Defesas Corta Vicente
Apesar de somar 62 anos, a dupla Fernando Couto/Jorge Costa, deverá ser a escolhida por Oliveira para defender a cabeça da grande área portuguesa, na Coreia do Sul, tarefa que no Mundial de 66, em Inglaterra, foi desempenhada com eficiência pelo belenense Vicente.
Texto de Henrique Monteiro ASF O moçambicano Vicente, envergando a camisola azul com a Cruz de Cristo, disputa um lance com o angolano e benfiquista José Águas A intelectualidade, nomeadamente a cinéfila, poderá pensar que a expressão «Corta Vicente!» seria uma espécie de ordem dada a Vicente Jorge Silva nos tempos em que o ex-jornalista e actual deputado fez incursões pelo cinema. Mas houve uma época em que o mais famoso Vicente de Portugal foi um moçambicano, defesa do Belenenses e da Selecção Nacional; o homem que no glorioso ano de 1966 mais bolas roubou aos adversários dos «magriços», cognome com que passaram à História os seleccionados portugueses para o Mundial de Inglaterra. A intelectualidade, nomeadamente a cinéfila, poderá pensar que a expressão «Corta Vicente!» seria uma espécie de ordem dada a Vicente Jorge Silva nos tempos em que o ex-jornalista e actual deputado fez incursões pelo cinema. Mas houve uma época em que o mais famoso Vicente de Portugal foi um moçambicano, defesa do Belenenses e da Selecção Nacional; o homem que no glorioso ano de 1966 mais bolas roubou aos adversários dos «magriços», cognome com que passaram à História os seleccionados portugueses para o Mundial de Inglaterra. Na altura, ainda a televisão era a preto e branco e de som roufenho, brilhavam os radialistas (Alves dos Santos, Artur Agostinho), relatadores de futebol que falavam à velocidade de umas 20 palavras por segundo. No meio da ansiosa algaraviada, o tom subindo do rouco para o agudo, as palavras mais e mais embrulhadas, que correspondia ao ataque dos nossos adversários, lá respirava fundo o país quando o enviado especial ao Mundial de Inglaterra, gritava, ele também aliviado: «Corta Vicente para o lado da bancada!» Há 36 anos o futebol era diferente e talvez fosse mais básico. Um defesa defendia, um atacante atacava e um médio ligava os dois sectores. Vicente, irmão do também famoso Matateu (Sebastião Lucas Fonseca), era, na verdade, um quarto defesa, ou uma espécie de médio defensivo mais recuado, que tinha por função essencial destruir as ofensivas, tal como o seu companheiro, Alexandre Baptista, do Sporting, ou Germano, do Benfica. Juntamente com os laterais, Hilário e Morais, leões de méritos firmados, providenciavam de modo a que o inimigo não criasse perigo nas nossas redes. Lá para frente, já se sabe, Simões, Torres, José Augusto e esse génio que era Eusébio (tudo rapaziada da altura em que o clube das águias era o maior) se encarregariam de fazer aos outros o que não gostávamos que nos fizessem. Eu não sei se Vicente foi o melhor defesa de sempre da nossa selecção, embora ele tenha marcado e anulado exemplarmente o melhor avançado de todas as épocas: Pelé. Sei apenas que mais nenhum ficou com o nome ligado à palavra corta. Nunca se exclamou «corta Baptista!», «corta Humberto!», «corta Eurico!» ou «corta Couto!». E sei que os defesas são, no geral, injustiçados. Valem menos, recebem menos e são menos idolatrados do que os avançados e os médios. Por muito bons que sejam - como o são Fernando Couto, Jorge Costa e Beto - nunca chegam aos píncaros da glória, já não digo de um Eusébio ou de um Figo, mas mesmo de um Rui Costa, de um João Pinto ou mesmo de um Nuno Gomes. O defesa é, por definição, um jogador em quem se repara muito mais quando comete erros. Mas o futebol foi mudando. E, felizmente para os defesas, as novas tácticas permitem-lhes marcar golos ou fazer assistências para golos. Em certo sentido, valorizaram-se. Os centrais sobem, nos livres e nos cantos, e disputam, de cabeça, a explosão de um golo. Os laterais correm pelas respectivas faixas, centram e disparam. Quando já se vê um ponta-de-lança a cortar bolas junto à sua grande área, tem-se a prova de que as posições deixaram de ser fixas, à medida que o futebol se tornou mais elaborado. Neste Mundial de 2002, Portugal tem excelentes defesas. Não só a dupla de centrais Fernando Couto/Jorge Costa, mas ainda Beto, Jorge Andrade e, se necessário, Fernando Meira, como também os laterais Abel Xavier e Rui Jorge e ainda Mário Silva, Caneira ou Frechaut. E, como no futebol moderno não são só os defesas que defendem, há ainda que contar com os trincos - Petit, Paulo Sousa, Costinha, Vidigal e Paulo Bento - e, se a aflição for de monta, até Figo, João Pinto e quem mais houver, são homens para tirar a bola da nossa área. Vicente tem uma história trágica. Logo após o Mundial de 1966 ficou cego de um olho, devido a um acidente de automóvel, e nunca mais pôde jogar. Tinha 31 anos e desde então vive modestamente, ainda e sempre ligado ao seu Belenenses. Tornou-se num mito, sem nunca ter sido um ídolo. Numa época em que pouco se ganhava, em que a publicidade não ocupava as camisolas dos jogadores (e menos a roupa interior), em que se permanecia anos ou décadas ao serviço do mesmo clube, ninguém ganhou dinheiro a sério com o futebol (ele arrecadou 90 contos com o Mundial, mais 60 por usar botas Adidas). Porém, nestas páginas dedicadas aos defesas da nossa Selecção, é justo que todos aqueles que conhecem a frase feita «Corta Vicente», saibam que esse Vicente é Vicente Lucas, talvez um dos jogadores mais correctos do futebol português, que entrava às bolas com pés de veludo e tinha pavor em magoar um adversário. E resta a esperança que, em Junho, quando estivermos a ouvir os comentadores da televisão (agora a cores e em estereofonia) a relatar os jogos da equipa nacional, perante os ataques adversários tenhamos aquele imenso alívio que, em 1966, sentíamos quando alguém gritava: «Corta Vicente!» E que ele, agora com 66 anos, possa também ter essa alegria. 10
As opções de Oliveira Frechaut, 24 anos FOTOGRAFIAS LUSA Pensava que era uma brincadeira de Jaime Pacheco, quando este, há um ano, o informou que fora convocado para o jogo na Irlanda. Desde então, foi sempre chamado por Oliveira, ficando pela primeira vez de fora na convocatória com o Brasil. Adaptado a defesa-direito no Boavista por lesão do titular Rui Óscar, beneficiou da crise de laterais que marca o nosso futebol e das exibições da sua equipa de que se tornou uma das referências. Apesar desta última dispensa, discutirá com Abel Xavier a titularidade, ele que, consciente das suas fragilidades, já reconheceu que não se sentia como primeira opção. No amigável com a Espanha, Munitis pôs-lhe a cabeça à roda e no naufrágio colectivo com a Finlândia foi dos primeiros a «meter água». Pensava que era uma brincadeira de Jaime Pacheco, quando este, há um ano, o informou que fora convocado para o jogo na Irlanda. Desde então, foi sempre chamado por Oliveira, ficando pela primeira vez de fora na convocatória com o Brasil. Adaptado a defesa-direito no Boavista por lesão do titular Rui Óscar, beneficiou da crise de laterais que marca o nosso futebol e das exibições da sua equipa de que se tornou uma das referências. Apesar desta última dispensa, discutirá com Abel Xavier a titularidade, ele que, consciente das suas fragilidades, já reconheceu que não se sentia como primeira opção. No amigável com a Espanha, Munitis pôs-lhe a cabeça à roda e no naufrágio colectivo com a Finlândia foi dos primeiros a «meter água». Jorge Costa, 30
Fernando Couto, 32 anos Uma imparável dupla, para «dar e durar» como diz Oliveira. O «capitão», recordista absoluto de internacionalizações (82) e o seu dedicado companheiro, dois símbolos do espírito guerreiro da selecção. A sua raça, paixão e mística tornam esta sociedade ítalo-saxónica Couto & Costa, imprescindível na equipa. A opção de Oliveira pela experiência, apostando na dupla de centrais, que, com mais de 60 anos, será porventura a menos fresca da fase final, contém perigos e riscos e poderá ser pretexto de críticas se as coisas correrem mal. Em nome da selecção, Costa (foto à esquerda) aceitou exilar-se no modesto Charlton e ganhou o desafio da titularidade. Couto (foto à direita) não se deixou abater pelo trauma da nandrolona e regressou ao seu posto na Lazio. Nos dois casos, contaram com a sincera solidariedade de Oliveira. Este sabe que pode contar com eles. Uma imparável dupla, para «dar e durar» como diz Oliveira. O «capitão», recordista absoluto de internacionalizações (82) e o seu dedicado companheiro, dois símbolos do espírito guerreiro da selecção. A sua raça, paixão e mística tornam esta sociedade ítalo-saxónica Couto & Costa, imprescindível na equipa. A opção de Oliveira pela experiência, apostando na dupla de centrais, que, com mais de 60 anos, será porventura a menos fresca da fase final, contém perigos e riscos e poderá ser pretexto de críticas se as coisas correrem mal. Em nome da selecção, Costa (foto à esquerda) aceitou exilar-se no modesto Charlton e ganhou o desafio da titularidade. Couto (foto à direita) não se deixou abater pelo trauma da nandrolona e regressou ao seu posto na Lazio. Nos dois casos, contaram com a sincera solidariedade de Oliveira. Este sabe que pode contar com eles. Abel Xavier, 29 anos Quem alinha no Liverpool, até marca golos - como sucedeu na sua estreia frente ao Ipswich e recentemente ao Bayer Leverkusen -, e tem uma experiência de selecção de oito anos é, seguramente, um forte candidato a titular. Depois da penosa suspensão devido aos incidentes na meia-final do Euro 2000 e de lesões que condicionaram o seu rendimento, poderá estar a caminho da melhor forma. É precioso no jogo aéreo, é bom de pés, e a sua figura de «viking» pode servir para intimidar os adversários. Aliás, numa votação promovida por um «site» inglês de futebol, foi considerado o quarto jogador mais feio da Premier League, ele que é apontado pelos estilistas como um belo exemplar para desfilar nas «passerelles». Depois do futebol, tem na moda uma carreira garantida. Quem alinha no Liverpool, até marca golos - como sucedeu na sua estreia frente ao Ipswich e recentemente ao Bayer Leverkusen -, e tem uma experiência de selecção de oito anos é, seguramente, um forte candidato a titular. Depois da penosa suspensão devido aos incidentes na meia-final do Euro 2000 e de lesões que condicionaram o seu rendimento, poderá estar a caminho da melhor forma. É precioso no jogo aéreo, é bom de pés, e a sua figura de «viking» pode servir para intimidar os adversários. Aliás, numa votação promovida por um «site» inglês de futebol, foi considerado o quarto jogador mais feio da Premier League, ele que é apontado pelos estilistas como um belo exemplar para desfilar nas «passerelles». Depois do futebol, tem na moda uma carreira garantida. Rui Jorge, 29 anos Carlos Alberto Silva, o treinador que o lançou no FC Porto, classificou-o recentemente como «um dos melhores laterais do mundo». Mas a verdade é que a falta de rivais pela crise de valores no seu posto é que lhe garante um lugar cativo no onze inicial. Do lado esquerdo da defesa, o seleccionador não tem dúvidas. Dimas, que voltara a ser chamado para o jogo com a Espanha depois de um jejum de 15 meses, poderia fazer-lhe sombra, mas a sua carreira cada vez mais irregular no Marselha faz dele uma carta fora deste baralho. Concluiu-se agora que o negócio, entre as Antas e Alvalade, que conduziu Rui Jorge e Bino para Lisboa por troca com Peixe e Costinha foi mais proveitoso para o Sporting. Carlos Alberto Silva, o treinador que o lançou no FC Porto, classificou-o recentemente como «um dos melhores laterais do mundo». Mas a verdade é que a falta de rivais pela crise de valores no seu posto é que lhe garante um lugar cativo no onze inicial. Do lado esquerdo da defesa, o seleccionador não tem dúvidas. Dimas, que voltara a ser chamado para o jogo com a Espanha depois de um jejum de 15 meses, poderia fazer-lhe sombra, mas a sua carreira cada vez mais irregular no Marselha faz dele uma carta fora deste baralho. Concluiu-se agora que o negócio, entre as Antas e Alvalade, que conduziu Rui Jorge e Bino para Lisboa por troca com Peixe e Costinha foi mais proveitoso para o Sporting. Jorge Andrade, 24 anos
e Beto, 26 anos A dupla alternativa e da nova vaga. Mais elegante, mais tecnicista, talvez menos eficaz, Roberto/Beto tem um dos «sites» mais atraentes e sofisticados do nosso futebol, (Beto22.com) já foi dado como certo no Real Madrid e o seu passe foi incluído no fundo de investimento que reúne os jogadores mais valiosos do Sporting. Não foi convocado para o amigável com o Brasil, mas seria uma surpresa se o seu nome não figurasse entre os eleitos para a fase final. Andrade, uma das raras aquisições de grande sucesso do FC Porto nas últimas épocas, é cobiçado pelo Manchester, Arsenal e Barcelona, e parece condenado a emigrar em troca de um contrato que transforma numa esmola o seu primeiro salário no Estrela da Amadora. Na impossibilidade de um dos centrais, qualquer deles estará em condições para o render. Mas é improvável que na fase final façam alguma vez parceria. Lançado na selecção por Oliveira, Andrade tem a vantagem de poder ser utilizado a «trinco». Mas em matéria de polivalência Beto leva a melhor: já experimentou o meio-campo e as faixas laterais. A dupla alternativa e da nova vaga. Mais elegante, mais tecnicista, talvez menos eficaz, Roberto/Beto tem um dos «sites» mais atraentes e sofisticados do nosso futebol, (Beto22.com) já foi dado como certo no Real Madrid e o seu passe foi incluído no fundo de investimento que reúne os jogadores mais valiosos do Sporting. Não foi convocado para o amigável com o Brasil, mas seria uma surpresa se o seu nome não figurasse entre os eleitos para a fase final. Andrade, uma das raras aquisições de grande sucesso do FC Porto nas últimas épocas, é cobiçado pelo Manchester, Arsenal e Barcelona, e parece condenado a emigrar em troca de um contrato que transforma numa esmola o seu primeiro salário no Estrela da Amadora. Na impossibilidade de um dos centrais, qualquer deles estará em condições para o render. Mas é improvável que na fase final façam alguma vez parceria. Lançado na selecção por Oliveira, Andrade tem a vantagem de poder ser utilizado a «trinco». Mas em matéria de polivalência Beto leva a melhor: já experimentou o meio-campo e as faixas laterais. Marco Caneira, 23 anos Há sempre uma primeira vez, mesmo para quem é um histórico nas selecções (89 internacionalizações) e um habitual nos sub-21. Deste central formado no Sporting e emprestado pelo Inter de Milão ao Benfica e a quem faltam uns centímetros para se impor no eixo da defesa, elogia-se-lhe a versatilidade e cultura táctica que lhe permitiram esta época fazer três posições diferentes. Estreou-se com a Finlândia, repetiu com o Brasil. As convocatórias deixam a ideia de que pode ser opção para o lado direito ou para o lado esquerdo, tendo-se estreado neste lugar com uma exibição que não o comprometeu. Há sempre uma primeira vez, mesmo para quem é um histórico nas selecções (89 internacionalizações) e um habitual nos sub-21. Deste central formado no Sporting e emprestado pelo Inter de Milão ao Benfica e a quem faltam uns centímetros para se impor no eixo da defesa, elogia-se-lhe a versatilidade e cultura táctica que lhe permitiram esta época fazer três posições diferentes. Estreou-se com a Finlândia, repetiu com o Brasil. As convocatórias deixam a ideia de que pode ser opção para o lado direito ou para o lado esquerdo, tendo-se estreado neste lugar com uma exibição que não o comprometeu. Mário Silva, 25 anos Na estreia, no Bessa, com a Finlândia, ganhou a titularidade a Caneira, o que significa que, descartadas hipóteses como Kenedy ou Nuno Valente, pode ambicionar a um lugar na convocatória final. Com uma exibição mediana, foi dos menos culpados da falência colectiva na goleada finlandesa. Foi preterido no jogo com o Brasil, um indício de que não fará parte dos planos do seleccionador. Tem a vantagem de ser um lateral esquerdo de raiz - Caneira é uma adaptação - com a raça de que Oliveira gosta. Na lista de oito defesas que embarcará para a Ásia, é provável que a dúvida se coloque precisamente entre estes dois jogadores. Pela polivalência e pelos minutos de jogo, Caneira levará vantagem. Mas tudo dependerá do desempenho de cada um até ao final da época. Na estreia, no Bessa, com a Finlândia, ganhou a titularidade a Caneira, o que significa que, descartadas hipóteses como Kenedy ou Nuno Valente, pode ambicionar a um lugar na convocatória final. Com uma exibição mediana, foi dos menos culpados da falência colectiva na goleada finlandesa. Foi preterido no jogo com o Brasil, um indício de que não fará parte dos planos do seleccionador. Tem a vantagem de ser um lateral esquerdo de raiz - Caneira é uma adaptação - com a raça de que Oliveira gosta. Na lista de oito defesas que embarcará para a Ásia, é provável que a dúvida se coloque precisamente entre estes dois jogadores. Pela polivalência e pelos minutos de jogo, Caneira levará vantagem. Mas tudo dependerá do desempenho de cada um até ao final da época. Texto de Abílio Ferreira
ENVIAR COMENTÁRIO
Categorias
Entidades
Defesas Corta Vicente
Apesar de somar 62 anos, a dupla Fernando Couto/Jorge Costa, deverá ser a escolhida por Oliveira para defender a cabeça da grande área portuguesa, na Coreia do Sul, tarefa que no Mundial de 66, em Inglaterra, foi desempenhada com eficiência pelo belenense Vicente.
Texto de Henrique Monteiro ASF O moçambicano Vicente, envergando a camisola azul com a Cruz de Cristo, disputa um lance com o angolano e benfiquista José Águas A intelectualidade, nomeadamente a cinéfila, poderá pensar que a expressão «Corta Vicente!» seria uma espécie de ordem dada a Vicente Jorge Silva nos tempos em que o ex-jornalista e actual deputado fez incursões pelo cinema. Mas houve uma época em que o mais famoso Vicente de Portugal foi um moçambicano, defesa do Belenenses e da Selecção Nacional; o homem que no glorioso ano de 1966 mais bolas roubou aos adversários dos «magriços», cognome com que passaram à História os seleccionados portugueses para o Mundial de Inglaterra. A intelectualidade, nomeadamente a cinéfila, poderá pensar que a expressão «Corta Vicente!» seria uma espécie de ordem dada a Vicente Jorge Silva nos tempos em que o ex-jornalista e actual deputado fez incursões pelo cinema. Mas houve uma época em que o mais famoso Vicente de Portugal foi um moçambicano, defesa do Belenenses e da Selecção Nacional; o homem que no glorioso ano de 1966 mais bolas roubou aos adversários dos «magriços», cognome com que passaram à História os seleccionados portugueses para o Mundial de Inglaterra. Na altura, ainda a televisão era a preto e branco e de som roufenho, brilhavam os radialistas (Alves dos Santos, Artur Agostinho), relatadores de futebol que falavam à velocidade de umas 20 palavras por segundo. No meio da ansiosa algaraviada, o tom subindo do rouco para o agudo, as palavras mais e mais embrulhadas, que correspondia ao ataque dos nossos adversários, lá respirava fundo o país quando o enviado especial ao Mundial de Inglaterra, gritava, ele também aliviado: «Corta Vicente para o lado da bancada!» Há 36 anos o futebol era diferente e talvez fosse mais básico. Um defesa defendia, um atacante atacava e um médio ligava os dois sectores. Vicente, irmão do também famoso Matateu (Sebastião Lucas Fonseca), era, na verdade, um quarto defesa, ou uma espécie de médio defensivo mais recuado, que tinha por função essencial destruir as ofensivas, tal como o seu companheiro, Alexandre Baptista, do Sporting, ou Germano, do Benfica. Juntamente com os laterais, Hilário e Morais, leões de méritos firmados, providenciavam de modo a que o inimigo não criasse perigo nas nossas redes. Lá para frente, já se sabe, Simões, Torres, José Augusto e esse génio que era Eusébio (tudo rapaziada da altura em que o clube das águias era o maior) se encarregariam de fazer aos outros o que não gostávamos que nos fizessem. Eu não sei se Vicente foi o melhor defesa de sempre da nossa selecção, embora ele tenha marcado e anulado exemplarmente o melhor avançado de todas as épocas: Pelé. Sei apenas que mais nenhum ficou com o nome ligado à palavra corta. Nunca se exclamou «corta Baptista!», «corta Humberto!», «corta Eurico!» ou «corta Couto!». E sei que os defesas são, no geral, injustiçados. Valem menos, recebem menos e são menos idolatrados do que os avançados e os médios. Por muito bons que sejam - como o são Fernando Couto, Jorge Costa e Beto - nunca chegam aos píncaros da glória, já não digo de um Eusébio ou de um Figo, mas mesmo de um Rui Costa, de um João Pinto ou mesmo de um Nuno Gomes. O defesa é, por definição, um jogador em quem se repara muito mais quando comete erros. Mas o futebol foi mudando. E, felizmente para os defesas, as novas tácticas permitem-lhes marcar golos ou fazer assistências para golos. Em certo sentido, valorizaram-se. Os centrais sobem, nos livres e nos cantos, e disputam, de cabeça, a explosão de um golo. Os laterais correm pelas respectivas faixas, centram e disparam. Quando já se vê um ponta-de-lança a cortar bolas junto à sua grande área, tem-se a prova de que as posições deixaram de ser fixas, à medida que o futebol se tornou mais elaborado. Neste Mundial de 2002, Portugal tem excelentes defesas. Não só a dupla de centrais Fernando Couto/Jorge Costa, mas ainda Beto, Jorge Andrade e, se necessário, Fernando Meira, como também os laterais Abel Xavier e Rui Jorge e ainda Mário Silva, Caneira ou Frechaut. E, como no futebol moderno não são só os defesas que defendem, há ainda que contar com os trincos - Petit, Paulo Sousa, Costinha, Vidigal e Paulo Bento - e, se a aflição for de monta, até Figo, João Pinto e quem mais houver, são homens para tirar a bola da nossa área. Vicente tem uma história trágica. Logo após o Mundial de 1966 ficou cego de um olho, devido a um acidente de automóvel, e nunca mais pôde jogar. Tinha 31 anos e desde então vive modestamente, ainda e sempre ligado ao seu Belenenses. Tornou-se num mito, sem nunca ter sido um ídolo. Numa época em que pouco se ganhava, em que a publicidade não ocupava as camisolas dos jogadores (e menos a roupa interior), em que se permanecia anos ou décadas ao serviço do mesmo clube, ninguém ganhou dinheiro a sério com o futebol (ele arrecadou 90 contos com o Mundial, mais 60 por usar botas Adidas). Porém, nestas páginas dedicadas aos defesas da nossa Selecção, é justo que todos aqueles que conhecem a frase feita «Corta Vicente», saibam que esse Vicente é Vicente Lucas, talvez um dos jogadores mais correctos do futebol português, que entrava às bolas com pés de veludo e tinha pavor em magoar um adversário. E resta a esperança que, em Junho, quando estivermos a ouvir os comentadores da televisão (agora a cores e em estereofonia) a relatar os jogos da equipa nacional, perante os ataques adversários tenhamos aquele imenso alívio que, em 1966, sentíamos quando alguém gritava: «Corta Vicente!» E que ele, agora com 66 anos, possa também ter essa alegria. 10
As opções de Oliveira Frechaut, 24 anos FOTOGRAFIAS LUSA Pensava que era uma brincadeira de Jaime Pacheco, quando este, há um ano, o informou que fora convocado para o jogo na Irlanda. Desde então, foi sempre chamado por Oliveira, ficando pela primeira vez de fora na convocatória com o Brasil. Adaptado a defesa-direito no Boavista por lesão do titular Rui Óscar, beneficiou da crise de laterais que marca o nosso futebol e das exibições da sua equipa de que se tornou uma das referências. Apesar desta última dispensa, discutirá com Abel Xavier a titularidade, ele que, consciente das suas fragilidades, já reconheceu que não se sentia como primeira opção. No amigável com a Espanha, Munitis pôs-lhe a cabeça à roda e no naufrágio colectivo com a Finlândia foi dos primeiros a «meter água». Pensava que era uma brincadeira de Jaime Pacheco, quando este, há um ano, o informou que fora convocado para o jogo na Irlanda. Desde então, foi sempre chamado por Oliveira, ficando pela primeira vez de fora na convocatória com o Brasil. Adaptado a defesa-direito no Boavista por lesão do titular Rui Óscar, beneficiou da crise de laterais que marca o nosso futebol e das exibições da sua equipa de que se tornou uma das referências. Apesar desta última dispensa, discutirá com Abel Xavier a titularidade, ele que, consciente das suas fragilidades, já reconheceu que não se sentia como primeira opção. No amigável com a Espanha, Munitis pôs-lhe a cabeça à roda e no naufrágio colectivo com a Finlândia foi dos primeiros a «meter água». Jorge Costa, 30
Fernando Couto, 32 anos Uma imparável dupla, para «dar e durar» como diz Oliveira. O «capitão», recordista absoluto de internacionalizações (82) e o seu dedicado companheiro, dois símbolos do espírito guerreiro da selecção. A sua raça, paixão e mística tornam esta sociedade ítalo-saxónica Couto & Costa, imprescindível na equipa. A opção de Oliveira pela experiência, apostando na dupla de centrais, que, com mais de 60 anos, será porventura a menos fresca da fase final, contém perigos e riscos e poderá ser pretexto de críticas se as coisas correrem mal. Em nome da selecção, Costa (foto à esquerda) aceitou exilar-se no modesto Charlton e ganhou o desafio da titularidade. Couto (foto à direita) não se deixou abater pelo trauma da nandrolona e regressou ao seu posto na Lazio. Nos dois casos, contaram com a sincera solidariedade de Oliveira. Este sabe que pode contar com eles. Uma imparável dupla, para «dar e durar» como diz Oliveira. O «capitão», recordista absoluto de internacionalizações (82) e o seu dedicado companheiro, dois símbolos do espírito guerreiro da selecção. A sua raça, paixão e mística tornam esta sociedade ítalo-saxónica Couto & Costa, imprescindível na equipa. A opção de Oliveira pela experiência, apostando na dupla de centrais, que, com mais de 60 anos, será porventura a menos fresca da fase final, contém perigos e riscos e poderá ser pretexto de críticas se as coisas correrem mal. Em nome da selecção, Costa (foto à esquerda) aceitou exilar-se no modesto Charlton e ganhou o desafio da titularidade. Couto (foto à direita) não se deixou abater pelo trauma da nandrolona e regressou ao seu posto na Lazio. Nos dois casos, contaram com a sincera solidariedade de Oliveira. Este sabe que pode contar com eles. Abel Xavier, 29 anos Quem alinha no Liverpool, até marca golos - como sucedeu na sua estreia frente ao Ipswich e recentemente ao Bayer Leverkusen -, e tem uma experiência de selecção de oito anos é, seguramente, um forte candidato a titular. Depois da penosa suspensão devido aos incidentes na meia-final do Euro 2000 e de lesões que condicionaram o seu rendimento, poderá estar a caminho da melhor forma. É precioso no jogo aéreo, é bom de pés, e a sua figura de «viking» pode servir para intimidar os adversários. Aliás, numa votação promovida por um «site» inglês de futebol, foi considerado o quarto jogador mais feio da Premier League, ele que é apontado pelos estilistas como um belo exemplar para desfilar nas «passerelles». Depois do futebol, tem na moda uma carreira garantida. Quem alinha no Liverpool, até marca golos - como sucedeu na sua estreia frente ao Ipswich e recentemente ao Bayer Leverkusen -, e tem uma experiência de selecção de oito anos é, seguramente, um forte candidato a titular. Depois da penosa suspensão devido aos incidentes na meia-final do Euro 2000 e de lesões que condicionaram o seu rendimento, poderá estar a caminho da melhor forma. É precioso no jogo aéreo, é bom de pés, e a sua figura de «viking» pode servir para intimidar os adversários. Aliás, numa votação promovida por um «site» inglês de futebol, foi considerado o quarto jogador mais feio da Premier League, ele que é apontado pelos estilistas como um belo exemplar para desfilar nas «passerelles». Depois do futebol, tem na moda uma carreira garantida. Rui Jorge, 29 anos Carlos Alberto Silva, o treinador que o lançou no FC Porto, classificou-o recentemente como «um dos melhores laterais do mundo». Mas a verdade é que a falta de rivais pela crise de valores no seu posto é que lhe garante um lugar cativo no onze inicial. Do lado esquerdo da defesa, o seleccionador não tem dúvidas. Dimas, que voltara a ser chamado para o jogo com a Espanha depois de um jejum de 15 meses, poderia fazer-lhe sombra, mas a sua carreira cada vez mais irregular no Marselha faz dele uma carta fora deste baralho. Concluiu-se agora que o negócio, entre as Antas e Alvalade, que conduziu Rui Jorge e Bino para Lisboa por troca com Peixe e Costinha foi mais proveitoso para o Sporting. Carlos Alberto Silva, o treinador que o lançou no FC Porto, classificou-o recentemente como «um dos melhores laterais do mundo». Mas a verdade é que a falta de rivais pela crise de valores no seu posto é que lhe garante um lugar cativo no onze inicial. Do lado esquerdo da defesa, o seleccionador não tem dúvidas. Dimas, que voltara a ser chamado para o jogo com a Espanha depois de um jejum de 15 meses, poderia fazer-lhe sombra, mas a sua carreira cada vez mais irregular no Marselha faz dele uma carta fora deste baralho. Concluiu-se agora que o negócio, entre as Antas e Alvalade, que conduziu Rui Jorge e Bino para Lisboa por troca com Peixe e Costinha foi mais proveitoso para o Sporting. Jorge Andrade, 24 anos
e Beto, 26 anos A dupla alternativa e da nova vaga. Mais elegante, mais tecnicista, talvez menos eficaz, Roberto/Beto tem um dos «sites» mais atraentes e sofisticados do nosso futebol, (Beto22.com) já foi dado como certo no Real Madrid e o seu passe foi incluído no fundo de investimento que reúne os jogadores mais valiosos do Sporting. Não foi convocado para o amigável com o Brasil, mas seria uma surpresa se o seu nome não figurasse entre os eleitos para a fase final. Andrade, uma das raras aquisições de grande sucesso do FC Porto nas últimas épocas, é cobiçado pelo Manchester, Arsenal e Barcelona, e parece condenado a emigrar em troca de um contrato que transforma numa esmola o seu primeiro salário no Estrela da Amadora. Na impossibilidade de um dos centrais, qualquer deles estará em condições para o render. Mas é improvável que na fase final façam alguma vez parceria. Lançado na selecção por Oliveira, Andrade tem a vantagem de poder ser utilizado a «trinco». Mas em matéria de polivalência Beto leva a melhor: já experimentou o meio-campo e as faixas laterais. A dupla alternativa e da nova vaga. Mais elegante, mais tecnicista, talvez menos eficaz, Roberto/Beto tem um dos «sites» mais atraentes e sofisticados do nosso futebol, (Beto22.com) já foi dado como certo no Real Madrid e o seu passe foi incluído no fundo de investimento que reúne os jogadores mais valiosos do Sporting. Não foi convocado para o amigável com o Brasil, mas seria uma surpresa se o seu nome não figurasse entre os eleitos para a fase final. Andrade, uma das raras aquisições de grande sucesso do FC Porto nas últimas épocas, é cobiçado pelo Manchester, Arsenal e Barcelona, e parece condenado a emigrar em troca de um contrato que transforma numa esmola o seu primeiro salário no Estrela da Amadora. Na impossibilidade de um dos centrais, qualquer deles estará em condições para o render. Mas é improvável que na fase final façam alguma vez parceria. Lançado na selecção por Oliveira, Andrade tem a vantagem de poder ser utilizado a «trinco». Mas em matéria de polivalência Beto leva a melhor: já experimentou o meio-campo e as faixas laterais. Marco Caneira, 23 anos Há sempre uma primeira vez, mesmo para quem é um histórico nas selecções (89 internacionalizações) e um habitual nos sub-21. Deste central formado no Sporting e emprestado pelo Inter de Milão ao Benfica e a quem faltam uns centímetros para se impor no eixo da defesa, elogia-se-lhe a versatilidade e cultura táctica que lhe permitiram esta época fazer três posições diferentes. Estreou-se com a Finlândia, repetiu com o Brasil. As convocatórias deixam a ideia de que pode ser opção para o lado direito ou para o lado esquerdo, tendo-se estreado neste lugar com uma exibição que não o comprometeu. Há sempre uma primeira vez, mesmo para quem é um histórico nas selecções (89 internacionalizações) e um habitual nos sub-21. Deste central formado no Sporting e emprestado pelo Inter de Milão ao Benfica e a quem faltam uns centímetros para se impor no eixo da defesa, elogia-se-lhe a versatilidade e cultura táctica que lhe permitiram esta época fazer três posições diferentes. Estreou-se com a Finlândia, repetiu com o Brasil. As convocatórias deixam a ideia de que pode ser opção para o lado direito ou para o lado esquerdo, tendo-se estreado neste lugar com uma exibição que não o comprometeu. Mário Silva, 25 anos Na estreia, no Bessa, com a Finlândia, ganhou a titularidade a Caneira, o que significa que, descartadas hipóteses como Kenedy ou Nuno Valente, pode ambicionar a um lugar na convocatória final. Com uma exibição mediana, foi dos menos culpados da falência colectiva na goleada finlandesa. Foi preterido no jogo com o Brasil, um indício de que não fará parte dos planos do seleccionador. Tem a vantagem de ser um lateral esquerdo de raiz - Caneira é uma adaptação - com a raça de que Oliveira gosta. Na lista de oito defesas que embarcará para a Ásia, é provável que a dúvida se coloque precisamente entre estes dois jogadores. Pela polivalência e pelos minutos de jogo, Caneira levará vantagem. Mas tudo dependerá do desempenho de cada um até ao final da época. Na estreia, no Bessa, com a Finlândia, ganhou a titularidade a Caneira, o que significa que, descartadas hipóteses como Kenedy ou Nuno Valente, pode ambicionar a um lugar na convocatória final. Com uma exibição mediana, foi dos menos culpados da falência colectiva na goleada finlandesa. Foi preterido no jogo com o Brasil, um indício de que não fará parte dos planos do seleccionador. Tem a vantagem de ser um lateral esquerdo de raiz - Caneira é uma adaptação - com a raça de que Oliveira gosta. Na lista de oito defesas que embarcará para a Ásia, é provável que a dúvida se coloque precisamente entre estes dois jogadores. Pela polivalência e pelos minutos de jogo, Caneira levará vantagem. Mas tudo dependerá do desempenho de cada um até ao final da época. Texto de Abílio Ferreira
ENVIAR COMENTÁRIO