A Encomenda do Festival
Por RUI PEREIRA
Sábado, 28 de Julho de 2001 Quem esteve presente no Salão D'Ouro do Casino da Póvoa na passada segunda-feira teve a oportunidade de assistir ao momento único que é a criação de uma obra. Se a música, ao contrário de outras artes, representa sempre um instante singular e irrepetível, a primeira audição mundial de uma obra tem um impacte completamente diferente no ouvinte. Longe de quaisquer referências interpretativas, ele constrói a sua própria memória do instante mesmo que por vezes recorra a lugares de referência comuns. "Quatro ou cinco movimentos fugidios da água" para trio de clarinete, violoncelo e piano, de António Pinho Vargas, foi uma encomenda do Festival Internacional de Música da Póvoa do Varzim. Ao longo dessa primeira audição fui acompanhando o mundo sonoro criado por Pinho Vargas e, depois daquele que foi, a meu ver, o primeiro movimento desta peça, segui-a com profunda emoção. Não posso afirmar que recorra a técnicas de composição completamente inovadoras nem pretendo tão pouco rotulá-la, mas esta é uma obra de escrita consistente e muito bonita. No início foi explorada a ilusão tímbrica em notas longas, ocultando o transitório de ataque dos instrumentos e prolongando sons que se escondiam uns nos outros. De notas um pouco estáticas passaram a notas animadas por oscilação e diferentes articulações, variando assim o ritmo da música e a sua mobilidade. A textura da peça alterou-se e deu lugar a figurações rítmicas agitadas, assim como a mudanças de dinâmica que subtilmente fizeram avançar a música. Sob um "ostinato" do piano, o clarinete e o violoncelo tiveram momentos de maior lirismo e seguiam já num outro movimento que conduziu a um final comovente, com a exploração de recursos tímbricos menos óbvios. Quanto aos músicos, eles foram notáveis. Quem já ouviu António Saiote, Jed Barahal e António Rosado sabe que eles são bons músicos e quem nunca os ouviu é bom que esteja atento para ver quando tocam outra vez. O concerto começou com "Mambo", do compositor dinamarquês Bent Lorentzen. Esta foi uma música muito ritmada mas com pouco balanço, lembrando mais o frio da Dinamarca que o calor da América Latina. Já "J.H.", para violoncelo e clarinete, de Luís de Pablo, compositor catalão, mudou completamente a atmosfera da sala. Foram fantásticas as sonoridades produzidas por António Saiote e Jed Barahal, e muito bem conseguidas as fusões tímbricas. Barahal, no violoncelo, é possuidor de uma pulsação interior muito forte, importantíssima para assegurar a linha geral de qualquer obra, e um belo som. O clarinete de António Saiote manifesta um refinado bom gosto, cheio de carácter, que sabe transmitir ao mais pequeno fraseio. No piano, António Rosado é senhor de um pianismo expressivo e atento aos detalhes sem nunca explorar falsos protagonismos. Essa foi mesmo uma das qualidades do grupo que ficou demonstrada no Trio Op. 114, de Brahms, que interpretaram na segunda parte. EM RESUMO Pinho Vargas "Quatro ou cinco movimentos fugidios da água", de António Pinho Vargas, é uma obra de escrita consistente e muito bonita XXIII Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim
Obras de António Pinho Vargas, Luís de Pablo, Bent Lorentzen e Brahms
Por António Saiote (clarinete), Jed Barahal (violoncelo) e António Rosado (piano)
Salão D'Ouro do Casino da Póvoa, 23 de Julho
Lotação esgotada
OUTROS TÍTULOS EM CULTURA Divara é uma ópera estremecedora
Saramago lamenta indiferença da Porto 2001
Sete portugueses em Veneza
Kalinka, o mistério da voz
Avanca 2001 com lotação esgotada
Um filme de animação em três dias e Jaco Van Dormael
Arte nas urgências
Sugestões do dia
CRÍTICA DE MÚSICA
A encomenda do festival
Categorias
Entidades
A Encomenda do Festival
Por RUI PEREIRA
Sábado, 28 de Julho de 2001 Quem esteve presente no Salão D'Ouro do Casino da Póvoa na passada segunda-feira teve a oportunidade de assistir ao momento único que é a criação de uma obra. Se a música, ao contrário de outras artes, representa sempre um instante singular e irrepetível, a primeira audição mundial de uma obra tem um impacte completamente diferente no ouvinte. Longe de quaisquer referências interpretativas, ele constrói a sua própria memória do instante mesmo que por vezes recorra a lugares de referência comuns. "Quatro ou cinco movimentos fugidios da água" para trio de clarinete, violoncelo e piano, de António Pinho Vargas, foi uma encomenda do Festival Internacional de Música da Póvoa do Varzim. Ao longo dessa primeira audição fui acompanhando o mundo sonoro criado por Pinho Vargas e, depois daquele que foi, a meu ver, o primeiro movimento desta peça, segui-a com profunda emoção. Não posso afirmar que recorra a técnicas de composição completamente inovadoras nem pretendo tão pouco rotulá-la, mas esta é uma obra de escrita consistente e muito bonita. No início foi explorada a ilusão tímbrica em notas longas, ocultando o transitório de ataque dos instrumentos e prolongando sons que se escondiam uns nos outros. De notas um pouco estáticas passaram a notas animadas por oscilação e diferentes articulações, variando assim o ritmo da música e a sua mobilidade. A textura da peça alterou-se e deu lugar a figurações rítmicas agitadas, assim como a mudanças de dinâmica que subtilmente fizeram avançar a música. Sob um "ostinato" do piano, o clarinete e o violoncelo tiveram momentos de maior lirismo e seguiam já num outro movimento que conduziu a um final comovente, com a exploração de recursos tímbricos menos óbvios. Quanto aos músicos, eles foram notáveis. Quem já ouviu António Saiote, Jed Barahal e António Rosado sabe que eles são bons músicos e quem nunca os ouviu é bom que esteja atento para ver quando tocam outra vez. O concerto começou com "Mambo", do compositor dinamarquês Bent Lorentzen. Esta foi uma música muito ritmada mas com pouco balanço, lembrando mais o frio da Dinamarca que o calor da América Latina. Já "J.H.", para violoncelo e clarinete, de Luís de Pablo, compositor catalão, mudou completamente a atmosfera da sala. Foram fantásticas as sonoridades produzidas por António Saiote e Jed Barahal, e muito bem conseguidas as fusões tímbricas. Barahal, no violoncelo, é possuidor de uma pulsação interior muito forte, importantíssima para assegurar a linha geral de qualquer obra, e um belo som. O clarinete de António Saiote manifesta um refinado bom gosto, cheio de carácter, que sabe transmitir ao mais pequeno fraseio. No piano, António Rosado é senhor de um pianismo expressivo e atento aos detalhes sem nunca explorar falsos protagonismos. Essa foi mesmo uma das qualidades do grupo que ficou demonstrada no Trio Op. 114, de Brahms, que interpretaram na segunda parte. EM RESUMO Pinho Vargas "Quatro ou cinco movimentos fugidios da água", de António Pinho Vargas, é uma obra de escrita consistente e muito bonita XXIII Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim
Obras de António Pinho Vargas, Luís de Pablo, Bent Lorentzen e Brahms
Por António Saiote (clarinete), Jed Barahal (violoncelo) e António Rosado (piano)
Salão D'Ouro do Casino da Póvoa, 23 de Julho
Lotação esgotada
OUTROS TÍTULOS EM CULTURA Divara é uma ópera estremecedora
Saramago lamenta indiferença da Porto 2001
Sete portugueses em Veneza
Kalinka, o mistério da voz
Avanca 2001 com lotação esgotada
Um filme de animação em três dias e Jaco Van Dormael
Arte nas urgências
Sugestões do dia
CRÍTICA DE MÚSICA
A encomenda do festival