Antes Morrer Que Esquecer
Por RUI CATALÃO
Sábado, 9 de Fevereiro de 2002
Escritos entre 1988 e 1994, os poemas deste livro brilham, não contra o passado, mas apesar do passado. "Paisagem com Inundação" é uma edição bilingue com tradução do russo e do inglês.
É uma curiosidade: em 1987, por ocasião da entrega do Nobel a Iosif Brodskii (ou Joseph Brodsky), o poeta irlandês Seamus Heaney escreveu um artigo em que aproximava a estética do laureado à do seu conterrâneo da era vitoriana Oscar Wilde. Pela forma como ambos assumiram que deveria ser "a vida a ser vivida de acordo com as exigências da arte e não o contrário", Heaney defendia que tanto o poeta russo como o dramaturgo irlandês escreviam "para dar ou para receber um choque de linguagem", partilhando também uma combinação de bravata estilística e inteligência belicosa, de alergia ao aborrecimento e de subversão dos clichés.
Embora a insistência de Heaney chegasse ao ponto de lhes comparar as provações biográficas do cárcere e do exílio, há um pormenor que demarca a perspectiva de ambos e que "Paisagem com Inundação" vem esclarecer. Escritos entre 1988 e 1994, os poemas deste livro brilham, não contra o passado, mas apesar do passado, recusando a complacência da perda no autor de "De Profundis". Mais ainda: a memória faz florescer o tempo perdido e a escrita brota dele, recusando a melancolia e o desespero. Num constante recurso a expressões e imagens banais, Brodskii assume a distância - "Queria que estivesses aqui comigo, querida" - mas não deixa que os acontecimentos, mesmo que dolorosos, o privem de relacionar-se ainda com o que se perdeu: "Que interesse tem esquecer / se se lhe segue morrer?" (em "Canção").
A ironia, perante a erosão do tempo, torna-se produtiva: "Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre - salvo talvez / numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre? / Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez / dos seus direitos".
Expulso da União Soviética em 1972, Iosif Brodskii acabou por optar pela nacionalidade americana em 1980, evitando a equívoca condição de exilado, que sempre lhe repugnou. Anos antes, já tinha começado a escrever poesia em inglês, não por necessidade profissional ou por ambição em integrar-se, mas para se sentir mais próximo de W.H. Auden, que considerava a maior inteligência do séc. XX (como explicou no ensaio "Para agradar a uma sombra"). De resto, foi com Auden que aprendeu a dar valor às elegias. Na primeira "Elegia" deste livro (assina duas), com apenas dois aforismos dá uma vassourada de consciência, tanto na geração dos russos brancos "emigrés" como na dos exilados políticos que os seguiram: "A constância é na sua essência a evolução do princípio da habitação / para o nível do pensamento" e "A evolução não é a adaptação / da espécie a um novo ambiente, mas o triunfo da memória / sobre a realidade".
Sem condescender com estratégias de escape ou da comiseração do abandono, o eu solitário de Brodski, como sugere ainda Heaney, "recusa as circunstâncias históricas de forma a possibilitar a liberdade e a singularidade". O que subsiste não é o pavonear de imagens transfiguradas, porque as coisas são como são, mas o sentimento de que, quanto mais confinado estiver o poeta nos recantos para onde o enfiaram, melhor se expressa à sua frente a comoção da eternidade.
A espantosa, e paradoxal, verticalidade desta postura está em que as "tramóias" são reconduzidas à sua mediocridade, mesmo deixando um rasto de destruição, enquanto os momentos, os gestos e as expressões que prevalecem na memória sobem a um altar, que prevalece, das coisas sem importância. Talvez por isso seja tão insidioso o poema "Um Postal de Lisboa", ao propor "monumentos a eventos que nunca se deram". Da mesma forma, as instituições são feitas para serem traídas, em nome de uma fidelidade mais íntima: "E se fosses a minha mulher, era o teu amante, / porque a Igreja ao divórcio se opõe firmemente."
Antes Morrer Que Esquecer
Por RUI CATALÃO
Sábado, 9 de Fevereiro de 2002
Escritos entre 1988 e 1994, os poemas deste livro brilham, não contra o passado, mas apesar do passado. "Paisagem com Inundação" é uma edição bilingue com tradução do russo e do inglês.
É uma curiosidade: em 1987, por ocasião da entrega do Nobel a Iosif Brodskii (ou Joseph Brodsky), o poeta irlandês Seamus Heaney escreveu um artigo em que aproximava a estética do laureado à do seu conterrâneo da era vitoriana Oscar Wilde. Pela forma como ambos assumiram que deveria ser "a vida a ser vivida de acordo com as exigências da arte e não o contrário", Heaney defendia que tanto o poeta russo como o dramaturgo irlandês escreviam "para dar ou para receber um choque de linguagem", partilhando também uma combinação de bravata estilística e inteligência belicosa, de alergia ao aborrecimento e de subversão dos clichés.
Embora a insistência de Heaney chegasse ao ponto de lhes comparar as provações biográficas do cárcere e do exílio, há um pormenor que demarca a perspectiva de ambos e que "Paisagem com Inundação" vem esclarecer. Escritos entre 1988 e 1994, os poemas deste livro brilham, não contra o passado, mas apesar do passado, recusando a complacência da perda no autor de "De Profundis". Mais ainda: a memória faz florescer o tempo perdido e a escrita brota dele, recusando a melancolia e o desespero. Num constante recurso a expressões e imagens banais, Brodskii assume a distância - "Queria que estivesses aqui comigo, querida" - mas não deixa que os acontecimentos, mesmo que dolorosos, o privem de relacionar-se ainda com o que se perdeu: "Que interesse tem esquecer / se se lhe segue morrer?" (em "Canção").
A ironia, perante a erosão do tempo, torna-se produtiva: "Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre - salvo talvez / numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre? / Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez / dos seus direitos".
Expulso da União Soviética em 1972, Iosif Brodskii acabou por optar pela nacionalidade americana em 1980, evitando a equívoca condição de exilado, que sempre lhe repugnou. Anos antes, já tinha começado a escrever poesia em inglês, não por necessidade profissional ou por ambição em integrar-se, mas para se sentir mais próximo de W.H. Auden, que considerava a maior inteligência do séc. XX (como explicou no ensaio "Para agradar a uma sombra"). De resto, foi com Auden que aprendeu a dar valor às elegias. Na primeira "Elegia" deste livro (assina duas), com apenas dois aforismos dá uma vassourada de consciência, tanto na geração dos russos brancos "emigrés" como na dos exilados políticos que os seguiram: "A constância é na sua essência a evolução do princípio da habitação / para o nível do pensamento" e "A evolução não é a adaptação / da espécie a um novo ambiente, mas o triunfo da memória / sobre a realidade".
Sem condescender com estratégias de escape ou da comiseração do abandono, o eu solitário de Brodski, como sugere ainda Heaney, "recusa as circunstâncias históricas de forma a possibilitar a liberdade e a singularidade". O que subsiste não é o pavonear de imagens transfiguradas, porque as coisas são como são, mas o sentimento de que, quanto mais confinado estiver o poeta nos recantos para onde o enfiaram, melhor se expressa à sua frente a comoção da eternidade.
A espantosa, e paradoxal, verticalidade desta postura está em que as "tramóias" são reconduzidas à sua mediocridade, mesmo deixando um rasto de destruição, enquanto os momentos, os gestos e as expressões que prevalecem na memória sobem a um altar, que prevalece, das coisas sem importância. Talvez por isso seja tão insidioso o poema "Um Postal de Lisboa", ao propor "monumentos a eventos que nunca se deram". Da mesma forma, as instituições são feitas para serem traídas, em nome de uma fidelidade mais íntima: "E se fosses a minha mulher, era o teu amante, / porque a Igreja ao divórcio se opõe firmemente."