Timor DN

04-05-2001
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A ESE e Timor Lorosae Legitimidade de Xanana Gusmão contestada por causa da língua oficial Jovens Resistem ao Português

Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2000 Dos nossos enviados, José Manuel Fernandes e Adriano Miranda (fotos), em Díli Foi um dia de contactos oficiais destinados a estabelecer as fórmulas de cooperação de Portugal com Timor-Leste e com a missão das Nações Unidas. Como pano de fundo, uma preocupação: a da adopção do português como língua oficial, como é vontade de Xanana Gusmão e do CNRT. Mas há muitos jovens que não gostam da ideia e alguns deles até já contestam a legitimidade futura do líder da resistência, apresentado como "transitório". Xanana Gusmão não tem dúvidas: "A frente da educação é importantíssima para nós, quer pela necessidade de preservarmos a nossa identidade, quer como aposta estratégica na formação dos quadros do futuro. Ora o que pedimos a Portugal é que nesta área nos desse apoio exclusivo". Pouco depois de se encontrar com Jorge Sampaio, o presidente do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT) não podia ser mais claro. Timor necessita da ajuda de todos para as operações de manutenção de paz e para a reconstrução - mas prefere que venha de Portugal o apoio principal na área da educação. A razão é simples: se Timor vier a adoptar o português como língua oficial - tal como é desejo de Xanana e do CNRT - só Portugal está em condições de depois fornecer os necessários professores. A questão, no entanto, não é pacífica. "Estamos a enfrentar a resistência de uma fatia da população que cresceu e foi educada em bahasa indonésio" - disse ao PÚBLICO Xanana Gusmão. "São jovens que têm receio de perder as suas habilitações, os seus privilégios, mas estamos a trabalhar para os convencer. Quanto aos mais novos, aos que andam ainda na escola, esses não terão dificuldade. Os mais novos aprenderão facilmente". E os mais novos são muitos: 45 por cento da população de Timor-Leste tem menos de 14 anos. Jovens recusam devolver casa A resistência à adopção do português é protagonizada sobretudo pelos jovens que estudaram em inglês e indonésio, o que não os impediu de serem dos mais activos membros da resistência. Alguns desses jovens, membros de uma das redes estudantis clandestinas, a Impetu, ocupam mesmo uma casa que o CNRT e a missão das Nações Unidas (a UNTAET) tinham destinado para instalar uma agência noticiosa com o apoio da agência portuguesa, a Lusa. Apesar do próprio Xanana já se ter deslocado a essa residência, os jovens não a abandonam e recusam-se a aceitar as credenciais passadas pela UNTAET. "Isso ainda vamos ter de negociar", diz-nos Francisco, um dos ocupantes. "É bom que não se esqueçam do papel que tivemos na luta pelo referendo e na campanha do referendo". Alguns dos membros do seu grupo foram mesmo mais longe e, durante uma visita do ministro-adjunto Armando Vara à casa em disputa, questionaram a própria legitimidade de Xanana e do CNRT, apresentados como "líderes de transição, provisórios". E se Francisco falou connosco em português - apesar de se exprimir com alguma dificuldade -, essa não é a regra do seu grupo, onde se prefere comunicar em inglês. Daí que não vejam com bons olhos a escolha do português. "A língua serve para duas coisas: para criar uma identidade nacional, e para comunicar" - explica Francisco. "Para a nossa identidade nacional temos o tetum; para comunicar o inglês é muito melhor". Naturalmente que não é essa a opinião do CNRT e de Xanana, que têm recordado que a independência e a identidade da metade oriental da ilha de Timor se devem, antes do mais, ao facto desta ter sido colonizada por Portugal e não pela Holanda (a potência colonizadora da Indonésia). Opção sobre a língua em Março Cuidadoso, Sérgio Vieira de Mello, o responsável pela missão das Nações Unidas, evita dar a sua opinião ("até porque essa é para mim uma questão difícil, como brasileiro"). Mesmo assim, conforme explicou ontem depois do encontro com Jorge Sampaio, uma decisão final sobre a língua oficial deverá ser tomada em Março (aliás Março está a tornar-se, aqui em Timor, no mês de todas as decisões e do arranque de todos os projectos). "A escolha da língua oficial é competência da comissão consultiva e deve ter em linha de conta o passado, mas também o passado recente" - explicou Sérgio Vieira de Mello. "A juventude formada sob administração indonésia não tem responsabilidade de ter aprendido a falar e a pensar em bahasa indonésio e é necessário ter em conta as suas expectativas. Por isso terá sempre de se definir um calendário, até porque vai ser necessário um grande esforço de formação". Esta parece ser a chave do problema. Uma fonte da Presidência da República, sublinhando sempre que essa "é uma questão timorense e não portuguesa", lembrou que se antes foi possível aos timorenses adaptarem-se ao bahasa indonésio, agora não há-de ser difícil aprenderem de novo o português. É preciso é que tenham condições para ter aulas. "Esta é uma questão política que depende da vontade política das novas autoridades timorenses" - sublinhou a mesma fonte. Na sua opinião a decisão está tomada e conta com o apoio da igreja católica. De resto, o bispo Ximenes Belo, durante o encontro que teve com Jorge Sampaio, terá expresso precisamente essa opinião, sublinhando que o que é necessário é começar a ensinar a língua e anunciado que ele próprio já começou a dar aulas de português aos seus seminaristas. Mas estará Portugal preparado para responder a todas estas solicitações e expectativas? Guilherme de Oliveira Martins, ministro da Educação, participou ontem em boa parte destes encontros e está por isso consciente daquilo que Timor espera de Portugal. Para já, a opção tomada é a de enviar formadores (vindos da Escola Superior de Educação de Setúbal) que trabalharão com os professores timorenses, ensinando-os a ensinar português. Uma opção que, em Timor-Leste, muitos temem ser insuficiente.

A ESE e Timor Lorosae Legitimidade de Xanana Gusmão contestada por causa da língua oficial Jovens Resistem ao Português

Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2000 Dos nossos enviados, José Manuel Fernandes e Adriano Miranda (fotos), em Díli Foi um dia de contactos oficiais destinados a estabelecer as fórmulas de cooperação de Portugal com Timor-Leste e com a missão das Nações Unidas. Como pano de fundo, uma preocupação: a da adopção do português como língua oficial, como é vontade de Xanana Gusmão e do CNRT. Mas há muitos jovens que não gostam da ideia e alguns deles até já contestam a legitimidade futura do líder da resistência, apresentado como "transitório". Xanana Gusmão não tem dúvidas: "A frente da educação é importantíssima para nós, quer pela necessidade de preservarmos a nossa identidade, quer como aposta estratégica na formação dos quadros do futuro. Ora o que pedimos a Portugal é que nesta área nos desse apoio exclusivo". Pouco depois de se encontrar com Jorge Sampaio, o presidente do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT) não podia ser mais claro. Timor necessita da ajuda de todos para as operações de manutenção de paz e para a reconstrução - mas prefere que venha de Portugal o apoio principal na área da educação. A razão é simples: se Timor vier a adoptar o português como língua oficial - tal como é desejo de Xanana e do CNRT - só Portugal está em condições de depois fornecer os necessários professores. A questão, no entanto, não é pacífica. "Estamos a enfrentar a resistência de uma fatia da população que cresceu e foi educada em bahasa indonésio" - disse ao PÚBLICO Xanana Gusmão. "São jovens que têm receio de perder as suas habilitações, os seus privilégios, mas estamos a trabalhar para os convencer. Quanto aos mais novos, aos que andam ainda na escola, esses não terão dificuldade. Os mais novos aprenderão facilmente". E os mais novos são muitos: 45 por cento da população de Timor-Leste tem menos de 14 anos. Jovens recusam devolver casa A resistência à adopção do português é protagonizada sobretudo pelos jovens que estudaram em inglês e indonésio, o que não os impediu de serem dos mais activos membros da resistência. Alguns desses jovens, membros de uma das redes estudantis clandestinas, a Impetu, ocupam mesmo uma casa que o CNRT e a missão das Nações Unidas (a UNTAET) tinham destinado para instalar uma agência noticiosa com o apoio da agência portuguesa, a Lusa. Apesar do próprio Xanana já se ter deslocado a essa residência, os jovens não a abandonam e recusam-se a aceitar as credenciais passadas pela UNTAET. "Isso ainda vamos ter de negociar", diz-nos Francisco, um dos ocupantes. "É bom que não se esqueçam do papel que tivemos na luta pelo referendo e na campanha do referendo". Alguns dos membros do seu grupo foram mesmo mais longe e, durante uma visita do ministro-adjunto Armando Vara à casa em disputa, questionaram a própria legitimidade de Xanana e do CNRT, apresentados como "líderes de transição, provisórios". E se Francisco falou connosco em português - apesar de se exprimir com alguma dificuldade -, essa não é a regra do seu grupo, onde se prefere comunicar em inglês. Daí que não vejam com bons olhos a escolha do português. "A língua serve para duas coisas: para criar uma identidade nacional, e para comunicar" - explica Francisco. "Para a nossa identidade nacional temos o tetum; para comunicar o inglês é muito melhor". Naturalmente que não é essa a opinião do CNRT e de Xanana, que têm recordado que a independência e a identidade da metade oriental da ilha de Timor se devem, antes do mais, ao facto desta ter sido colonizada por Portugal e não pela Holanda (a potência colonizadora da Indonésia). Opção sobre a língua em Março Cuidadoso, Sérgio Vieira de Mello, o responsável pela missão das Nações Unidas, evita dar a sua opinião ("até porque essa é para mim uma questão difícil, como brasileiro"). Mesmo assim, conforme explicou ontem depois do encontro com Jorge Sampaio, uma decisão final sobre a língua oficial deverá ser tomada em Março (aliás Março está a tornar-se, aqui em Timor, no mês de todas as decisões e do arranque de todos os projectos). "A escolha da língua oficial é competência da comissão consultiva e deve ter em linha de conta o passado, mas também o passado recente" - explicou Sérgio Vieira de Mello. "A juventude formada sob administração indonésia não tem responsabilidade de ter aprendido a falar e a pensar em bahasa indonésio e é necessário ter em conta as suas expectativas. Por isso terá sempre de se definir um calendário, até porque vai ser necessário um grande esforço de formação". Esta parece ser a chave do problema. Uma fonte da Presidência da República, sublinhando sempre que essa "é uma questão timorense e não portuguesa", lembrou que se antes foi possível aos timorenses adaptarem-se ao bahasa indonésio, agora não há-de ser difícil aprenderem de novo o português. É preciso é que tenham condições para ter aulas. "Esta é uma questão política que depende da vontade política das novas autoridades timorenses" - sublinhou a mesma fonte. Na sua opinião a decisão está tomada e conta com o apoio da igreja católica. De resto, o bispo Ximenes Belo, durante o encontro que teve com Jorge Sampaio, terá expresso precisamente essa opinião, sublinhando que o que é necessário é começar a ensinar a língua e anunciado que ele próprio já começou a dar aulas de português aos seus seminaristas. Mas estará Portugal preparado para responder a todas estas solicitações e expectativas? Guilherme de Oliveira Martins, ministro da Educação, participou ontem em boa parte destes encontros e está por isso consciente daquilo que Timor espera de Portugal. Para já, a opção tomada é a de enviar formadores (vindos da Escola Superior de Educação de Setúbal) que trabalharão com os professores timorenses, ensinando-os a ensinar português. Uma opção que, em Timor-Leste, muitos temem ser insuficiente.

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