Mais Perto da Viagem Fantástica
Por ANA MACHADO
Segunda-feira, 4 de Junho de 2001
Num clássico de ficção científica de 1966, "Viagem Fantástica", do realizador Richard Fleischer, uns quantos cientistas são reduzidos a tamanho microscópico e injectados no corpo de um outro cientista muito importante, ameaçado de morte por um coágulo no cérebro. A viagem fantástica ao longo do corpo humano, feita no filme numa pequena cápsula, já esteve mais longe de ser realidade. Com um cateter e um fio-guia, a medicina consegue hoje desobstruir artérias, corrigir malformações cardíacas congénitas e até fazer um "bypass" de uma artéria coronária. Tudo através de um pequeno golpe de alguns centímetros, por onde é introduzido o cateter. Cirurgias que implicavam um grande risco para o doente, incapacitando-o por um mês ou mais, podem ter hoje uma recuperação de 24 horas e muitas das vezes dispensam a utilização desse líquido precioso dos hospitais que é o sangue.
Uma equipa do Krankenhaus der Barmherzigen Brüder (Hospital dos Irmãos Misericordiosos), em Trier, na Alemanha, anunciou a semana passada ter conseguido fazer um "bypass" coronário através de cateter. A técnica feita pela primeira vez em 1999, mas cuja descrição só agora foi publicada na revista médica "Journal of the American Heart Association", consiste em redireccionar o sentido do fluxo sanguíneo, impedido pela obstrução parcial de uma artéria entupida muitas vezes por gorduras acumuladas, sem precisar de abrir o peito todo do doente.
A cirurgia, inovadora, baseou-se na introdução de um cateter através de uma artéria na perna do doente. O cateter viajou assim até à aorta e daí até às artérias coronárias. O movimento do cateter é conduzido por ultrassons. O cateter transporta uma agulha, que funciona como fio-guia. É a agulha que, perfurando a parede da artéria, vai fazer a ponte com uma veia adjacente à artéria. A agulha transporta um balão que se solta, abrindo passagem a um pequeno tubo transportado no seu interior - a prótese coronária. É este tubo que fará o "bypass", ou a ponte que a artéria já não consegue fazer e que a veia fará por ela, no sentido oposto ao natural. Muitas vezes, no caso de excesso de gordura nas artérias, o que provoca a aterosclerose, o uso de veias é uma boa alternativa.
Esta nova técnica, que só pode ser aplicada quando a artéria ainda funciona, embora parcialmente, será testada este ano em mais 20 pacientes, e prevê-se no fim do ano comece a ser aplicada nos Estados Unidos.
Em Portugal, a cirurgia por cateter também já é feita, mas para tratar outro tipo de doenças cardíacas ou vasculares. Um exemplo é a intervenção no caso do aneurisma da aorta abdominal, uma obstrução da artéria abdominal, com 75 por cento de casos mortais, devido, essencialmente, ao facto dos sintomas serem quase nulos, até que a artéria rebenta.
As intervenções por cateter evoluíram à medida que as técnicas de imagiologia o permitiram. Foram mesmo radiologistas que criaram este tipo de intervenção, que necessita de um pleno acompanhamento de profissionais de imagem médica: são eles, com o auxílio de vários aparelhos sofisticados de imagem, que funcionam como os olhos do cirurgião que, através de ecrãs, segue a viagem do cateter pelo corpo do doente, sem precisar de o abrir.
Na intervenção por cateter, um estudo pormenorizado do paciente é muito importante, pois nem todos os casos reúnem condições para serem operados por meio de cateter. Mas os especialistas defendem que a maior desvantagem deste tipo de técnica é o facto de ainda ser muito recente, o que também faz com que o preço dos materiais seja inflacionado, uma vez que ainda se fazem mais operações clássicas do que por meio de cateter. Mas a grande diminuição do risco de vida, a quase ausência de sangue, a diminuição do tempo de anestesia e dos riscos de infecção, além da rápida recuperação do indivíduo, tornam o cateterismo uma técnica aliciante para a medicina e para o paciente.
Mais Perto da Viagem Fantástica
Por ANA MACHADO
Segunda-feira, 4 de Junho de 2001
Num clássico de ficção científica de 1966, "Viagem Fantástica", do realizador Richard Fleischer, uns quantos cientistas são reduzidos a tamanho microscópico e injectados no corpo de um outro cientista muito importante, ameaçado de morte por um coágulo no cérebro. A viagem fantástica ao longo do corpo humano, feita no filme numa pequena cápsula, já esteve mais longe de ser realidade. Com um cateter e um fio-guia, a medicina consegue hoje desobstruir artérias, corrigir malformações cardíacas congénitas e até fazer um "bypass" de uma artéria coronária. Tudo através de um pequeno golpe de alguns centímetros, por onde é introduzido o cateter. Cirurgias que implicavam um grande risco para o doente, incapacitando-o por um mês ou mais, podem ter hoje uma recuperação de 24 horas e muitas das vezes dispensam a utilização desse líquido precioso dos hospitais que é o sangue.
Uma equipa do Krankenhaus der Barmherzigen Brüder (Hospital dos Irmãos Misericordiosos), em Trier, na Alemanha, anunciou a semana passada ter conseguido fazer um "bypass" coronário através de cateter. A técnica feita pela primeira vez em 1999, mas cuja descrição só agora foi publicada na revista médica "Journal of the American Heart Association", consiste em redireccionar o sentido do fluxo sanguíneo, impedido pela obstrução parcial de uma artéria entupida muitas vezes por gorduras acumuladas, sem precisar de abrir o peito todo do doente.
A cirurgia, inovadora, baseou-se na introdução de um cateter através de uma artéria na perna do doente. O cateter viajou assim até à aorta e daí até às artérias coronárias. O movimento do cateter é conduzido por ultrassons. O cateter transporta uma agulha, que funciona como fio-guia. É a agulha que, perfurando a parede da artéria, vai fazer a ponte com uma veia adjacente à artéria. A agulha transporta um balão que se solta, abrindo passagem a um pequeno tubo transportado no seu interior - a prótese coronária. É este tubo que fará o "bypass", ou a ponte que a artéria já não consegue fazer e que a veia fará por ela, no sentido oposto ao natural. Muitas vezes, no caso de excesso de gordura nas artérias, o que provoca a aterosclerose, o uso de veias é uma boa alternativa.
Esta nova técnica, que só pode ser aplicada quando a artéria ainda funciona, embora parcialmente, será testada este ano em mais 20 pacientes, e prevê-se no fim do ano comece a ser aplicada nos Estados Unidos.
Em Portugal, a cirurgia por cateter também já é feita, mas para tratar outro tipo de doenças cardíacas ou vasculares. Um exemplo é a intervenção no caso do aneurisma da aorta abdominal, uma obstrução da artéria abdominal, com 75 por cento de casos mortais, devido, essencialmente, ao facto dos sintomas serem quase nulos, até que a artéria rebenta.
As intervenções por cateter evoluíram à medida que as técnicas de imagiologia o permitiram. Foram mesmo radiologistas que criaram este tipo de intervenção, que necessita de um pleno acompanhamento de profissionais de imagem médica: são eles, com o auxílio de vários aparelhos sofisticados de imagem, que funcionam como os olhos do cirurgião que, através de ecrãs, segue a viagem do cateter pelo corpo do doente, sem precisar de o abrir.
Na intervenção por cateter, um estudo pormenorizado do paciente é muito importante, pois nem todos os casos reúnem condições para serem operados por meio de cateter. Mas os especialistas defendem que a maior desvantagem deste tipo de técnica é o facto de ainda ser muito recente, o que também faz com que o preço dos materiais seja inflacionado, uma vez que ainda se fazem mais operações clássicas do que por meio de cateter. Mas a grande diminuição do risco de vida, a quase ausência de sangue, a diminuição do tempo de anestesia e dos riscos de infecção, além da rápida recuperação do indivíduo, tornam o cateterismo uma técnica aliciante para a medicina e para o paciente.