A Cheia Chegou a Montemor-o-Velho Quando Ninguém Esperava
Por GRAÇA BARBOSA RIBEIRO
Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 Vinte e seis anos depois da regularização do rio, as cheias voltaram. A surpresa causou os maiores prejuízos de sempre. "As cheias chegaram quando a gente já não esperava por elas...", diz Joaquim Azedo, de 78 anos. Com o vagar que a situação lhe merece, encosta-se à Igreja de Montemor-o Velho, de onde vigia a subida da água, que continua a engolir as casas do vale à razão de dez centímetros por hora, desalojando centenas de famílias. Passaram-se dois dias e meio sobre o primeiro sinal do drama, quando a força do Mondego começou a rebentar os diques, invadindo as povoações da margem esquerda. E passaram-se 26 anos sobre as obras de Regularização do Baixo Mondego, que chegaram com uma promessa: acabaram-se as cheias. "Agora vêm dizer que não avisámos?! Nós avisámos, mas chamaram-nos alarmistas, diziam para termos calma, que não havia de ser nada!...", protestava ontem o presidente da Câmara de Montemor-o-Velho. À entrada da vila, algumas pessoas confirmavam: "Mas quem é que havia de dizer que eu voltava a ver uma coisa assim!...", espantava-se Joaquim Maranha das Neves, de 82 anos de idade. Para quem tem menos de 30 anos, é difícil lembrar que nem sempre o Mondego teve margens certas. De um dia para o outro, galgava-as, arrasando culturas e invadindo as casas das povoações para, horas depois, deixar à vista um extenso areal. "A gente já vivia com isto, ninguém se alarmava. Juntava-se o pessoal para ajudar quem precisava, esvaziavam-se os celeiros, salvavam-se os animais, passavam-se as coisas para o primeiro andar das casas...", explica Joaquim Azedo. Como os outros, acreditou nas maravilhas da técnica quando viu o seu rio emparedado desde Coimbra até perto da Figueira da Foz. 400 famílias desalojadas "Eu nem sequer sou daqui, como é que eu ia imaginar uma coisa destas?!", lamentava-se Ana Catarino, directora da Escola Profissional Agrícola Afonso Duarte. Com um grupo de professores, passou a noite de sábado a colocar documentos importantes e material informático em cima dos armários da escola, que ao princípio da tarde de ontem estava quase submersa... Num estranho silêncio, os barcos pneumáticos e os camiões cruzavam as ruas, cortando a água, para transportar pessoas e bens. Cerca de cem homens - fuzileiros e bombeiros - dividiam-se entre Montemor-o-Velho e a Ereira, onde a situação era ainda mais dramática. Completamente isoladas, com água ao nível do primeiro andar das casas, só a meio da tarde as pessoas que vivem na Ereira tiveram algum alívio, quando a natureza se antecipou aos homens. Estava a protecção civil a planear dinamitar o dique do Mondego, para escoar a água que inundava o vale, quando aquela protecção artificial cedeu à força das águas, que começaram a regressar, lentamente, ao leito do rio. Nos pontos mais altos, juntavam-se grupos de pessoas que apreciavam o vale alagado. Alguns curiosos, outros a quererem acreditar nas palavras dos governantes, como os agricultores, a quem ontem voltou a ser garantida a criação de linhas de crédito e a reparação urgente dos estragos. Aos agricultores, esta cheia não causou mais prejuízos do que as anteriores, que não permitiram fazer as culturas de Inverno. Pelo que lhes resta a esperança de que as obras sejam feitas até Março, a tempo da próxima campanha, explicava ontem o presidente da Associação de Beneficiários da Obra Hidroagrícola do Baixo Mondego. Mas antes das obras, o vale terá de escoar. Só depois disso se verá o rasto desta cheia que, precisamente por não ser esperada, deverá ter causado os maiores prejuízos de sempre. Ao fim da tarde, o presidente da câmara de Montemor calculava que, no seu concelho e em povoações das duas margens, ela deixou cerca de 400 famílias desalojadas. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE Águas do Mondego começaram a descer
EDITORIAL A dimensão da tragédia
A cheia chegou a Montemor-o-Velho quando ninguém esperava
Coimbra pede ao Governo declaração de calamidade
Níveis de precipitação registados em Janeiro foram muito superiores à média
Caos continua instalado nas ruas e nas aldeias do Douro
Vinhas do Douro não resistiram ao dilúvio
Governo pode vir a declarar situação de calamidade
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A Cheia Chegou a Montemor-o-Velho Quando Ninguém Esperava
Por GRAÇA BARBOSA RIBEIRO
Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 Vinte e seis anos depois da regularização do rio, as cheias voltaram. A surpresa causou os maiores prejuízos de sempre. "As cheias chegaram quando a gente já não esperava por elas...", diz Joaquim Azedo, de 78 anos. Com o vagar que a situação lhe merece, encosta-se à Igreja de Montemor-o Velho, de onde vigia a subida da água, que continua a engolir as casas do vale à razão de dez centímetros por hora, desalojando centenas de famílias. Passaram-se dois dias e meio sobre o primeiro sinal do drama, quando a força do Mondego começou a rebentar os diques, invadindo as povoações da margem esquerda. E passaram-se 26 anos sobre as obras de Regularização do Baixo Mondego, que chegaram com uma promessa: acabaram-se as cheias. "Agora vêm dizer que não avisámos?! Nós avisámos, mas chamaram-nos alarmistas, diziam para termos calma, que não havia de ser nada!...", protestava ontem o presidente da Câmara de Montemor-o-Velho. À entrada da vila, algumas pessoas confirmavam: "Mas quem é que havia de dizer que eu voltava a ver uma coisa assim!...", espantava-se Joaquim Maranha das Neves, de 82 anos de idade. Para quem tem menos de 30 anos, é difícil lembrar que nem sempre o Mondego teve margens certas. De um dia para o outro, galgava-as, arrasando culturas e invadindo as casas das povoações para, horas depois, deixar à vista um extenso areal. "A gente já vivia com isto, ninguém se alarmava. Juntava-se o pessoal para ajudar quem precisava, esvaziavam-se os celeiros, salvavam-se os animais, passavam-se as coisas para o primeiro andar das casas...", explica Joaquim Azedo. Como os outros, acreditou nas maravilhas da técnica quando viu o seu rio emparedado desde Coimbra até perto da Figueira da Foz. 400 famílias desalojadas "Eu nem sequer sou daqui, como é que eu ia imaginar uma coisa destas?!", lamentava-se Ana Catarino, directora da Escola Profissional Agrícola Afonso Duarte. Com um grupo de professores, passou a noite de sábado a colocar documentos importantes e material informático em cima dos armários da escola, que ao princípio da tarde de ontem estava quase submersa... Num estranho silêncio, os barcos pneumáticos e os camiões cruzavam as ruas, cortando a água, para transportar pessoas e bens. Cerca de cem homens - fuzileiros e bombeiros - dividiam-se entre Montemor-o-Velho e a Ereira, onde a situação era ainda mais dramática. Completamente isoladas, com água ao nível do primeiro andar das casas, só a meio da tarde as pessoas que vivem na Ereira tiveram algum alívio, quando a natureza se antecipou aos homens. Estava a protecção civil a planear dinamitar o dique do Mondego, para escoar a água que inundava o vale, quando aquela protecção artificial cedeu à força das águas, que começaram a regressar, lentamente, ao leito do rio. Nos pontos mais altos, juntavam-se grupos de pessoas que apreciavam o vale alagado. Alguns curiosos, outros a quererem acreditar nas palavras dos governantes, como os agricultores, a quem ontem voltou a ser garantida a criação de linhas de crédito e a reparação urgente dos estragos. Aos agricultores, esta cheia não causou mais prejuízos do que as anteriores, que não permitiram fazer as culturas de Inverno. Pelo que lhes resta a esperança de que as obras sejam feitas até Março, a tempo da próxima campanha, explicava ontem o presidente da Associação de Beneficiários da Obra Hidroagrícola do Baixo Mondego. Mas antes das obras, o vale terá de escoar. Só depois disso se verá o rasto desta cheia que, precisamente por não ser esperada, deverá ter causado os maiores prejuízos de sempre. Ao fim da tarde, o presidente da câmara de Montemor calculava que, no seu concelho e em povoações das duas margens, ela deixou cerca de 400 famílias desalojadas. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE Águas do Mondego começaram a descer
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