A vida atribulada de Ângela Vidal, uma rebelde com causas

19-02-2001
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A Vida Atribulada de Ângela Vidal, Uma Rebelde com Causas

Por ANTÓNIO MELO

Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2001 Memórias vivas na Livraria Ler Devagar Transgrediu com a moral burguesa. Passou-se para o "outro lado", em nome da moral social. Entrou na clandestinidade, de onde começa a sair, agora, aos 74 anos. Ângela Vidal tem 74 anos, sete deles passados na prisão e outros três em regime de liberdade condicionada. Tudo por ter acreditado que "cada fio de vontade são dois braços/ e cada braço uma alavanca". Ao vê-la, no seu reduzido metro e meio, peso pluma de onde sobressai a fisionomia de um rosto regular, com uns olhos negros saltitantes, os versos de José Gomes Ferreira tomam expressão real. O mais recente serão da livraria Ler Devagar (ao Bairro Alto, em Lisboa) pertenceu-lhe por inteiro. No final, no calor das palmas, insistiu em repartir os aplausos com as "mulheres do Couço" da sua geração, de onde lhe vinha a "força colectiva dos sem nome". Estava destinada a ser a menina prendada de uma família nortenha de ascendência rural, que a proclamação republicana empurrou para a burguesia portuense. O pai, figura emblemática no seu imaginário, onde amor e mágoa se conjugam do mesmo modo, foi a primeira projecção do seu carácter rebelde. Se ele sofrera ao ser enviado da quinta paterna para Tondela como marçano, por se ter recusado a ir para o seminário, devia compreender que também ela não aceitava a disciplina rígida que exigia "as mulheres em casa, senão tornam-se vadias" - citando Agustina Bessa Luís. Vamos por partes. Relutante, o abastado comerciante de lanifícios, com porta aberta para a Rua de Santa Catarina, até aceitava as saídas nocturnas da filha, desde que fossem para aprofundar o inglês no Instituto Britânico. A cidade era pequena e ele podia saber, ao pormenor, os dias (melhor dito, as noites) em que a filha, de chapéuzinho atrevido se escapulia, com a prima, numa ida à Foz, antes de regressar a casa. Confiou demais o comerciante. O ambiente de uma sociedade que se regia por uma moral, onde o pai, ateu e anticlerical, convivia com a mais pura beatice católica de uma madrasta que em jovem fora espírita convicta, asfixiava-a. Na memória ficou-lhe gravada a chegada do pai depois do comício que saudou no Porto a vitória aliada sobre o nazi-fascismo em 1945 - "vinha rouco de emoção". Tinha 19 anos e, à sua maneira, radical, celebrou a libertação. Por essa altura já ela fazia parte do Movimento de Unidade Antifascista (MUNAF), onde as afinidades electivas a levaram a tornar-se amiga de Maria Natália Azevedo. Foi ela quem a contactou para entrar para o partido comunista. Estávamos em 1945/6 e foi-lhe destinada a tarefa de apoio às casas clandestinas do secretariado nacional. Desse tempo eufórico, em que a vitória se conjugava em inglês e o futuro se desenhava com uma foice e martelo, resultou uma ligação sentimental que perdeu o nome. Mas o companheiro era um oportunista e quando se deu conta que a vitória era um sonho, cometeu uma acção feia: entregou-se à polícia política (PIDE) e denunciou os camaradas. Estaria ela entre os denunciados? É mais que provável. Mas cerrou os lábios e nem uma palavra deles saiu quando em 1953 foi trazida pela PIDE de Albufeira para Caxias. Foi "tratada" por três inspectores que deixaram (má) fama na secreta corporação. O Gouveia, "brutal", prometeu-lhe bofetadas. Tinoco, "untuoso", aconselhou-a a falar, "para seu bem". Rosa Casaco, "o fotógrafo" perdeu a paciência porque na sessão em que lhe fizeram a fixa antropométrica, não parava de agitar a cabeça. Mas acabou por ser ele o último a rir - quando a cabeça se imobilizou de fadiga, recolheu as fotos. Mas nunca falou aos esbirros de Salazar, nem para lhes dizer o nome. O pai soube que ela era comunista e tomou isso como uma ofensa pessoal. Uma vez por ano, "talvez nem tanto", visitava-a em Caxias. Perguntou-lhe o que precisava e ela, atendendo aos anos de condenação, disse-lhe que o mais importante era receber notícias do exterior. O pai garantiu-lhe, diariamente, a assinatura do "Primeiro de Janeiro". Foi por ele que soube do XX Congresso e da denúncia do estalinismo (1956). Foi também por ele que soube da intervenção dos tanques soviéticos em Budapeste, em Novembro desse mesmo ano, às ordens do homem que anunciara o fim do terror estalinista. Saiu da cadeia em 1961 e rompeu com o PCP em 1964, mas nunca divulgou as razões dessa ruptura: "Estávamos no fascismo e eu estava sozinha". Na Ler Devagar principiou a levantar esse véu. OUTROS TÍTULOS EM ÚLTIMA PÁGINA A vida atribulada de Ângela Vidal, uma rebelde com causas

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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2001 Memórias vivas na Livraria Ler Devagar Transgrediu com a moral burguesa. Passou-se para o "outro lado", em nome da moral social. Entrou na clandestinidade, de onde começa a sair, agora, aos 74 anos. Ângela Vidal tem 74 anos, sete deles passados na prisão e outros três em regime de liberdade condicionada. Tudo por ter acreditado que "cada fio de vontade são dois braços/ e cada braço uma alavanca". Ao vê-la, no seu reduzido metro e meio, peso pluma de onde sobressai a fisionomia de um rosto regular, com uns olhos negros saltitantes, os versos de José Gomes Ferreira tomam expressão real. O mais recente serão da livraria Ler Devagar (ao Bairro Alto, em Lisboa) pertenceu-lhe por inteiro. No final, no calor das palmas, insistiu em repartir os aplausos com as "mulheres do Couço" da sua geração, de onde lhe vinha a "força colectiva dos sem nome". Estava destinada a ser a menina prendada de uma família nortenha de ascendência rural, que a proclamação republicana empurrou para a burguesia portuense. O pai, figura emblemática no seu imaginário, onde amor e mágoa se conjugam do mesmo modo, foi a primeira projecção do seu carácter rebelde. Se ele sofrera ao ser enviado da quinta paterna para Tondela como marçano, por se ter recusado a ir para o seminário, devia compreender que também ela não aceitava a disciplina rígida que exigia "as mulheres em casa, senão tornam-se vadias" - citando Agustina Bessa Luís. Vamos por partes. Relutante, o abastado comerciante de lanifícios, com porta aberta para a Rua de Santa Catarina, até aceitava as saídas nocturnas da filha, desde que fossem para aprofundar o inglês no Instituto Britânico. A cidade era pequena e ele podia saber, ao pormenor, os dias (melhor dito, as noites) em que a filha, de chapéuzinho atrevido se escapulia, com a prima, numa ida à Foz, antes de regressar a casa. Confiou demais o comerciante. O ambiente de uma sociedade que se regia por uma moral, onde o pai, ateu e anticlerical, convivia com a mais pura beatice católica de uma madrasta que em jovem fora espírita convicta, asfixiava-a. Na memória ficou-lhe gravada a chegada do pai depois do comício que saudou no Porto a vitória aliada sobre o nazi-fascismo em 1945 - "vinha rouco de emoção". Tinha 19 anos e, à sua maneira, radical, celebrou a libertação. Por essa altura já ela fazia parte do Movimento de Unidade Antifascista (MUNAF), onde as afinidades electivas a levaram a tornar-se amiga de Maria Natália Azevedo. Foi ela quem a contactou para entrar para o partido comunista. Estávamos em 1945/6 e foi-lhe destinada a tarefa de apoio às casas clandestinas do secretariado nacional. Desse tempo eufórico, em que a vitória se conjugava em inglês e o futuro se desenhava com uma foice e martelo, resultou uma ligação sentimental que perdeu o nome. Mas o companheiro era um oportunista e quando se deu conta que a vitória era um sonho, cometeu uma acção feia: entregou-se à polícia política (PIDE) e denunciou os camaradas. Estaria ela entre os denunciados? É mais que provável. Mas cerrou os lábios e nem uma palavra deles saiu quando em 1953 foi trazida pela PIDE de Albufeira para Caxias. Foi "tratada" por três inspectores que deixaram (má) fama na secreta corporação. O Gouveia, "brutal", prometeu-lhe bofetadas. Tinoco, "untuoso", aconselhou-a a falar, "para seu bem". Rosa Casaco, "o fotógrafo" perdeu a paciência porque na sessão em que lhe fizeram a fixa antropométrica, não parava de agitar a cabeça. Mas acabou por ser ele o último a rir - quando a cabeça se imobilizou de fadiga, recolheu as fotos. Mas nunca falou aos esbirros de Salazar, nem para lhes dizer o nome. O pai soube que ela era comunista e tomou isso como uma ofensa pessoal. Uma vez por ano, "talvez nem tanto", visitava-a em Caxias. Perguntou-lhe o que precisava e ela, atendendo aos anos de condenação, disse-lhe que o mais importante era receber notícias do exterior. O pai garantiu-lhe, diariamente, a assinatura do "Primeiro de Janeiro". Foi por ele que soube do XX Congresso e da denúncia do estalinismo (1956). Foi também por ele que soube da intervenção dos tanques soviéticos em Budapeste, em Novembro desse mesmo ano, às ordens do homem que anunciara o fim do terror estalinista. Saiu da cadeia em 1961 e rompeu com o PCP em 1964, mas nunca divulgou as razões dessa ruptura: "Estávamos no fascismo e eu estava sozinha". Na Ler Devagar principiou a levantar esse véu. OUTROS TÍTULOS EM ÚLTIMA PÁGINA A vida atribulada de Ângela Vidal, uma rebelde com causas

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