Cónego Melo Homenageado em Braga
Por JORGE MARMELO
Segunda, 16 de Julho de 2001
"Quis contradizer aqueles que não quiseram ver", disse o arcebispo primaz D. Jorge Ortiga
O ex-MDLP Ramiro Moreira e o homenageado abraçaram-se nos claustros da Sé
As duas filas de cónegos equipados de branco alinharam à porta do vestiário, encabeçadas pelo trio de acólitos. Entraram depois no monumental palco da Sé de Braga e foram recebidos por cânticos religiosos. Entre os cónegos, quase anónimo, seguiu pelo corredor central Eduardo Melo Peixoto, o polémico deão e monsenhor da arquidiocese bracarense, ontem objecto de uma longa homenagem a propósito das suas bodas de ouro sacerdotais. Múltiplos elogios, assembleias repletas, uma missa solene, uma longuíssima sessão evocativa e um almoço compuseram os festejos, aos quais não faltou um abraço sentido, nos claustros da Sé, entre o homenageado e Ramiro Moreira, ex-membro da rede bombista de direita que actuou em Portugal no pós-25 de Abril.
Numa Sé completamente cheia, onde pontificavam diversas personalidades da vida política e económica bracarense (estava lá, por exemplo, o presidente da câmara, Mesquita Machado, mas também o seu rival nas próximas eleições, Carlos Alberto Pereira, do PSD), o cónego Melo começou por escutar elogios à sua "disponibilidade a toda a prova" e à sua "valentia inigualável". Seguramente mais significativa, a homilia do arcebispo primaz, D. Jorge Ortiga, verberou contra a "cegueira social e espiritual" que ataca a sociedade e impede de ver "o mal e a carência", para logo descrever Eduardo Melo Peixoto como "alguém que intuíu o chamamento de Deus (...) e procurou corresponder, no dia-a-dia, a esse chamamento", contradizendo "aqueles que não quiseram ver". "Tem a qualidade de ver a sociedade com os seus males (...), não quer fechar os olhos (...), e tem arriscado a vida para ser resposta aos males da sociedade", concretizou o arcebispo.
Tomou depois a palavra o próprio cónego, que considerou que a cerimónia devia ser vista como uma "homenagem ao sacerdócio e não ao homem". "Todos nós temos que ser outros Cristos", declarou pouco antes de se terem começado a ouvir no templo vários toques de telemóvel. Após uma homilia durante a qual disse ser sua intenção "iluminar e não brilhar", Eduardo Melo Peixoto fez diversos apelos à fruição da vida na sua plenitude e referiu a necessidade de os fiéis se manterem "atentos à vida social e à vida do país". Depois, recordou o momento em que, há 50 anos, jurou obediência ao arcebispo D. António Martins Júnior, tendo este selado o momento dando-lhe um beijo na face. Logo de seguida, o cónego Melo renovou a reverência e a obediência ao actual arcebispo, ajoelhando-se aos pés de D. Jorge Ortiga. E a Sé levantou-se para um aplauso.
A homenagem prosseguiu pouco depois numa sessão solene no Seminário de Santiago, na qual marcaram presença, para além de Mesquita Machado e do arcebispo primaz, o governador civil de Braga, Fernando Moniz, o arcebispo emérito, Eurico Nogueira, e um representante do cabido de Santiago de Compostela. Num palco decorado com as bandeiras da cidade, do Sporting de Braga (o cónego Melo é dirigente do clube minhoto) e da Associação de Futebol de Braga, o cónego José Marques traçou uma longuíssima biografia do homenageado, desde os seus tempos de estudante e professor até à actualidade. Não faltaram, na ocasião, referências aos "problemas desnecessários" do pós-25 de Abril de 1974, "telecomandados por mentores ideológicos". O orador sublinhou que o cónego soube, então, "dizer não", iniciando com isso "o seu longo calvário" e um "demagógico julgamento popular orquestrado por alguma imprensa".
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Cónego Melo Homenageado em Braga
Por JORGE MARMELO
Segunda, 16 de Julho de 2001
"Quis contradizer aqueles que não quiseram ver", disse o arcebispo primaz D. Jorge Ortiga
O ex-MDLP Ramiro Moreira e o homenageado abraçaram-se nos claustros da Sé
As duas filas de cónegos equipados de branco alinharam à porta do vestiário, encabeçadas pelo trio de acólitos. Entraram depois no monumental palco da Sé de Braga e foram recebidos por cânticos religiosos. Entre os cónegos, quase anónimo, seguiu pelo corredor central Eduardo Melo Peixoto, o polémico deão e monsenhor da arquidiocese bracarense, ontem objecto de uma longa homenagem a propósito das suas bodas de ouro sacerdotais. Múltiplos elogios, assembleias repletas, uma missa solene, uma longuíssima sessão evocativa e um almoço compuseram os festejos, aos quais não faltou um abraço sentido, nos claustros da Sé, entre o homenageado e Ramiro Moreira, ex-membro da rede bombista de direita que actuou em Portugal no pós-25 de Abril.
Numa Sé completamente cheia, onde pontificavam diversas personalidades da vida política e económica bracarense (estava lá, por exemplo, o presidente da câmara, Mesquita Machado, mas também o seu rival nas próximas eleições, Carlos Alberto Pereira, do PSD), o cónego Melo começou por escutar elogios à sua "disponibilidade a toda a prova" e à sua "valentia inigualável". Seguramente mais significativa, a homilia do arcebispo primaz, D. Jorge Ortiga, verberou contra a "cegueira social e espiritual" que ataca a sociedade e impede de ver "o mal e a carência", para logo descrever Eduardo Melo Peixoto como "alguém que intuíu o chamamento de Deus (...) e procurou corresponder, no dia-a-dia, a esse chamamento", contradizendo "aqueles que não quiseram ver". "Tem a qualidade de ver a sociedade com os seus males (...), não quer fechar os olhos (...), e tem arriscado a vida para ser resposta aos males da sociedade", concretizou o arcebispo.
Tomou depois a palavra o próprio cónego, que considerou que a cerimónia devia ser vista como uma "homenagem ao sacerdócio e não ao homem". "Todos nós temos que ser outros Cristos", declarou pouco antes de se terem começado a ouvir no templo vários toques de telemóvel. Após uma homilia durante a qual disse ser sua intenção "iluminar e não brilhar", Eduardo Melo Peixoto fez diversos apelos à fruição da vida na sua plenitude e referiu a necessidade de os fiéis se manterem "atentos à vida social e à vida do país". Depois, recordou o momento em que, há 50 anos, jurou obediência ao arcebispo D. António Martins Júnior, tendo este selado o momento dando-lhe um beijo na face. Logo de seguida, o cónego Melo renovou a reverência e a obediência ao actual arcebispo, ajoelhando-se aos pés de D. Jorge Ortiga. E a Sé levantou-se para um aplauso.
A homenagem prosseguiu pouco depois numa sessão solene no Seminário de Santiago, na qual marcaram presença, para além de Mesquita Machado e do arcebispo primaz, o governador civil de Braga, Fernando Moniz, o arcebispo emérito, Eurico Nogueira, e um representante do cabido de Santiago de Compostela. Num palco decorado com as bandeiras da cidade, do Sporting de Braga (o cónego Melo é dirigente do clube minhoto) e da Associação de Futebol de Braga, o cónego José Marques traçou uma longuíssima biografia do homenageado, desde os seus tempos de estudante e professor até à actualidade. Não faltaram, na ocasião, referências aos "problemas desnecessários" do pós-25 de Abril de 1974, "telecomandados por mentores ideológicos". O orador sublinhou que o cónego soube, então, "dizer não", iniciando com isso "o seu longo calvário" e um "demagógico julgamento popular orquestrado por alguma imprensa".