruagem, as energias renováveis não deverão alterar estas tendências no curto prazo.. Nos próximos dez anos, a União Europeia quer duplicar a participação das renováveis, de seis por cento para 12 por cento do balanço energético. Portugal, de acordo com uma proposta de directiva comunitária, deverá manter em 39 por cento a produção de electricidade pela via renovável. Esta quota é hoje assegurada pela produção hidroeléctrica, mas, até 2010, outros participantes terão de entrar nesta conta. A Associação Portuguesa de Produtores Independentes de Energia Eléctrica de Fontes Renováveis (Apren), num plano estratégico apresentado em Abril, propõe-se a instalar mais 2000 megawatts (MW) de potência com parques eólicos, 350 MW com mini-hídricas, 60 MW com biomassa e 40MW com outras tecnologias. Vai ser preciso um bom empurrão, pois até agora, o país tem caminhado lentamente na direcção das renováveis. Do potencial de 1000 MW em mini-hídricas que se identificou na década de 1980, só 200 MW foram instalados. Os parques eólicos têm crescido a uma taxa de 25 MW por ano, enquanto em Espanha o ritmo é 28 vezes maior. E os painéis solares para aquecimento só crescem cinco mil metros quadrados anualmente, quando na Grécia a taxa é de 170 mil metros quadrados por ano. "Até 2010, podemos instalar dois milhões de metros quadrados [de solar térmico]", assegurou o investigador Collares Pereira, do Instituto Superior Técnico. As renováveis embatem contra dois entraves complicados. Um deles é o do preço, pois a liberalização do mercado da electricidade tornou os pequenos produtores menos competitivos. O segundo é o atrito que às vezes ocorre com outros valores ambientais, que é mais patente na instalação de mini-hídricas em determinados cursos de água e de parques eólicos em áreas protegidas. É um conflito paradoxal, que leva António Sá da Cunha, dirigente da Apren, a produzir uma frase intrigante: "Em Portugal, os principais inimigos da energia eólica têm sido as pessoas ligadas ao ambiente." 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