Almodôvar
Câmara Fez Desaparecer Fax Comprometedor para Saleiro
Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2001
O presidente da Câmara Municipal de Almodôvar, Manuel Ribeiro, admitiu esta semana ao PÚBLICO que retirou de um processo camarário um fax que provava o recebimento por António Saleiro de dinheiro proveniente dos promotores chineses do Semblana Golfe, um empreendimento turístico que nunca passou do papel.
O fax em questão era dirigido ao então presidente da câmara, o agora deputado socialista António Saleiro, tinha data de 15 de Abril de 1994 - altura em que corria na câmara de Almodôvar o processo de licenciamento das infra-estruturas de urbanização do Semblana Golfe - e referia explicitamente o envio, em anexo, de quatro outros faxes, cujos originais seriam depois remetidos pelo correio. De acordo com o que constava do documento desaparecido - que o PÚBLICO consultou no processo camarário em Setembro de 1997 e que era subscrito por Lee Kwan Tak - os anexos reproduziam dois cheques que se destinavam "aos pagamentos devidos, conforme as cartas em anexo".
Na altura em que o PÚBLICO teve acesso ao processo do Semblana Golfe pela primeira vez, já lá não se encontrava senão a cópia de um cheque de 22 697 contos e a carta que explicava destinar-se esse montante ao "cumprimento do pagamento relativo a emissão do alvará e respectiva taxa de urbanização". A outra carta, igualmente dirigida a António Saleiro, e o outro cheque, cujo montante não era explicitado, já lá não se encontravam nessa ocasião, poucas semanas antes da publicação das notícias que deram origem à investigação da Polícia Judiciária sobre as actividades do ex-autarca.
Questionado sobre o assunto, Manuel Ribeiro declarou então que desconhecia por completo a finalidade daquele cheque e o teor da carta referida. Semanas depois, o autarca viria a afirmar que, afinal, o cheque e a carta se destinavam a António Saleiro e tinham a ver com o pagamento dos salários do caseiro dos chineses na herdade onde estava prevista a construção do Semblana Golfe.
Passados três anos, e depois de constatar nos autos do inquérito judicial às actividades de António Saleiro mandado arquivar recentemente pelo Ministério Público, que a Polícia Judiciária não fez qualquer investigação sobre aquela remessa de dinheiro ao antigo presidente da câmara, o PÚBLICO pediu novamente para consultar o processo de licenciamento do Semblana Golfe e encontrou a explicação da omissão da PJ: o fax que aludia ao envio do cheque e da carta tinham desaparecido do processo, posteriormente à consulta feita em Setembro de 1997. Actualmente só lá se encontra a carta - fax e original - relativa ao envio do cheque de 22 697 contos destinado às taxas de urbanização.
Confrontado com este facto, Manuel Ribeiro começou por hesitar. "Se cá estava alguma coisa relacionado com outras pessoas saiu daqui porque não tem que estar no processo", admitiu. Mas logo a seguir confirmou: "Esse papel foi retirado porque não fazia parte deste processo." Quanto ao destino que lhe foi dado, explicou depois: "Não tenho a certeza se o enviei para ele [António Saleiro] ou se o joguei fora, mas que esteve aqui esteve." Perante a observação de que a sua decisão tinha impedido que a Polícia Judiciária tomasse conhecimento de um documento comprometedor para o seu antecessor, o autarca repetiu o seu argumento: "Como o papel não tinha nada a ver com este processo, ou foi para quem de direito ou joguei-o fora".
O que falha nesta explicação é o facto de o fax eliminado ter igualmente a ver com o processo do Semblana Golfe, na medida em que aludia também ao envio do cheque recebido pela câmara para pagamento de um alvará que acabou por nunca ser emitido.
José António Cerejo
Almodôvar
Câmara Fez Desaparecer Fax Comprometedor para Saleiro
Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2001
O presidente da Câmara Municipal de Almodôvar, Manuel Ribeiro, admitiu esta semana ao PÚBLICO que retirou de um processo camarário um fax que provava o recebimento por António Saleiro de dinheiro proveniente dos promotores chineses do Semblana Golfe, um empreendimento turístico que nunca passou do papel.
O fax em questão era dirigido ao então presidente da câmara, o agora deputado socialista António Saleiro, tinha data de 15 de Abril de 1994 - altura em que corria na câmara de Almodôvar o processo de licenciamento das infra-estruturas de urbanização do Semblana Golfe - e referia explicitamente o envio, em anexo, de quatro outros faxes, cujos originais seriam depois remetidos pelo correio. De acordo com o que constava do documento desaparecido - que o PÚBLICO consultou no processo camarário em Setembro de 1997 e que era subscrito por Lee Kwan Tak - os anexos reproduziam dois cheques que se destinavam "aos pagamentos devidos, conforme as cartas em anexo".
Na altura em que o PÚBLICO teve acesso ao processo do Semblana Golfe pela primeira vez, já lá não se encontrava senão a cópia de um cheque de 22 697 contos e a carta que explicava destinar-se esse montante ao "cumprimento do pagamento relativo a emissão do alvará e respectiva taxa de urbanização". A outra carta, igualmente dirigida a António Saleiro, e o outro cheque, cujo montante não era explicitado, já lá não se encontravam nessa ocasião, poucas semanas antes da publicação das notícias que deram origem à investigação da Polícia Judiciária sobre as actividades do ex-autarca.
Questionado sobre o assunto, Manuel Ribeiro declarou então que desconhecia por completo a finalidade daquele cheque e o teor da carta referida. Semanas depois, o autarca viria a afirmar que, afinal, o cheque e a carta se destinavam a António Saleiro e tinham a ver com o pagamento dos salários do caseiro dos chineses na herdade onde estava prevista a construção do Semblana Golfe.
Passados três anos, e depois de constatar nos autos do inquérito judicial às actividades de António Saleiro mandado arquivar recentemente pelo Ministério Público, que a Polícia Judiciária não fez qualquer investigação sobre aquela remessa de dinheiro ao antigo presidente da câmara, o PÚBLICO pediu novamente para consultar o processo de licenciamento do Semblana Golfe e encontrou a explicação da omissão da PJ: o fax que aludia ao envio do cheque e da carta tinham desaparecido do processo, posteriormente à consulta feita em Setembro de 1997. Actualmente só lá se encontra a carta - fax e original - relativa ao envio do cheque de 22 697 contos destinado às taxas de urbanização.
Confrontado com este facto, Manuel Ribeiro começou por hesitar. "Se cá estava alguma coisa relacionado com outras pessoas saiu daqui porque não tem que estar no processo", admitiu. Mas logo a seguir confirmou: "Esse papel foi retirado porque não fazia parte deste processo." Quanto ao destino que lhe foi dado, explicou depois: "Não tenho a certeza se o enviei para ele [António Saleiro] ou se o joguei fora, mas que esteve aqui esteve." Perante a observação de que a sua decisão tinha impedido que a Polícia Judiciária tomasse conhecimento de um documento comprometedor para o seu antecessor, o autarca repetiu o seu argumento: "Como o papel não tinha nada a ver com este processo, ou foi para quem de direito ou joguei-o fora".
O que falha nesta explicação é o facto de o fax eliminado ter igualmente a ver com o processo do Semblana Golfe, na medida em que aludia também ao envio do cheque recebido pela câmara para pagamento de um alvará que acabou por nunca ser emitido.
José António Cerejo