O julgamento de Daniel Campelo

14-03-2001
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«Ah, sim, os nossos valores!» - Paulo Portas abriu a expressão num sorriso confiante, apertou a mão do porteiro numa cumplicidade calorosa, e garantiu: «Nem eu, nem o PP, vacilaremos nunca na defesa dos nossos valores!»

«Felizmente!» - comentou o homem, já satisfeito. E com a mão finalmente solta, debruçando sobre o seu interlocutor um olhar curioso, perguntou então: «E quais são exactamente esses valores?»

«Quais são esses valores?» - Portas agora não hesitou, foi peremptório, comicieiro mesmo, falou para todo o «hall» do Grémio, para todo o clube, para o país: «Os nossos valores são os princípios democratas-cristãos, mesmo que sejam fracturantes: os nossos valores são a Família, a Nação, uma Polícia forte que guarde o nosso sossego e defenda eficazmente a propriedade privada...»

Mas eis que o porteiro cortou o entusiasmo oratório do nosso tribuno, com um céptico e desiludido: «Ora, ora!...» E esclareceu: «Como me estou a reformar, o que eu queria saber é se sempre conseguiu o aumento dos 13 e tal por cento que prometeu para as pensões?»

«Se não consegui, foi porque eles não quiseram!» - elucidou secamente Portas. - «Não têm os mesmos valores, nem as mesmas percentagens do que eu! Até o traidor do Campelo me falhou! E, a propósito de Campelo, é com ele que venho falar!»

O dirigente do PP fez um aceno breve ao porteiro, e avançou determinado para o bar, indo direito à mesa que Daniel Campelo ocupava sozinho. E sem outros preliminares, mal se sentou, entrou logo no assunto:

«Vamos lá a um interrogatório rápido, para ver o que fazemos consigo: arrepende-se ou não se arrepende do voto do Orçamento?»

«Não.»

«Tem consciência de que já não o deixamos ir para o Parlamento Europeu ganhar os tais 2 mil contos por mês, fora as mordomias?»

«Tenho.»

«E não se importa?»

«Importo. Mas fiquei com a fábrica de queijo e a quota de popularidade.»

«Então sempre é verdade que se vendeu pela fábrica de queijo, mais o populismo barato!»

«Tenho uma noção muito clara de que, em política, a popularidade é a base do êxito.»

«Confessa então que é um reles populista!»

«Se põe as coisas nesses termos, sim!»

«E que era capaz de tudo por um populismo barato, que lhe garanta a conquista segura de votos!»

«Se põe as coisas nesses termos, sim.»

«E que estaria disposto a voltar a trair o partido, os amigos, todos, por esse populismo barato, que lhe assegura a conquista de votos.»

«Bom, se é nesses termos que insiste em pôr as coisas, sim.»

«E não vai recuar, não está disposto a prescindir dos votos dos seus conterrâneos, desse populismo barato, para voltar com dignidade ao seio do nosso grupo parlamentar, e recuperar a possibilidade de um lugar magnificamente pago no Parlamento Europeu?»

«Não. Prefiro o apreço e os votos dos meus conterrâneos. Considero-os um valor mais seguro.»

«Posso concluir portanto que não se precipitou, e que está a ser frio e pragmático nessa sua opção populista.»

«Sim, definitivamente.»

«Nenhuma pressão o fará recuar dessa sua atitude populista?»

«Nunca permitirei que pressão de espécie alguma se possa interpor entre mim e os meus crescentes eleitores.»

Paulo Portas atirou ainda sobre Daniel Campelo um olhar perscrutador, com que o percorreu, numa última avaliação. Depois, muito sério, muito solene, estendeu-lhe a mão, e disse-lhe: «Vamos lá então juntos ganhar as próximas eleições em Ponte de Lima, em Viana do Castelo, no Minho todo!»

Relatos do PEDRO BRAGANÇA

«Ah, sim, os nossos valores!» - Paulo Portas abriu a expressão num sorriso confiante, apertou a mão do porteiro numa cumplicidade calorosa, e garantiu: «Nem eu, nem o PP, vacilaremos nunca na defesa dos nossos valores!»

«Felizmente!» - comentou o homem, já satisfeito. E com a mão finalmente solta, debruçando sobre o seu interlocutor um olhar curioso, perguntou então: «E quais são exactamente esses valores?»

«Quais são esses valores?» - Portas agora não hesitou, foi peremptório, comicieiro mesmo, falou para todo o «hall» do Grémio, para todo o clube, para o país: «Os nossos valores são os princípios democratas-cristãos, mesmo que sejam fracturantes: os nossos valores são a Família, a Nação, uma Polícia forte que guarde o nosso sossego e defenda eficazmente a propriedade privada...»

Mas eis que o porteiro cortou o entusiasmo oratório do nosso tribuno, com um céptico e desiludido: «Ora, ora!...» E esclareceu: «Como me estou a reformar, o que eu queria saber é se sempre conseguiu o aumento dos 13 e tal por cento que prometeu para as pensões?»

«Se não consegui, foi porque eles não quiseram!» - elucidou secamente Portas. - «Não têm os mesmos valores, nem as mesmas percentagens do que eu! Até o traidor do Campelo me falhou! E, a propósito de Campelo, é com ele que venho falar!»

O dirigente do PP fez um aceno breve ao porteiro, e avançou determinado para o bar, indo direito à mesa que Daniel Campelo ocupava sozinho. E sem outros preliminares, mal se sentou, entrou logo no assunto:

«Vamos lá a um interrogatório rápido, para ver o que fazemos consigo: arrepende-se ou não se arrepende do voto do Orçamento?»

«Não.»

«Tem consciência de que já não o deixamos ir para o Parlamento Europeu ganhar os tais 2 mil contos por mês, fora as mordomias?»

«Tenho.»

«E não se importa?»

«Importo. Mas fiquei com a fábrica de queijo e a quota de popularidade.»

«Então sempre é verdade que se vendeu pela fábrica de queijo, mais o populismo barato!»

«Tenho uma noção muito clara de que, em política, a popularidade é a base do êxito.»

«Confessa então que é um reles populista!»

«Se põe as coisas nesses termos, sim!»

«E que era capaz de tudo por um populismo barato, que lhe garanta a conquista segura de votos!»

«Se põe as coisas nesses termos, sim.»

«E que estaria disposto a voltar a trair o partido, os amigos, todos, por esse populismo barato, que lhe assegura a conquista de votos.»

«Bom, se é nesses termos que insiste em pôr as coisas, sim.»

«E não vai recuar, não está disposto a prescindir dos votos dos seus conterrâneos, desse populismo barato, para voltar com dignidade ao seio do nosso grupo parlamentar, e recuperar a possibilidade de um lugar magnificamente pago no Parlamento Europeu?»

«Não. Prefiro o apreço e os votos dos meus conterrâneos. Considero-os um valor mais seguro.»

«Posso concluir portanto que não se precipitou, e que está a ser frio e pragmático nessa sua opção populista.»

«Sim, definitivamente.»

«Nenhuma pressão o fará recuar dessa sua atitude populista?»

«Nunca permitirei que pressão de espécie alguma se possa interpor entre mim e os meus crescentes eleitores.»

Paulo Portas atirou ainda sobre Daniel Campelo um olhar perscrutador, com que o percorreu, numa última avaliação. Depois, muito sério, muito solene, estendeu-lhe a mão, e disse-lhe: «Vamos lá então juntos ganhar as próximas eleições em Ponte de Lima, em Viana do Castelo, no Minho todo!»

Relatos do PEDRO BRAGANÇA

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